Património Religioso

  

 

PROENÇA-A-NOVA E PERAL

 Igreja Matriz de Proença-a-Nova

O ano de construção da Igreja Matriz não é o mais consensual. Sabe-se que a mesma sofreu com o terramoto de 1755 tendo sido alvo de grandes modificações e acrescentos ao longo dos tempos. Permanecem erguidas as colunas de granito, o púlpito e a cruz de malta sobre o arco da entrada principal, evidenciando a sua antiguidade, que parece remontar a finais do séc XVI/princípios do séc. XVII. A Igreja inicialmente constituída por três naves e três altares, apresenta hoje elementos acrescidos, como a torre, o coro alto e a sala anexa. A partir de 1810 o adro do lado Norte serviu também de cemitério. Mais tarde, em 1855 a família Telo da Fonseca doou a sua capela de S. João Baptista, que era contígua à Igreja, para nela ser colocado o S. Sacramento. É orago a Nª Srª da Assunção.

Quem entra na igreja Matriz de Proença-a-Nova no primeiro momento tem a impressão de ser engolido pelas suas oito majestosas colunas em granito: duas quadradas que parecem assegurar o pórtico da entrada principal e seis cilíndricas que suportam o maior peso do tecto da nave. Estas colunas e o arco cruzeiro, igualmente em pedra granítica, que separa o corpo da igreja e o altar-mor dão ao ambiente uma certa imponência abrindo espaço à admiração e ao recolhimento. Seria esta a ideia mestra que comandou os antigos na edificação e elevação das colunas aquando da última ampliação (1713?) da igreja? Diante da envolvência granítica apresentada e agora particularmente diante do valioso púlpito em granito com o formato de um verdadeiro cálice adossado na coluna próxima da capela confessionária, surge então a curiosidade. Tendo em conta que o granito existia apenas para as bandas de Castelo Branco, as dificuldades de transporte e as dificuldades económicas acentuadas, como arranjaram os antigos a coragem para trazerem as pedras de tão longe? O padre Alfredo Dias, pároco da freguesia, na ocasião da construção do Centro Paroquial e restauro da Igreja (de 17 de Janeiro de 1980 a 22 de Janeiro de 1984), entusiasmado pela coragem daquela gente, esforçou-se por obedecer às linhas do granito. Depois da remoção do antigo pavimento e reforçadas as bases das colunas graníticas, acrescentou-se o lajeado granítico do guarda vento e de toda a coxia central, bem como os degraus e supedâneos da capela-mor e os fronteiros aos altares laterais. Como que a proteger e a dominar o altar-mor, ergueu-se em grande pedra granítica, qual rocha do calvário, a cruz de Jesus usada na Sexta-feira Santa. Com um granito azulado proveniente das pedreiras de S. Gens, lugar dos limites da Idanha-a-Nova, ergueu-se a peça mais importante de todas as outras deste último restauro: o altar central, para onde convergem todas as linhas da igreja. A igreja matriz é marcada pelo granito que não deixa de colmatar a sensação de pobreza deixada pelas grossas paredes sujeitas ao longo dos tempos a sucessivos acrescentos. Ao entrar na igreja pela porta principal, ouse levantar a cabeça e fixar o seu olhar na cruz da Ordem de Malta ostentada entre os umbrais da porta principal e da janela. E avivar a memória para o espírito aguerrido e empreendedor que ela suscita.

Ressaltamos os quatro painéis em azulejos dispostos à volta do altar-mor e o Cristo crucificado. A ideia base da disposição dos painéis é tornar acessível ao povo a espiritualidade da Redenção operada por Cristo. Segue-se uma pedagogia catequética patenteando a ligação sacrificial-salvífica entre o Antigo e o Novo Testamento. Assim, na parede do lado Norte ressalta-se em grande plano o sacerdócio da Antiga Lei e as vítimas figurativas da vítima por excelência, Jesus Cristo. Ao lado, em maior plano, Abraão, pronto para provar a sua fé, sacrificando o seu único filho, Isaac. Diante de tamanha fé, o mensageiro de Deus intervém: “Não levantes a mão sobre o menino e não lhe faças mal algum, porque sei agora que, na verdade, temes a Deus, visto não me teres recusado o teu único filho” (Gen22,12). Na parede do lado Sul está o painel representativo do Sacrifício dos sacrifícios, isto é, Jesus consumando duma vez por todas todos os sacrifícios do Antigo Testamento acima citados. Jesus está entregue à sua sorte e aos carrascos. Aqui não há a intervenção do Céu, pois o desígnio do Pai corresponde ao cenário: Jesus aceita a crucificação e oferece-se a si mesmo como vítima para o resgate de toda a humanidade. Aliás, Jesus já fizera esta doação na última ceia, representada no painel sobre o arco-cruzeiro. Este painel expressa a instituição da Eucaristia: atualização perene da ação de Deus no meio dos Homens e particularmente o memorial da paixão, morte e Ressurreição de Jesus. Ora, quem olha para os painéis com olhos de ver, fica com esta impressão: a ideia base de tudo isto não é enaltecer a arte, mas sim propor uma catequese que visa ensinar que os sacrifícios e as figuras da Antiga Lei têm o seu ponto culminante no sacrifício de Cristo. E este por sua vez, é atualizado em cada Eucaristia, não pelos sacerdotes do Antigo Testamento, mas pelos sacerdotes que atuam “in persona Christi”. A expressar o amor limite de Deus pelos homens, está do lado Sul, ligeiramente à frente do altar, Jesus numa cruz de cor negra, elevada sobre uma rocha de granito. Toda a expressão, a cabeça inclinada sobre o ombro direito, repouso duma madeixa de cabelo, alongamento do rosto acentuado pela barba pontiaguda e nariz estreito, cabelo escorrido por detrás da orelha… transpira um Jesus ainda vivo, uma espiritualidade de domínio do próprio sofrimento, de voluntariedade da sua aceitação e de oferta salvadora a todos os povos.

O retábulo do Sagrado Coração de Jesus é coetâneo do retábulo do Imaculado Coração de Maria. Estamos diante de obra do mesmo entalhador e, naturalmente, segue a mesma ordem arquitetónica e estilística. Os retábulos de origem são em talha dourada da fase final do século XVIII, rocaille (rococó). Ao nível dos entalhes escultórios denotam-se fragilidades artísticas intensas do entalhador. É uma obra de cariz popular. Como se pode verificar nos anjos com erros anatómicos encimados nos áticos. Quer num quer noutro, são evidentes as dificuldades do entalhador em enquadrar o retábulo no edifício. Particularmente no retábulo do Coração de Jesus é notório, nas colunas, um desequilíbrio, inclinado em relação ao entablamento, acarretando problemas adicionais em relação à estrutura do conjunto. As últimas intervenções de restauro do século XX descaracterizaram profundamente o traço original. Tiveram lugar, provavelmente, quando alteraram o grupo escultório destes retábulos. Em 1758, era São Pedro que presidia ao altar do Sagrado Coração de Jesus, aliás, como se verifica nos símbolos referentes ao apóstolo. Também quem presidia ao altar onde está o Coração Imaculado de Maria era Nª Sr.ª do Rosário. Estas últimas intervenções surgiram respondendo à necessidade de propagar, por um lado, a devoção ao Sagrado Coração de Jesus e por outro a devoção ao Imaculado Coração de Maria. Nos anos 1673, quando Margarida Maria Alacoque rezava diante do sacrário, apareceu-lhe Jesus Cristo indicando o seu coração com a mão e incumbindo-lhe a missão de propagar a devoção ao seu Sagrado Coração porque o mundo é muito frio em amor para Deus e é necessário entusiasmar as pessoas por este amor. O Sagrado Coração de Jesus prometeu graças sobre graças às pessoas que praticassem esta devoção: “Abençoarei as casas onde seja exposta ou honrada a imagem do meu Sagrado Coração. Darei paz às famílias. Aos pecadores os tornarei bons e aos que já são bons os tornarei santos…”. Diante da manifestação da fraqueza e medo para concretizar tamanha missão, Jesus responde: “Escolhi a ti que é abismo de misérias, para que apareça mais o meu poder. E quando a tua frieza para amar a Deus te dou de presente uma faísca do amor do meu coração”. Nos anos 1917, Nossa Senhora do Rosário deixou aos pastorinhos este legado: “…para salvar as almas, Deus quer estabelecer no mundo a Devoção ao Meu Imaculado Coração”. “Se fizerem o que eu vos disser, salvar-se-ão muitas almas e terão a paz. A guerra vai acabar” (in Memórias da irmã Lúcia). A resposta a este desafio na igreja matriz não foi muito feliz, principalmente no altar do Sagrado Coração de Jesus. Por um lado, porque o grupo escultório (Coração de Jesus e Santa Margarida Alacoque) é desproporcional em relação ao espaço da tribuna e, como já foi dito, não corresponde aos símbolos presentes, referentes à figura do apóstolo São Pedro. Por outro lado, a pouca qualidade do artista, na tentativa de adaptar o espaço da tribuna para novos “hóspedes”, desvirtuou a policromia conferindo-lhe uma leitura errónea daquilo que seria provavelmente original. Oxalá que as virtudes do Sagrado Coração de Jesus e Imaculado Coração de Maria sejam interiorizadas e assim consigamos a força anímica para preservar e melhorar este grande legado.

O retábulo da capela do Calvário é aquele que, em todo o conjunto da igreja, parece ter a melhor execução do entalhe, revelando o melhor cuidado a nível da modelação da madeira. A decoração naturalista é executada com vigor e de forma solta, conferindo-lhe um cariz de força e equilíbrio visual. O conjunto é em talha dourada, barroco. À frente e a dominar toda a capela, está em excelente escultura do século XVII/XVIII Cristo Crucificado, assente sobre o calvário talhado em cortiça. No cenário de fundo está a Cidade Santa, Jerusalém, pintada sobre madeira. Embora a policromia pareça ter sofrido algumas transformações, é de todas as talhas da igreja a mais próxima do original. Na capela-mor deparamos com talhas douradas caracterizadas pelo barroco, provavelmente de meados do século XVIII. Apesar das intervenções de restauro do século XX terem alterado significativamente o traço original, particularmente a mesa do altar, não deixa de ser curioso ver aquele entalhe simples e popular: as colunas pseudo- salomónicas, compostas por elementos típicos do barroco, como os “putti”, as folhas de parra e os cachos de uvas; o sacrário, obra recente e o trono, mesmo sem grandes pormenores artísticos. Neste conjunto realça-se o ático onde o entalhador se empenhou dando algum movimento e exuberância típicas deste período. A nível da volumetria e equilíbrio arquitetural, parece ser um retábulo bem proporcionado e equilibrado. Excetua-se a imagem da padroeira da paróquia, Nossa Senhora de Assunção, que foi encaixada no trono erigido para a exposição do Santíssimo Sacramento. É certo que a ideia é fazer sobressair a padroeira, de braços erguidos ao céu como que um apelo constante para quem entra no seu santuário a elevar a sua vida para as alturas, para Deus. No entanto, esse trono, uma vez que deixou de exercer a sua função, ou ficava liberto como marco da entronização de Cristo Eucarístico ou, na melhor das hipóteses, seria ocupado por um crucifixo.

 Capela do Caniçal - São Roque

Falar da capela do Caniçal, significa também recuar no tempo em que ela era pertença da família Cardoso Sequeira e ver no trono São Roque, padroeiro da família e por afinidade, patrono de todos os povos vizinhos. Significa entrar no tempo que se seguiu à implantação da República, tempo esse em que essas povoações se tornaram o palco convergente e decisivo das coisas da Diocese de Portalegre. Pois, diante da iminente perseguição e perigo, o Bispo da Diocese de Portalegre foi obrigado a refugiar-se nesses lugares, e portanto, a capela viu-se, durante algum tempo, na missão de catedral. Sabe-se que, pelo menos uma vez, foram ali ordenados, meio clandestinamente, sete novos sacerdotes. A capela tornou-se propriedade da Fábrica da Igreja de Proença-a-Nova na sequência da doação feita à mesma, pelos casais Simão Pires e Maria do Carmo, Manuel Ferreira e Maria Nogueira, mediante a escritura feita em 15 de Março de 1979 por estes e pelo Sr. Padre Alfredo Dias, à época pároco de Proença-a-Nova em 1980 (no “O Jornal Concelho de Proença-a-Nova), um grupo de quatro homens, representes das quatro povoações e constituídos em comissão restauradora, proclamava: “Caros amigos e conterrâneos é com muita alegria que vos comunicamos que já recomeçamos com a reconstrução da capela do Caniçal Cimeiro. Precisamos, portanto, da ajuda de todos os filhos e amigos da capelania para pormos em pé uma casa onde todos nós temos lugar. Já recebemos algum donativo”. Nos dias 8 e 9 de Agosto de 1981, segunda a mesma fonte, “realizou na povoação de Caniçal Cimeiro uma grande festa, aliás a 1ª que há memória, cujo produto reverteu a favor da restauração”.

Depois de muito esforço e sacrifício de todos os filhos e os amigos da terra, a capela ganhava os dois atuais braços laterais e a sacristia, um novo e imponente altar colocado no presbitério da nova estrutura. Assim, em 1984, a obra estimada em 610.850$00 (seiscentos e dez mil oitocentos e cinquenta escudos) foi concluída com um gasto total de 963.000$00 (novecentos e sessenta e três mil escudos). Em 12 de Agosto de 1984 todos os povos vizinhos se juntavam em júbilo na nova capela para participar na Missa concelebrada pelos padres Alfredo Dias, pároco da Paróquia e Armando Tavares, capelão desta capelania. Seguiu-se a procissão e a entronização das novas imagens que ali se encontram. O crucifixo, (oferecido por Maria do Carmo Dias e Sr. Vicente Alves) imponente e elevado sobre o novo sacrário, está ladeado por Nossa Senhora do Rosário de Fátima (oferta de João Sequeira) e o novo Patrono, S. João Evangelista (oferta de Joaquim Fernandes). A antiga imagem de S. Roque, esquecida na sacristia e já um pouco danificada, foi recentemente restaurada e encontra-se também na mesma capela. excerto da publicação da Agenda Cultural de Junho de 2010, pelo Pe. Ilídio Graça.

 Capela dos Casais - São Lourenço

No dia 16 de Fevereiro de 1969 as povoações dos Casais, Montinho e Vale Porco em sintonia com o seu pároco, P. Alfredo Dias, davam asas a uma comissão pró-construção da capela em honra de São Lourenço. O sonho da maioria da população, alimentado pelo P. Manuel Fernandes, membro da Sociedade Missionária e filho da terra, ganhava corpo. Delineados os terrenos para a construção da capela e o respetivo adro, doados por José Maria Pedro, Alfredo Fernandes Bairrada e Manuel Alves, bastou à comissão constituída por Manuel Afonso da Silva, Carlos Farinha Cardoso, Daniel Lourenço, José Maria Cardoso, Joaquim Farinha Tavares, José Maria Pedro e Francisco Tavares, levantar a âncora e mergulhar em busca do necessário para fazer emergir a obra. Extraordinariamente, a primeira investida feita de porta em porta nessas povoações, resultou em 50.100$00, o sinal de que em breve o sonho seria concretizado. Ora, com o esforço e empenho das referidas povoações, os filhos no estrangeiro e amigos desta causa, em curto prazo São Lourenço viu nascer a sua casa cujo custo final foi de 95.220$00.

Assim, nos dias 21 e 22 de Setembro de 1969, todos os caminhos iam dar aos Casais. Era a primeira festa em honra de São Lourenço. O momento mais alto da festa foi, como não podia deixar de ser, a Eucaristia presidida pelo pároco da paróquia, P. Alfredo Dias concelebrada por dois filhos da terra: padres Manuel Fernandes e Joaquim Farinha. A Eucaristia foi antecedida pela bênção da imagem do patrono e pela procissão à volta da capela. Era festa! Para além da iluminação, aparelhagem, quermesses…o Rancho folclórico dos Casais, desabrochava coma sua folia. Então a comissão pôde exclamar por um dos seus membros: “Esta capela é para os habitantes e naturais dos Casais de São Lourenço um sinal vivo de sua fé, estímulo poderoso à sua união e o ponto de partida para outras realizações de que tanto carecem”. 

Este Mártir, segundo a tradição popular, já tinha uma capelinha em tempos remotos nos Casais mas que o mesmo tempo apagou da história. No entanto, a memória de uma antiga capela e o seu nome atribuído a muito boa gente fizeram nascer a capela de São Lourenço dos Casais. É uma das capelas da Paróquia de Proença-a-Nova, situada na periferia da mesma Vila. Ela tem as características bem ao gosto do seu arquiteto Abrunhosa de Brito: linhas sóbrias, elegantes e modernas. O presbitério favorece uma ampla abertura sobre a nave possibilitando comunicação recíproca do ministro do culto e fiéis. A porta de ingresso abre generosamente a toda a largura da capela permitindo a participação do exterior, nos dias em que se junta um maior número de fiéis. Entre o presbitério e a nave, próximo do ambão, está uma parede-nicho, onde serenamente São Lourenço esculpido em madeira de cedro brasileiro e ricamente decorado em ouro, se manifesta o real protetor e auxilio dos fiéis que devotamente a ele se dirige. Do outro lado, uma imagem de Nossa Senhora de Fátima, comprada coma contribuição generosa de todas as senhoras residentes naquelas povoações.excerto da publicação da Agenda Cultural de Setembro de 2010, pelo Pe. Ilídio Graça.

 Capela das Corgas - Nossa Senhora do Carmo

Num dia da graça do Senhor do ano 1959, o Senhor Vigário, Pe. Alfredo Dias e a comissão constituída, rodeados por um povo entusiasta, colocaram sobre rocha dura uma pedra medulada por uma garrafa recheada de moedas e notas da época, que viria a ser o início do edifício mais emblemático e aglutinador do povo das Corgas. Trata-se da capela erigida em honra de Nossa Senhora do Carmo, no “céu das Corgas”. De relance, ao olhar para este “céu” o pensamento voa até o monte Carmelo, elevação a 600 metros de altitude entre a Samaria e a Galileia (Terra Santa), onde Elias (874-852 ac.) realizou estupendos prodígios e onde terá visto Nossa Senhora simbolizada numa nuvem. Olhando para esta pequena alusão bíblica, apesar de superficial, diria que a escolha do lugar não poderia ser mais acertada.

Construir no “céu e direcionado para o céu” não é tarefa fácil! Consta-se que, depois de afirmar aquela primeira pedra, a máquina monetária falhou por circunstâncias diversas. No entanto, o povo sabia que “a capela pronta e o adro arranjado muito honraria a nossa aldeia… Apesar de dez anos de espera, a consciência deste empreendimento estava viva… A capela marca um futuro novo para as Corgas” (no jornal “O Concelho de Proença-a-Nova”). O homem sonha, une os esforços e as vontades, e Deus ajuda. Realmente, foi o que aconteceu, todos colaboraram com jornas, dinheiro…

No dia 19 de Julho de 1970, primeiro domingo a seguir ao dia 16, dia consagrado a Nossa Senhora do Carmo, todos os caminhos iam dar às Corgas. “Os sonolentos circunvizinhos e os da terra foram acordados com foguetes. As ruas foram engalanadas, os melhores bichos da capoeira e de monte foram mortos”. Era a inauguração da capela em honra a Nossa Senhora do Carmo. Sim, às 13 horas, a imagem da Padroeira depois de ter percorrido as ruas da Aldeia sob a presidência do pároco, Padre Alfredo Dias e com a presença do Presidente da Câmara, Dr. Eugénio de Matos, saía em solene procissão da capela velha para a nova. Chegados no “céu das Corgas” e dentro da “nova capela a apontar para o Céu ”os membros da comissão constituída por José M. Farinha, Manuel Dias Novo, José Martins da Silva, Francisco Manuel e Francisco Ladeira Novo entronizaram no lugar apropriado a sua rainha e mãe: Nossa Senhora do Carmo. A grande característica de Nossa Senhora do Carmo é trazer consigo o escapulário (dois pedacinhos de lã castanha unidos por cordões). “O sagrado escapulário” como veste mariana, é penhor e sinal de proteção de Deus. É uma lembrança para viver cristãmente e assim alcançar a graça de uma boa morte. Para obter as graças do escapulário do Carmo é importante que seja benzido e imposto por um sacerdote e que seja trazido piedosamente durante a vida. Na base da devoção ao escapulário do Carmo, está a imitação das virtudes de Nossa Senhora. Quem por fora cobrir com a sua veste, deve, por dentro, revestir-se das suas virtudes. A imagem centenária de Nossa Senhora do Carmo das Corgas (fins do século XVII), com toda aquela envolvência da capela: via-sacra, cenário que recorda o batismo do Senhor, tudo pintado em azulejos, as ogivas a apontar para o céu… convida misteriosamente a fazer seu, o “sagrado escapulário”. excerto da publicação da Agenda Cultural de Julho de 2010, pelo Pe. Ilídio Graça.

 Capela do Malhadal - Rainha Santa Isabel

Em 1954 o pároco da Freguesia de Proença-a-Nova, sensibilizado pela devoção do povo do Malhadal, escrevia ao bispo da Diocese de Portalegre-Castelo Branco, pedindo a permissão para construir um templo que “testemunhasse aos vindouros a fé desta gente”. Prontamente, D. Agostinho Lopes de Moura respondeu ao p. Beato Pereira autorizando a iniciativa. Com a autorização do bispo, dada em Portalegre a 7 de Dezembro, e o terreno localizado, bastaram poucos meses para iniciar a obra. Ante o fogo da fé e o desejo ardente de elevar um templo ao Senhor, nem pobreza nem outras circunstâncias foram impedimentos. A 26 de Dezembro de 1955, o padre José Fernandes Tavares) um dos mentores do projeto e filho da terra) e o pároco da freguesia benziam e inauguravam o novo templo. Pôde o padre José, na sua homilia, exclamar: “Após seis meses do início das obras valeu a pena esperar para termos a consolação de ver levantada uma obra que é, em dúvida, uma das melhores realizações, nos últimos anos na nossa freguesia” (in jornal “O Concelho de Proença-a-Nova.)

Vinte e oito anos depois o povo, desperto para colaborar nas obras do restauro e de ampliação da igreja matriz, percebe que tinha chegado também o momento de melhorar a sua igreja. Novamente com o esforço e todos, ergueram para o céu a torre, bem adossada à porta principal, e fizeram o restauro de toda a capela. Sim, porque houve necessidades de elevar-se mais 1m das paredes da nave, reforçando-as com 3 colunas em forma de arco para suportar a nova estrutura e o novo telhado. Mas o mais importante foi o surgimento do coro. Estando na capela sente-se ao primeiro impacto o abraço da Rainha Santa Isabel. Do seu nicho, embutido num grande pórtico de mármore branco de Estremoz, ligeiramente acima do sacrário também em mármore, manifesta a sua missiva de padroado.

É curioso fixar o cenário do altar-mor e ver, uns degraus abaixo da Santa, à esquerda a imagem do Sagrado Coração de Jesus e à direita a imagem de Nossa Senhora de Fátima, como que a escoltar a Rainha. excerto da publicação da Agenda Cultural de Junho de 2010, pelo Pe. Ilídio Graça.

 Capela da Misericórdia - Proença-a-Nova

A Capela da Misericórdia foi construída em 1557 num terreno doado pelo filósofo Pedro da Fonseca, anexo ao edifício que na altura albergava a Santa Casa. É uma capela pequena, sem grandes pretensiosismos, mas muito delicada, concentrando em si a nave central, o altar-mor, o púlpito e o coro alto. Tem no altar-mor, em talha de madeira pintada e dourada - lembrando o barroco oitocentista, um sacrário de pedra dentro do qual existe um outro de charão onde se encontra a relíquia do Santo Lenho, trazida de Roma pelo próprio Pedro da Fonseca, em 1588. Na parede lateral direita está exposto um quadro com uma cena do Calvário de Cristo, pintado pelo Mestre do Sardoal (séc. XVII).

A 29 de abril de 1588, uma carta enviada ao provedor e irmãos da Santa Casa da Misericórdia de Proença-a-Nova traduz em poucas palavras a doação mais simbólica feita a esta instituição nos seus 500 anos de vida. “Quando passei por essa terra pouco depois de vindo de Roma, logo pus em minha vontade de aplicar a essa sua irmandade da misericórdia o Santo Lenho da Vera Cruz que comigo trazia por ser relíquia tão certa e de tanta estima que esperava eu levar nosso Senhor a fazer muitas mercês ao lugar onde ela fosse colocada”, explica o filósofo jesuíta Pedro da Fonseca, que nessa altura já tinha aprofundado as suas reflexões sobre Metafísica e ocupado o lugar de conselheiro do rei Filipe I. Depois de referir a intercessão do irmão – que tinha sido provedor – para que Proença-a-Nova fosse o destino do pedaço de madeira que se supunha ter pertencido à cruz em que Jesus Cristo foi crucificado, Pedro da Fonseca apela ao “devoto afecto” que espera ver dedicado à relíquia.

O Santo Lenho tornou-se efetivamente o símbolo em que a população materializou a sua fé e são muitas as situações em que, fustigada por intempéries ou outros problemas, pediu a sua proteção. Em 1602 e 1603, a relíquia foi invocada para que levantasse o tempo e deixasse de chover. Em 1609, 1618 e 1620, o problema foi o inverso: a seca ameaçava deixar os campos sem vida. As anomalias climáticas mantêm-se como principal motivo para os pedidos de auxílio, durante todo o século XVIII – fosse por chuva a mais ou a menos. Em 1752 nem água havia para que se conseguissem moer os cereais. Pragas e doenças eram outra razão para que o Santo Lenho fosse invocado. Em 1625, em plena dominação filipina, o povo rezou à Santa Cruz por causa das doenças e das guerras e pela sorte de uma armada portuguesa que tinha ido ao Brasil e da qual não havia notícias. Dois anos depois, pediu-se auxílio por causa do garrotilho que alastrava por todo o país. A importância conferida à relíquia era tanta que também as povoações vizinhas queriam beneficiar da sua proteção. Em 1746 e 1777 há registos de procissões pedidas por Cardigos, Sertã e Sobreira Formosa para afastamento de pestes. Ainda no século XVII, houve a noção de que não poderia haver abusos na repetição das cerimónias e criou-se o hábito de realizar apenas três exposições do Santo Lenho: pelo Natal, no dia de Santa Cruz e a 2 de julho, data da eleição dos oficiais. A 3 de maio de 1622, foi decidida nova redução para uma única data: 14 de setembro, em que os padres celebravam as cerimónias gratuitamente, para canalizar os poucos recursos da Misericórdia para os mais desfavorecidos.

A história do Santo Lenho cruza-se com outro evento marcante na história do concelho: a passagem das tropas comandadas pelo general Junot, durante as invasões francesas. Diz a lenda que o Santo Lenho caiu em poder dos franceses, mas que por milagre se transformou em lata e eles o abandonaram. O dia de Santa Cruz, a 3 de maio, foi até há três décadas feriado municipal, passando durante o mandato do Pe. António Sousa para o dia 13 de junho. Mantém-se uma das feiras anuais de Proença-a-Nova e a devoção que faz parte da história e da cultura de Proença. Preservar essa memória é também celebrar a vida de Pedro da Fonseca, nem sempre conhecida das novas gerações. Nascido em Proença-a-Nova em 1528, Pedro da Fonseca entrou no Colégio de Jesus, em Coimbra, aos 20 anos. Recebeu o grau de Doutor em Teologia, na Universidade de Évora, numa cerimónia que contou com a assistência do Cardeal D. Henrique e D. Sebastião, presenças que indiciam o seu peso político. Em 1572 foi escolhido para representar os jesuítas portugueses em Roma, na eleição do novo superior. Nessa altura, foi conselheiro do Papa Gregório XIII e aproveitou os 10 anos que permaneceu em Roma para desenvolver as suas reflexões sobre Metafísica. Nos últimos anos de vida, dedica-se a ultimar as obras filosóficas para publicação e desenvolve, além do âmbito religioso e intelectual, intensa atividade no domínio da política social e de assistência. Adaptado de texto do prof. António Manuel Martins da Silva

 Capela de Moitas - São Gens

Em 1965 o povo das Moitas, da paróquia de Proença-a-Nova, ajudado pelo Bispo D. Agostinho de Moura, escolhia um lugar bem sobranceiro a todo o horizonte para construir a sua desejada capela. Escolhido o lugar, oito proprietários, no primeiro momento, cederam gratuitamente as parcelas de terra necessárias para a sua evolução. A pequenez e a degradação da antiga capela dedicada a São Gens, obrigou toda a população (crianças, velhos, aleijados…) a arregaçar as mangas de imediato para remover o entulho do antigo moinho que marcava o lugar. Quase quatro meses depois do início da obra, no primeiro Domingo depois da Páscoa, festa de São Gens, os fiéis em romaria desfilavam no local, manifestando a alegria de ver as paredes do corpo da capela a avultarem-se no alto do monte.

Assim, no dia 21 de Abril de 1968, o Reverendo Pároco da Freguesia, P. Alfredo Dias, coadjuvado pelos padres Miguel Farinha, Edmundo Alves, António Sousa e Máximo, procedia à bênção do novo templo. Como disse o falecido P. Alfredo Dias: “A torre erguida para o céu, de mãos expostas, terá não apenas o sentido dum povo que reza e crê, mas marcará para sempre a atitude a dar à vida de cada um: o sentido da altura, o sentido de Deus… Apontará a quantos aqui passam o norte da sua vida, o destino para onde deve caminhar”. Realmente, a capela das Moitas, situada cerca de 6 km a Sé de Proença-a-Nova, parafraseando o P Alfredo Dias, é uma catequese permanente, uma lição de vida. A cruz, colocada no cume da torre, atestará que Jesus chegou aqui. De braços estendidos para o infinito, ela dominará o mundo representado no globo a seus pés. Mas, além disso, a catequese das catequeses, neste ponto concreto, é que a capela das Moitas foi levantada com o sacrifício e o sangue desta comunidade. Outrora, no tempo da construção, a capela era suficiente para os seus 150 moradores.

Vale a pena entrar no seu interior, em forma de cruz, permitindo o acesso a qualquer um dos braços. Engolido, então, pela Cruz – sinal do Amor – encontra-se mesmo no centro e a convergir para todos os lados, o Altar em mármore. Ligeiramente atrás do altar o adoçados à parede, como que a contemplar o sacrifício do altar – Eucaristia -, estão do lado direito a imagem de São Gens, com cerca de 1,20m, esculpida em madeira dourada e policromada. Tem na cabeça uma mitra branca e dourada a ouro com motivos vegetalistas. Segura na mão esquerda um livro e na mão direita o báculo. No peito traz o crucifixo dourado. Está assente em plinto de madeira marmoreado, em tons de castanho. E do lado esquerdo, a imagem do Imaculado Coração de Maria, com cerca de 1,10m, também esculpida em madeira policromada. Com expressão serena de braços abertos deixar-se ver o Sagrado Coração, vermelho, entalhado no peito e envolto em espinhos de cor verde; vestido e manto, de cor branca, decorados a ouro; descalça assente em nuvem em tons de claro e pinho em madeira marmoreada em negro. No cimo destes e do sacrário em bronze dourado, com a expressão de quem quer abraçar tudo e todos, está a imagem de Cristo morto, deixando ver as chagas do corpo crucificado na cruz de grandes proporções, de cor castanha e iniciais de cor preto e branco. O padroeiro da capelania, pela força de vontade do povo, é São Gens. Na ocasião da inauguração da capela, o falecido pároco P. Alfredo, tomou e apresentou o Imaculado Coração de Maria como padroeira, mas S. Gens já estava no sangue de todos. S. Gens sempre foi invocado, na capela antiga, como padroeiro do fastio e era frequente, no dia da festa, haver devotos que cumpriam ali as suas promessas, distribuindo pelos inocentes e pelos mais pobres, grossas fatias de pão. excerto da publicação da Agenda Cultural de Janeiro de 2011, pelo Pe. Ilídio Graça.

 Capela do Pergulho e Murteira - São Marcos

É na entrada do Pergulho, a 10 km de Proença-a-Nova que se ergue esta capela em honra de São Marcos. As suas paredes grossas travadas por alguns arcos em ogiva dão a impressão de proporcionar aos fiéis não só uma confiança em termos de segurança, mas também a de um certo recolhimento… A primeira pedra da atual capela foi lançada a 28 de Agosto de 1950 e a 15 de Agosto de 1956 a comunidade do Pergulho e da Murteira regozijaram com a inauguração da nova capela, que viria a substituir aquela que remontava, aproximadamente, a 1700. Apesar de esta ser imponente e ampla, a nostalgia da antiga permanece, tanto que a autarquia de Proença-a-Nova, presidida pelo Engº João Paulo Catarino, decidiu colocar, no jardim agora construído, um pedestal onde será colocada a réplica da capela antiga, para lembrar o lugar, onde outrora, no dizer do falecido pergulhense, Sr. Filipe Cristóvão, “tantas vezes, às altas horas da noite, tive a felicidade de me encontrar, a sós, com o Patrão e onde tantos senhores padres consagraram a hóstia”.

O interior da capela é absorvido por um enorme e belo altar, que se não fosse a elevação fora de comum do presbitério, diria que estava diante do cenário da última ceia. No entanto, o marco de referência é a imagem do seu orago: São Marcos, retratado em madeira, com a figura de touro debaixo do pé direito, em vez do leão, símbolo de Marcos no Apocalipse de São João (Bíblia). Assim, a figura do touro associado a São Marcos realça o poder que lhe é atribuído na cura do animal de raça bovina. Não é por acaso que se fazia no dia do Santo (25de Abril) a feira de gado. Os pergulhenses e murteirenses recordam com saudades as grandes feiras que se faziam outrora e que, por razões óbvias, deixaram de se fazer. A afluência de gado era tanta que os moradores colocavam mato nos caminhos para depois usufruir do indispensável estrume para as hortas.

Falar da festa de São Marcos no Pergulho e na Murteira é também fazer memória de um pequeno touro, em barro, que estava junto da imagem de São Marcos. Conta-se que algumas mães levavam os seus filhos, supostamente bravos, para 'marrar' com o touro na intenção de os amansar. Segundo o padre Armando Tavares, do Pergulho, “este costume dava azo a tantos abusos e chacota que, o Sr. padre Beato, pároco de Proença-a-Nova, no início dos anos cinquenta do século passado, deu tal sumiço ao touro que nunca mais soubemos onde pára”.

Os 65 habitantes no Pergulho e na Murteira, com ajuda de muitos “filhos emigrantes”, presentes nessa ocasião, faziam esta festa em honra do seu padroeiro, no domingo ou fim de semana mais próximo do dia 25 de Abril. Ela era e é motivo para o reencontro dos filhos da terra dispersos por diversos cantos do mundo. Hoje em dia, a festa consiste numa Missa em honra de S. Marcos, seguida de procissão, ao ritmo dos andores do padroeiro e de Nossa Senhora de Fátima. Os arraiais, adoçados pelas famosas “tigeladas do Pergulho”, durante 3 dias, mantêm acordadas as adormecidas noites primaveris da terra. excerto da publicação da Agenda Cultural de Abril de 2010, pelo Pe. Ilídio Graça.

 Capela de São Sebastião - Proença-a-Nova 

Em Proença-a-Nova foi construída uma capela em honra a S. Sebastião com a firme confiança de que o Mártir tem o poder para livrar e proteger os seus devotos das guerras, das fomes e das pestes.

São Sebastião nasceu em Narbona, onde viviam seus pais, oriundos de Milão (Itália). Foi educado no seio de uma família cristã. Segundo o Santo Ambrósio, Sebastião era um génio, afável, manso, prudente, generoso… e por isso, bem depressa ficou conhecido na corte dos imperadores. Era um dos favoritos do Imperador Deoclesiano que prontamente o nomeou capitão da primeira companhia das suas guardas. Pelo facto de ser cristão, a sua vida estava em iminente perigo. Daí, que tenha sido instado por todos os fiéis, nomeadamente pelo Santo Pontífice Caio, para se retirar de Roma. Porém, como consentimento do Papa Caio, optou por não deixar “o campo de batalha”. Debaixo, do uniforme de oficial do imperador, como glorioso herói, convertia os pagãos e mantinha a fé dos fiéis, sustentava a coragem de muitos que vacilavam nos tormentos e fortalecia os que pareciam desanimados em face dos suplícios… Até que um dia, devido ao fermento cristão que levedava em todo o império, foi levado ao Imperador Deoclesiano. Este, como não conseguiu fazê-lo renegar a fé em Cristo, mandou atá-lo numa árvore e aos arqueiros cobrirem-no de flechas. Quando todos o julgavam morto, uma mulher piedosa, de nome Irene, vendo que ele ainda vivia, levou-o para a sua casa e cuidou-lhe das feridas. Sebastião apresentou-se de novo ao Imperador para reprovar a sua impiedade. O Imperador, surpreendido ao ver e ouvir um homem que considerava morto, perguntou:-“És tu realmente aquele Sebastião que eu mandei tirar a vida?” –Sou esse mesmo, respondeu o Santo, e o meu Jesus Cristo quis conservar-me a vida, para que na presença desse povo eu viesse dar em público testemunho da impiedade e da injustiça que cometeis, perseguindo com tanto furor os cristãos. Enfurecido, Deoclesiano mandou conduzir imediatamente Sebastião ao circo e vergasta-lo até à morte. Com este suplício o Santo Mártir recebeu a coroa de martírio no ano 288.

Na eminência da guerra, da peste e da fome, São Sebastião aparece como alvo de devoção dos portugueses. Conscientes, certamente das virtudes e poder do Santo, os proencenses construíram na porta da entrada Sul, junto do campo da bola e no largo da antiga ermida de Nossa Senhora das Neves (demolida em 1911 para alargar a estada) a Capela de São Sebastião. Segundo algumas testemunhas, antigamente faziam-se grandes festividades com missa e procissão. O andor do Santo era impreterivelmente levado pelos mancebos. Havia famílias que confecionavam grandes alguidares de sopas para servir aos pobres…os arraiais davam asas a grandes convívios.

No interior da capela, a imagem do Santo, escoltada por Nossa Senhora das Neves e São Pedro, sussurra a todos os ouvidos de que “onde há uma vontade, há um caminho, onde há Cristo há vida…” excerto da publicação da Agenda Cultural de Janeiro de 2010, pelo Pe. Ilídio Graça.

 Capela do Vergão - Nossa Senhora do Rosário de Fátima

Movido pela fé, em 1943, o povo do Vergão uniu-se à iniciativa de um filho da terra, D. José Alves Martins, bispo resignatário de Cabo Verde, que para ali veio residir, para edificar em uma capela consagrada a Nª Sª do Rosário de Fátima. A mesma foi edificada num terreno, cedido por D. José, povoado de sobreiros onde a rapaziada dava o seu pé de dança por ocasião da festa da terra ou em algumas tardes de Domingo. Depois de muito esforço e trabalho dos filhos da terra (crianças, mulheres e homens), a capela em honra de São Sebastião, situada no Vergão Cimeiro e pertença da família de Sebastião Farinha Tavares, passava o seu testemunho, em 1949, a Nª Sª do Rosário, como povo agradecido por São Sebastião ter sabiamente, desde 1838, preparado o caminho para este momento. Agora o centro, e o motor, deste bom povo do Vergão é a capela em honra de Nª Sª do Rosário de Fátima. O melhor habitante de qualquer terra é o Santíssimo Sacramento que, no sacrário, espera a nossa visita e ouvir os nossos desabafos para lhe pedir a força necessária para a luta do dia-a-dia. É também dali que abençoa a todos. Foi esta graça que o bom povo desta terra, incentivado pelo Então pároco P. Beato, começou, no início de 1955, a pedir esta graça à Sua padroeira. Finalmente, a 6 de Março de 1955, todo o povo regozijava com a desejada presença, e com o Lausperene (Exposição continuada do SS. Sacramento à adoração dos fiéis) diário, das 7h00 às 19h00. Começa, então, uma nova era para o Vergão.

Em Julho de 1956, depois de realizar vastas obras de melhoramentos (teto e chão em madeira, coro) foi inaugurado o altar em madeira de castanho. Em seguida benzidas e entronizadas, como que a escoltara de Nª Sª do Rosário, as imagens de São José com o filho e a do Sagrado Coração de Jesus. Esta obra-prima (o altar mor com as suas talhas) que saiu das mãos dum filho da terra, o falecido Dimas Martins, sugerem também aos fiéis que elevem o coração para o céu para receberem a bênção do Sagrado Coração de Jesus e a proteção de São José e ter, por consequência, essa paz que Nª Sª do Rosário pretende conceder a todos os seus filhos mediante a oração diária do terço. É curioso salientar que o dia do Lausperene era realmente um dia festivo, o dia para estar com Deus. Conta uma crónica no Jornal de Proença-a-Nova, de 10 de Fevereiro de 1957 que o dia 30 de Janeiro do mesmo ano, foi realmente um dia de Festa: todos os fiéis de Vergão se prostraram aos pés do Santíssimo Sacramento. Comungaram na Missa das 7h da manhã, início de Lausperene, 143 mulheres e 121 homens.

Com este espírito e o esforço de se elevar para Deus, mediante o impulso e ideias de um filho e benfeitor do Vergão, Cónego Sebastião Martins dos Reis, em 1960, a capela inaugurava a sua torre sugerindo aos transeuntes um tempo de descanso com Deus para retemperar as forças. No entanto, há momentos na vida em que a tentação de colocar os bezerros de ouro à frente de Deus é forte. Se me permitem diria que esta tentação forte esteve vigente na década de 1980, pois durante cerca de 12 anos não houve festa nem vontade para festejar e a capela ganhou uma aparência descuidada. Passado este tempo, conforme diz o Jornal “O concelho de Proença-a-Nova”, houve, então gente com coragem e ousadia, que abriu a gaveta do coração e, em Junho, convocava a festa da Padroeira para 14 de Julho de 1991. Assim, mais do que a restauração da capela que se verificou, com visíveis melhorias no ano seguinte, é belo ouvir clamar que a maior obra que o povo inaugurou não foi o restauro da capela, mas sim, a renovação da amizade e a união do povo do Vergão. excerto da publicação da Agenda Cultural de Maio de 2010, pelo Pe. Ilídio Graça.

 

SOBREIRA FORMOSA E ALVITO DA BEIRA

 Igreja Matriz de Sobreira Formosa

A 23 de Agosto de 1975, quando entraram pela primeira vez na renovada Igreja Matriz, os habitantes de Sobreira Formosa tiveram de habituar-se a reorientar o olhar para o altar-mor. Os mais de dois anos que duraram as obras de remodelação duplicaram a área da nave e mudaram a organização interna do espaço, mas a fachada principal manteve-se, o que introduziu uma orientação pouco habitual nas igrejas: quem entra tem o altar-mor à sua esquerda. Assinado pelo arquiteto Geraldes Cardoso, o projeto foi aprovado no primeiro trimestre de 1973, altura em que ficou a saber-se que a obra iria custar três mil contos. Para angariar verbas, a população tinha começado a mobilizar-se na festa do padroeiro. Por iniciativa do novo pároco, Pe. José Esteves, em 1972 o saldo da festa de S. Tiago, com missa campal, foi pela primeira vez destinado às obras da igreja, que tinha sofrido um incêndio e ameaçava ruína.

O Estado contribuiu com uma comparticipação de 500 contos, mas a maior parte do valor necessário foi reunido graças à ajuda de todos os sobreirenses. As mulheres fizeram uma colcha, duas vezes rifada – depois de ter sido oferecida pela primeira pessoa a quem saiu – e uma peça de teatro. Particulares ofereceram terrenos para possibilitar a ampliação. Já na fase final da obra, um cortejo de oferendas rendeu 93.573$50. A todas as iniciativas somou-se uma campanha de angariação de fundos organizada pelo Conselho Paroquial que exigiu um esforço considerável à época: cada trabalhador foi chamado a contribuir com mil escudos. No projeto de remodelação, o arquiteto procurou manter os elementos de maior valor do edifício, como a fachada principal, a torre sineira (elevada cerca de três metros por uma questão estética), o recanto norte do chafariz e, no interior, os altares em talha e o arco do transepto. Os colunelos de granito que serviram de suporte ao antigo guarda-vento foram usados, como peças decorativas, no novo altar-mor. Também o exterior sofreu um arranjo, com o cruzeiro e o chafariz colocados a sul.

Entrando pela porta principal, o olhar passou a encontrar em frente a capela do Santíssimo Sacramento, no local do antigo altar-mor. Ali se encontra uma imagem antiga de Jesus Crucificado, que se supõe ser o “Senhor Crucificado Milagroso” de que se fala, em 1758, no primeiro registo histórico que existe da igreja. Feita pelo vigário José Garcia Correia, no inquérito das Memórias Paroquiais, a descrição dá conta de quatro altares: o do Santíssimo Sacramento (“onde estão S. Tiago Maior, S. João Baptista e Nossa Senhora da Conceição”), o do Santo Nome de Jesus, o da Senhora do Rosário e o das Almas, onde eram veneradas as imagens “do Senhor Crucificado Milagroso, de S. Miguel e de S. José”. Em 1885, o presidente da Junta da Paróquia propõe a nomeação de 15 mulheres para tratarem dos altares. Nos documentos dessa nomeação, constam já cinco altares, passando a haver um consagrado a Santa Catarina. A protetora das raparigas solteiras mantém-se ainda hoje na igreja, com fitas de várias cores nas mãos, certamente ex-votos de jovens que a ela recorreram.

 Capela da Misericórdia

É difícil, com base nas muitas contradições e falhas documentais existentes, dizer se a população tem razão. Mas a capela da Misericórdia, situada num lugar elevado do núcleo central de Sobreira Formosa, é tida como a mais antiga da vila. No centro do arco da entrada está inscrita a data de 1558, mas não é certo que esta data seja exata e que o edifício tenha desde a sua origem servido como capela. A dúvida é levantada por Maria Assunção Vilhena – que fez um dos estudos mais pormenorizados da documentação da Santa Casa da Misericórdia de Sobreira Formosa – com base nas Memórias Paroquiais de 1758. Neste documento são referidos os locais de culto existentes à data na paróquia, sem que haja qualquer referência à capela da Misericórdia. É dada, contudo, indicação quanto à Santa Casa, “cuja origem é imemorial”.

A notícia mais antiga sobre a Misericórdia de Sobreira Formosa data de 1598, no livro “As Misericórdias”, no qual Costa Goldofim diz ter sido criada em 1589. Enquanto outros autores defendem que a capela poderá ser anterior à própria instituição da Santa Casa, Maria Assunção Vilhena defende que o uso religioso terá começado apenas no século XVIII ou XIX, tendo anteriormente as instalações servido como albergue e sede da Santa Casa. As obras de restauro mais recentes foram realizadas há cerca de duas décadas, mas antes disso os livros de contas da Santa Casa referem gastos avultados em conservação entre 1885 e 1908. É neste período que os registos situam a construção dos degraus circulares na entrada, da “cruz de pedra que encima o templo” e de outros trabalhos gerais de pintura e restauro.

A capela está quase sempre fechada, servindo sobretudo na semana santa. Ali se encontram as imagens do Senhor dos Passos, de Jesus morto, de Nossa Senhora das Dores e de São João Evangelista, que percorrem as ruas da vila nas procissões do encontro e do enterro. Adquiridas em 1956 por proposta do então provedor Abílio Tomé, as imagens pertencem atualmente à Fábrica da Igreja. O frontispício triangular, ladeado por dois pequenos campanários em granito, é encimado por uma cruz. Três degraus circulares, também de granito escurecido pelo tempo, conduzem à entrada principal. No centro do seu arco encontra-se a gravação da data acima referida, sobre a qual foi colocada uma pequena escultura de um querubim. O interior é simples e despido, com as paredes semi-revestidas de azulejo. Nas traseiras do corpo da capela há algumas dependências que serviriam, no século passado, como sacristia e como espaço para despacho de questões administrativas, como as eleições para a mesa da Santa Casa. Presentemente estão vazias, não tendo outra utilização que não seja a de depósito de objetos sem valor.

Situada no largo da Misericórdia, a capela está paredes meias com uma velha construção identificada em documentos antigos como albergue e que acolheu, no século XX, um pequeno serviço hospitalar. A partir de 1924, vários provedores projetaram construir um hospital, chegando a pedir autorização ao ministro do Interior para vender aquele edifício e construir novas instalações. Nos anos que se seguem, as atas e correspondência emanada da Santa Casa dão conta dos esforços nesse sentido, indicando que a “pequena casa hospitalar” não pode aceitar doentes devido ao estado degradado e aos “exíguos rendimentos”. Apesar de serem solicitados apoios à Junta Geral do Distrito e à Administração Central, assim como peditórios, não chegariam a ser reunidas verbas suficientes para a construção do ambicionado hospital. Em 1958 o médico e provedor Abílio Tomé restaurou a velha casa e fez duas enfermarias, com um total de seis camas. A sua morte, em 1970, ditaria o encerramento do pequeno hospital, que nunca mais seria reaberto

 

SÃO PEDRO DO ESTEVAL

 Igreja Matriz de São Pedro do Esteval

A Igreja Matriz da freguesia de São Pedro do Esteval, cujo Padroeiro está sentado numa cadeira, apresenta uma grandiosa torre escoltada por duas imponentes palmeiras, indica aos transeuntes, mesmo a léguas de distância, esta pacata freguesia.

Decerto, os amantes da natureza, ao escalar as encostas do Concelho de Proença-a-Nova, vislumbrando as suas belas paisagens, avistam de todos os seus outeiros a alva torre que exalta da Igreja guardiã do espólio narrador de séculos e séculos de uma comunidade que o Padre Catarino, na monografia do Concelho de Proença, diz “ser de ótima índole, muito honesta, laboriosa e crente”. E porque pretendemos limitar-nos à memória da Cadeira de São Pedro, referimo-nos brevemente aos dois altares laterais: um com a grandiosa imagem de Nossa Senhora de Fátima e o outro assumindo a imagem da Santíssima Trindade, que destaca o dinamismo próprio da essência de Deus: quem distribui os dons é o Espírito Santo; quem organiza a comunidade, atribuindo as tarefas, é Jesus; quem faz tudo funcionar, dando força para ação, é o Pai.

Agora, defrontemo-nos perante a imagem de São Pedro da Cadeira, no altar, pintada a óleo sobre tela, encaixilhada numa grande moldura. Evidencia não o que significa a “cadeira de S. Pedro (o magistério de Pedro, a sua autoridade e a dos seus sucessores) mas o instinto, simultaneamente acolhedor e protetor, Santíssima Trindade curiosamente ofuscada por um imponente crucifixo que deixa transparecer a mesma sensibilidade. Realmente, Pedro é o verdadeiro guia de todos aqueles que têm Cristo como chefe supremo. Os mais velhos ouviram falar, certamente, dum caso curioso que envolveu o Patrono de S. Pedro, senão, vejamos, com a ajuda do citado livro do Padre Catarino: consta que uma terrível praga de insetos caiu em tempos, sobre as hortas e searas de Proença e arredores devorando tudo. O povo alarmado e impotente para lhe fazer face, acolheu-se à proteção do Apóstolo, implorando os seus favores e prometendo, em ação de graças, organizar solene romaria. As suas preces foram ouvidas e o povo não se esqueceu das promessas, organizando solenes festejos no dia 22 de Fevereiro - festa da Cadeira de São Pedro - a ponto de o dia vir a ser considerado “festa de guarda” em Proença, até 1910. Ainda hoje, no dia da festa, um largo número de fiéis da Paróquia, mantém a promessa dos antigos, participando vivamente na Santa Missa e fazendo as suas ofertas, em género agrícola ou em dinheiro, ao pároco, com a confiança de que São Pedro da Cadeira protegerá as suas terras das pragas e dos bichos. excerto da publicação da Agenda Cultural de Fevereiro de 2010, pelo Pe. Ilídio Graça.

 

 

MONTES DA SENHORA

 Igreja Matriz de Montes da Senhora

A oliveira secular, classificada como monumento vivo de interesse público desde 1995, imprime a sua marca na imagem da igreja paroquial de Montes da Senhora. E recorda igualmente a lenda associada à sua origem. Conta-se que Nossa Senhora do Pópulo apareceu na toca de uma sobreira, situada precisamente no local onde hoje se encontra a oliveira. Quem a encontrou pensou em lhe mandar construir uma capela no Vale da Igreja, mas a escolha não terá agradado à Senhora que, diz a lenda, voltava sempre à toca da grande sobreira. Perante a insistência, o povo teve de render-se e construir a capela na atual localização.

Não há registos da data de fundação da capela, sendo de 1833 o livro mais antigo da Confraria da Senhora do Pópulo que resistiu no arquivo da Junta de Freguesia de Sobreira Formosa. O rendimento desta confraria advinha das esmolas em cereais, azeite, castanhas, linho (em tecidos e em rama), de ofertas em dinheiro e em peças de ouro. A confraria explorava ainda oliveiras espalhadas por várias propriedades da freguesia, cuja azeitona era vendida em hasta pública.

O atual edifício foi inaugurado a 13 de agosto de 1950, nas vésperas do dia da padroeira (15), com a bênção do bispo da diocese, D. António Ferreira Gomes. O altar destaca-se pela simplicidade, com leves ornamentos de talha dourada pincelados sobre a madeira branca. À esquerda, o nicho de Nossa Senhora do Pópulo, emoldurado a granito. À direita, a pia batismal também em granito empresta uma presença forte ao interior. As imagens de Santo António e de Nossa Senhora de Fátima apresentam-se de frente para os fiéis, a ladear o altar-mor. O granito volta a ser o material em destaque na fachada.

Ornamenta a porta de entrada, encimada por uma pequena cruz, e o vitral tipo rosácea. Muito usados no auge do período gótico, estes elementos ornamentais simbolizavam, através da luz e da cor, o contacto com a espiritualidade a ascensão ao sagrado.