ABC das Localidades

   

Histórias, lendas, tradições únicas e outros aspetos que marcam a identidade de cada povoação: o ABC das aldeias pretende percorrer aquilo que as distingue, contribuindo para valorizar e tornar acessível a todos um património imaterial nem sempre conhecido.

 ALDEIA RUIVA

O último fim de semana de maio é de festa na Aldeia Ruiva: os familiares que saíram da aldeia juntam-se num convívio alargado, que se estende a três localidades vizinhas – Cabeço do Moinho, Carvalhal e Folga. Sendo muito recente, iniciado há escassos anos, este hábito liga-se a outro secular, cujas raízes se perdem no tempo. Nestas povoações há uma irmandade que todos os anos se junta para rezar pelos defuntos. E embora seja marginal relativamente à Igreja, sobreviveu à passagem do tempo: a sua existência já era documentada na monografia do concelho publicada, em 1933, pelo Pe. Manuel Alves Catarino.

A irmandade era, no passado, reduto exclusivo dos homens. Referindo-se a esta organização em termos desconfiados, a monografia descreve o uso de “regarem com vinho um sardinhaço e porcaço repasto terminando, entre os fumos de álcool, com Padre-Nossos por alma dos defuntos dos associados ali presentes – uma mistura de Baco com Deus”. Há cerca de 30 anos, as mulheres começaram a entrar – embora no final do jantar.

Em que consiste, no essencial, a tradição? Realiza-se nos Santos, no primeiro fim de semana após o dia 1 de novembro. Em cada ano, rotativamente, há uma casa que oferece sardinhas, pão e demais ingredientes para o jantar. Atualmente, são 15 as casas que integram a irmandade. Inicialmente apenas os homens se juntam, rezando três terços pelos defuntos, lembrando no final o último a morrer na irmandade. No final do jantar, entram as mulheres, que também comem as sardinhas e partilham doces.

Duas semanas mais tarde, realiza-se novo encontro, desta vez tendo por ementa arroz de bacalhau. O anfitrião prepara um ramo enfeitado com doces e flores e entrega-o ao irmão que irá organizar o jantar no ano seguinte. Seguem para a sua adega e a partir daí percorrem as adegas de todas as casas.

As famílias alargadas ficam excluídas, razão pela qual recentemente começou a realizar-se um encontro adicional, em maio, aberto a todos os que estão fora e voltam à terra para conviver. No início do século XX, os encontros realizavam-se igualmente em novembro, mas em datas ligeiramente diferentes, no São Martinho e no dia de Santo André, que se comemora a 30 daquele mês.

Em caso de falecimento de algum irmão, cabe ao encarregado avisar a irmandade. Cada casa paga uma missa e todos os irmãos acompanham o funeral. Se, por motivo de força maior, o homem não puder ir, vai a mulher ou um homem já crescido.

Com o movimento migratório, as quatro aldeias – que vivem em comunidade – têm poucos moradores permanentes. A Aldeia Ruiva foi, isoladamente, sempre um povoado de pequena dimensão, mas com vários séculos de existência. Os registos demográficos de 1758 dão conta da existência de dois fogos, com sete almas, na aldeia. Virada para a ribeira da Isna, a povoação vive em estreita relação com a água e atualmente a praia fluvial acaba por constituir a sua marca de identidade mais forte.

 ALVITO DA BEIRA

Diz a lenda que num local indeterminado de Alvito da Beira, entre o Chão do Pereiro e a Horta do Nogueira, há uma pele de boi cheia de moedas de ouro. Ao longo dos anos – talvez possa dizer-se séculos, já que as lendas consentem tudo – muitas pessoas e rebanhos lhe terão passado por cima, mas a explicação para nunca ter sido encontrado tal tesouro deve-se ao facto de ser encantado. Seria preciso sonhar com a pele de boi três noites a fio e não contar a ninguém: a chave para encontrar a sua exata localização.

Na cultura popular abundam as lendas sobre tesouros e sobre a transformação dos mais diversos materiais em ouro. Mais ainda em meios desfavorecidos, que muitas vezes mais não podiam do que sonhar e imaginar. Durante sete longos séculos Alvito viu todo o seu património condicionado pela dependência administrativa e eclesiástica relativamente à Sobreira, da qual foi desanexada em setembro de 1920.

A falta de independência não apaga as raízes fundas no tempo. No cruzeiro está inscrita a data de 1143 – ano de fundação da nacionalidade – e em termos documentais a existência da aldeia é referida no foral de 1222 da “Vila Nova”, designação então dada a Sobreira Formosa. Alguns estudos veem no prefixo “al” a origem árabe do nome, mas é mais provável que decorra de um antropónimo de origem germânica – Alvith. O local teria começado por designar-se “Villa Alvitus” (quinta de Alvito em latim), ganhando o segundo nome (Beira) a partir de 1920, para a diferenciar de tantas outras povoações com o mesmo nome espalhadas pelo país.

Tantos séculos de história tornam abundantes as histórias e tradições ligadas à freguesia, mas a par da lenda de abertura outro elemento consensual destaca-se na identidade de Alvito da Beira: a devoção ao santo padroeiro, São Lourenço. Os cânticos que recordam o seu sacrifício, queimado num “braseiro de carvões”, são repetidos todos os anos na festa em honra do padroeiro, que se celebra no fim de semana mais próximo do seu dia, 10 de agosto.

Feita em pedra maciça, com um peso que ronda os 50 quilos, a imagem de São Lourenço só nessa altura sai da igreja construída em sua honra. Antes do atual templo, quase contemporâneo da criação da freguesia, a igreja localizava-se fora da povoação, num lugar a que a população ainda hoje chama “O santo”. Não há registos da data de construção, mas é seguro que existia já em 1758, ano em que é elencada nas Memórias Paroquiais.

Os principais elementos do brasão de Alvito da Beira sintetizam as características da freguesia. O pinheiro enquadra a paisagem e a atividade económica dominante durante séculos – a exploração florestal. As sete pinhas, por seu turno, representam igual número de lugares da freguesia. As faixas ondadas de azul e prata representam os cursos de água, entre os quais a ribeira de Alvito. No passado essenciais para a agricultura e boa fertilização dos terrenos, as linhas de água são hoje uma renovada fonte de valorização turística. As praias fluviais do Alvito e da Cerejeira marcam uma nova etapa na dinamização da aldeia.

 AMOREIRA

A ocupação mourisca do concelho deixou sinais em inúmeras lendas que subsistem até hoje. Vários locais do concelho têm a sua moura encantada e a da aldeia da Amoreira, nas imediações de Proença-a-Nova, vivia no lugar da Fraga. Nesse local, onde ainda hoje existe um afloramento rochoso, seria vista por populares a apanhar sol sobre os penedos, penteando-se com um pente de ouro. Quando alguém se aproximava, desaparecia numa cova existente na rocha.

A reduzida dimensão da aldeia dificultará qualquer tentativa de escavar a sua história, mas os censos de 1758 confirmam a existência naquela data, sendo assinalados sete fogos e um total de 24 habitantes. Em 1911, por seu turno, seriam 12 os fogos que compunham a povoação, com um número bem mais significativo de moradores: são registados 71.

Se os números são pequenos, nem por isso deixam de existir vestígios de uma atividade económica com algum dinamismo. A Amoreira teve, no passado, um lagar e uma serração movidos a água, dos quais ainda restam algumas ruínas. E ali nasceu o dinamizador daquela que foi a maior unidade industrial do concelho, precisamente de transformação de aglomerados de madeira – a Sotima.

Três apelidos destacam-se na história das famílias da aldeia, os Pedros e mais tarde os Alves e os Lopes. Sebastião Alves viveu ali até aos seis anos e contava que na infância guardou gado, tendo entrado na escola primária apenas aos 9 anos, quando um irmão mais novo o substituiu no ofício de pastor. Homem de sete ofícios, foi pintor de construção civil, seminarista, estudante de medicina e empresário com um império construído a pulso. Presidente do grupo Atral Cipan, um dos maiores da indústria farmacêutica, faleceu em janeiro de 2012.

Será difícil avaliar o impacto que a Sotima teve no desenvolvimento do concelho. Apesar do desfecho que levou ao encerramento de portas, lançando cerca de 200 pessoas desemprego, a unidade criada no início da década de 80 foi durante cerca de 20 anos o maior empregador do concelho. A memória do espaço volta a ser preservada com o desenvolvimento do Parque Empresarial de Proença-a-Nova (PEPA), detido e gerido pelo Município.

A herança de Sebastião Alves ultrapassa em muito os limites geográficos da aldeia que o viu nascer. As suas empresas, maioritariamente do sector farmacêutico, estão espalhadas por cerca de 120 países e ao longo da sua vida desenvolveu sempre um carinho especial pela investigação. Obteve, por exemplo, grande parte das verbas que permitiram a construção do principal pavilhão operacional da Escola de Farmácia de Lisboa.

O gosto de contar histórias, tão típico das tradições orais nas nossas aldeias, influenciou outra das áreas de intervenção em que se destacou. Enquanto estudante escrevia histórias que vendia, por 150 escudos, a um jornal diário. Mais tarde fundou duas editoras – a Arcádia nasceu em 1955, com o objetivo de ajudar Fernando Namora a publicar os seus livros, enquanto a Verbo, que iniciou a produção em 1959, resultou da sua dificuldade em encontrar no mercado livros infantis para os filhos.

 ATALAIAS

Os preparativos começam nos últimos dias de abril, com um passeio através dos campos floridos. Margaças amarelas e outras flores silvestres apanhadas em quantidade são usadas para fazer coroas de flores, colares e pulseiras com que as avós enfeitam as netas. No primeiro dia de maio, as crianças das Atalaias saem à rua e vão de porta em porta a cantar:

Vivó maio

Às cachopas da Atalaia

A pedir por essas portas

Vivó maio

Para recompensar a alegria e o empenho com que mantêm a tradição, as pessoas distribuem doces, à semelhança do costume generalizado no Dia de Todos os Santos. Antigamente as oferendas eram sobretudo pão e castanhas, mas hoje são variadas e algumas pessoas até já dão dinheiro. No final é tudo repartido entre quem integra o grupo.

 Os cânticos para dar as boas vindas ao mês de maio eram comuns, com ligeiras variações, um pouco por todo o concelho, mas nas Atalaias o tempo não fez esquecer esta comemoração e todos os anos se repete um ritual de raízes antigas. De origem pagã, o dia de maio é uma festa solar, vestígio das comunidades de pastores. A igreja acrescentou-lhe um novo significado, atribuindo o mês de maio a Maria, e ao repetir o ritual o grupo pede a bênção para todas as meninas da aldeia. Também em maio, as mulheres juntam-se para rezar cem avé Marias no ponto mais alto da aldeia.

Tradições como o Vivó maio – uma corruptela de “Viva o maio” – são transmitidas de pais para filhos e nas Atalaias houve, nos últimos anos, momentos privilegiados de convívio e partilha de experiências que ajudaram a reavivar histórias e costumes. Durante cerca de dois anos, todas as semanas um grupo de mulheres se juntou no Pólo da Biblioteca, para tardes de costura que deram origem a almofadas, bolsas, rodilhas e outros objetos. Tudo começou com a realização de trabalhos para vender e ajudar a associação da terra e a iniciativa, que repetem pontualmente, acabou por proporcionar lanches e tardes de convívio.

Nessa troca de experiências, o desafio de uma jovem da aldeia levou a reavivar outra tradição que chegou a estar adormecida: a encomendação das almas. Trata-se de um cântico quaresmal, exclusivo de mulheres, associado ao culto dos mortos e feito pela noite dentro. O objetivo é contribuir, pelo meio de preces, para aliviar as penas às almas que estão no Purgatório. As mulheres vestem roupas negras que significam o luto pelos mortos e o “preceito” do tempo quaresmal. Divididas em dois grupos, vão intercalando os cânticos com momentos de oração.

Atalaia era o nome que se dava a uma torre construída num lugar com visibilidade para os campos circundantes e deve-se seguramente à localização elevada do conjunto de povoados. A Atalaia de Estêvão Vaz e a de Catarina Vaz terão origem em antigos senhores feudais ou governadores responsáveis pelas suas propriedades. Já a terceira Atalaia começou por chamar-se do “Moro” (designação que consta de documentos de 1758) e posteriormente ganhou a atual designação – Atalaia do Ruivo. Também variou a designação de um quarto aglomerado, que se chamou ora da Ponte ora do Barroco, acabando por ser abandonado pelos poucos habitantes. As várias Atalaias formam atualmente uma única povoação, que o dinamismo da associação local tem mantido animada, ao longo do ano, por iniciativas tradicionais como a matança do porco ou os festejos dos santos populares.

 BAIRRADA

Saíam de casa pela manhã, estivesse calor ou chuva, com um cesto de vime à cabeça. Tecidos e peixe eram vendidos de porta em porta, nas aldeias mais próximas, num raio de dez quilómetros. Em tempos de guerra e pós-guerra, nas décadas de 30 a 50, o dinheiro não abundava e o pagamento por essas mercadorias era muitas vezes feito com ovos. Essa moeda de troca explica o nome dado a Maria da Conceição Dias e Maria do Carmo Fernandes, duas das “oveiras” que durante muitos anos saíam da Bairrada, situada junto à ribeira da Pracana, para vender e conseguir juntar algum dinheiro.

A história da Bairrada sempre a fez pequena, uma das mais pequenas do concelho. Na monografia do pe. Manuel Alves Catharino, são indicados 9 fogos, cujas famílias foram entretanto identificadas no livro “Memórias da minha aldeia – Bairrada ou Barrada”. Hoje restam apenas dois moradores e a solidão ameaça empurrá-los para outros locais. Mas a dimensão não retira histórias ou marcas de empreendedorismo, de que as “oveiras” eram um sinal. Da Bairrada saíram empreendedores com histórias marcantes como o comendador João Martins ou, menos conhecido da população, Isaías da Conceição Dias, também emigrante no Brasil e presidente do Rotary Club de São Paulo Jaguaré.

O isolamento foi uma das marcas da aldeia, até ao princípio da década de 50, quando foi construída a atual estrada entre Mesão Frio e a Pracana Fundeira. Até essa altura, a ligação ao Caniçal e a Proença-a-Nova podia tornar-se uma verdadeira tormenta, quando o inverno fazia subir o caudal da ribeira. Para ir até Mesão Frio, localidade com que sempre a Bairrada teve forte ligação, parte do caminho era feito dentro do próprio leito da ribeira.

Se uma viagem de meia dúzia de quilómetros era difícil, é fácil imaginar a aventura da ida para a ceifa no Alentejo. Não há família da Bairrada que não conte histórias do tempo em que os “ratinhos” faziam 40 dias de trabalho duro, de sol a sol. A aldeia ficava entregue às mulheres que sozinhas tratavam das hortas, dos filhos e da casa.

Um dos pontos centrais da aldeia é o forno comunitário. Mas mais invulgares eram dois outros objetos também de uso comunitário. Um deles era o almofariz de bronze, propriedade da família Fernandes. Sempre que era preciso pisar um pouco de linhaça para fazer cataplasmas, era emprestado aos vizinhos. Outro era a balança romana, da família Lavrador, usada sobretudo para pesagem do porco no dia da matança. O proprietário usava-a igualmente para pesar o carvão que tinha na forja, vendido a peso.

 BRAÇAL

A história vai-se esbatendo, mas dois séculos depois permanece viva na memória de alguns habitantes e nas talhas esburacadas que já não guardam, como acontecia no passado, enchidos e outros produtos alimentares. Na altura das invasões francesas, no inverno rigoroso em que as tropas do general Junot cruzaram o concelho, alguns soldados terão descido a encosta para procurar comida na aldeia do Braçal. Ao encontrarem alimentos escondidos dentro de grandes talhas de barro, terão partido algumas, deixando os sinais de destruição que ainda hoje são recordados.

Nessa altura ainda não existia o lagar construído em parceria com a povoação da Amoreira, no final da monarquia, mas o azeite era já um dos produtos mais importantes da agricultura na aldeia. Outro era o milho de regadio, alimentado pela água abundante que constituiu uma das mais-valias da povoação. No verão, os homens de família juntavam-se para construir represas. Depois faziam-se escalas para que todos tivessem períodos para regar as hortas.

Terminadas as colheitas, também as noites de desfolhadas eram vividas em grupo. “Ao milho, à eira!” O grito ecoava entre as casas e rapidamente se juntava a malta nova – porque apesar da reduzida dimensão, o Braçal foi ao longo de sucessivas décadas caracterizado pela existência de famílias numerosas, que asseguravam a existência de grandes grupos de “mocidade”. Noites como as de desfolhada eram de risadas e brincadeiras asseguradas, mas os tempos eram também de trabalho duro e as raparigas da aldeia iam frequentemente à jorna para Proença, trabalhar na sacha do milho.

O comunitarismo notava-se na organização das tarefas, mas também na partilha de animais de trabalho. Quando uma família não tinha posses suficientes para comprar uma junta de bois, associava-se a outra e compravam em conjunto. “As meias”, como eram chamadas, chegavam a unir famílias do Braçal e da Sarzedinha: em semanas alternadas, as juntas de bois mudavam de aldeia.

A resina foi durante mais de metade do século XX a principal fonte de rendimento e a fábrica em que era depositada antes de ser levada para uma unidade de maior dimensão, em Pombal, situava-se a meio caminho entre o Braçal e Proença-a-Nova. O trabalho duro e exigente do campo e os pagamentos em serviço poderão estar na origem do nome da aldeia – que evoca o “trabalho braçal” – mas há também quem aponte outra hipótese. No tempo do priorado do Crato, quando teria sido ordenada a construção do primeiro lagar, o pagamento das jornas dos trabalhadores teria chegado num braçado de notas, expressão que teria originado o nome.

Apesar da proximidade em relação à vila de Proença, o Braçal esteve durante muito tempo limitado nos acessos. Em 1958, foi de José Lopes a iniciativa de mobilizar os moradores e juntar dinheiro para fazer a estrada. Foi contratado o empreiteiro (José Fernandes, da Sarzedinha) e com o arranque da obra chegou à aldeia uma carrinha de trabalho – o primeiro carro a chegar ao Braçal.

Também a eletrificação ficou a dever-se à iniciativa da população. Formou-se uma Comissão de Moradores da Sarzedinha, Braçal e Montelhado que, após o 25 de abril, foi a Castelo Branco fazer o pedido junto da Eléctrica Portuguesa. A ligação foi estabelecida em novembro de 1980.

Braçal e Amoreira tiveram durante muito tempo uma Irmandade dos Defuntos, que anualmente se reunia para rezar e comer as sardinhas à volta das quais se resolviam eventuais desavenças entre vizinhos. Quem faltasse ao encontro ou ao funeral de algum dos irmãos tinha, como multa, de pagar o equivalente a uma jorna.

Ao contrário desta tradição, que se perdeu com o passar do tempo, mantém-se bem vivo o Madeiro de Natal. Quem está longe da terra chega o mais cedo que pode, antes da Consoada, para ajudar a juntar lenha e fazer o grande fogo à volta do qual todos se juntam em convívio. Só o local da fogueira mudou, por força do asfalto: se antes era à entrada da aldeia, agora faz-se no meio do povo. De resto, o calor da comunidade reunida mantém-se com o apego de sempre.

 CABEÇO DO MOINHO e BLANZEL

Há lugares que nascem para ser pequenos, mas de portas abertas para outros vizinhos. Celestino Martins vive há 98 anos no Cabeço do Moinho e sempre se lembra da aldeia assim, com poucos moradores mas ligações fortes à Aldeia Ruiva, Blanzel, Folga e Carvalhal. “Foram praticamente sempre só duas famílias. Depois houve umas casas novas e chegaram a ser seis, mas agora estão novamente para fora e só vêm nas férias”, explica.

Os dados demográficos das povoações do concelho confirmam as memórias do mais antigo habitante da aldeia: em 1758 há registo de apenas três fogos no Cabeço do Moinho (então designado como Cabeça) e em 1911 já nem é feita qualquer referência estatística. Quanto ao Blanzel, tinha no censo inicial um fogo e desaparece igualmente dos registos de 1911. Hoje apenas uma pessoa a residir na Aldeia Ruiva continua a deslocar-se ao Blanzel para cuidar das propriedades, ficando ocasionalmente nesta aldeia.

Pequenos mas próximos em distância, os vários núcleos habitacionais nas margens da ribeira da Isna aprenderam a viver em comunidade, mantendo através dos tempos uma irmandade que ainda hoje se reúne anualmente, para comemorar o São Martinho e o Santo André (30 de novembro). No primeiro encontro comem-se sardinhas, oferecidas em cada ano por uma das casas que integram a irmandade, e no segundo a ementa é arroz de bacalhau.

O fundo da irmandade era religioso, embora marginal à igreja: visava a oração pelos defuntos e mantinha os irmãos unidos quando algum falecia, sendo obrigatória a entreajuda e comparência na realização do funeral. A população continua a juntar-se todos os anos para estes encontros, no passado reservados apenas aos chefes de família mas nas últimas décadas alargados às mulheres.

Numa aldeia de reduzida dimensão, dois espaços comuns destacam-se. Um deles é a capela, com uma inscrição alusiva à inauguração em 1911. “Tem mais quatro anos que eu”, ri-se Celestino Martins, que ainda se lembra de ver os carpinteiros restaurar o pequeno espaço. O pavimento acaba de sofrer uma nova intervenção. Nas traseiras situa-se a eira, que há muito deixou de ter uso.

Central para os moradores foi, no passado, a fonte de mergulho, em pedra e ladeada de dois reservatórios. Até 1959 era preciso ir buscar a água à fonte, mas nesse ano a chegada de canos em plástico revolucionou o abastecimento, levando-a diretamente para um tanque junto às duas principais casas do Cabeço do Moinho. A fonte foi perdendo importância e está hoje completamente seca, mas mantém intacta a estrutura em pedra.

E onde ficaria o moinho que se imagina ao ouvir o nome da aldeia? Celestino Martins encolhe os ombros e mostra-se pouco convencido da sua existência. “Nunca o conheci, sei cá… Poderia ter havido há muitos anos, mas às vezes põem assim os nomes e não se sabe porquê.” Se houve moinho, ninguém lhe conhece os vestígios. Ficam as dúvidas e suposições para explicar a origem do Cabeço do Moinho, situado no alto da encosta de onde se avista a praia fluvial da Aldeia Ruiva.

 CANIÇAL CIMEIRO e FUNDEIRO

Nossa terra é pequenina

Mas fica à beira da estrada

Tem a sua capelinha

Logo ali à entrada

 

A quadra popular, passada de boca em boca ao longo do tempo, resume em poucas palavras o que a população mais valoriza: a capela que, apesar de geograficamente situada numa extremidade do conjunto dos dois povos – Caniçal Cimeiro e Caniçal Fundeiro –, é o centro das vivências e elo de ligação entre o aglomerado de casas, hoje já parcialmente desabitadas. A aldeia à beira da estrada habituou-se a ver os carros passarem. Noutros tempos para Abrantes e Lisboa, já que a estrada nacional foi uma das principais vias do concelho de Proença-a-Nova. Agora o trânsito é sobretudo local, mas a estrada continua a levar e ocasionalmente trazer os filhos da aldeia migrados noutras paragens.

No início de cada ano, no sábado mais próximo do dia de Reis, quem pode esforça-se por fazer a viagem de reencontro com uma das mais antigas tradições dos Caniçais: o cantar das Janeiras, que em rigor mais deveria chamar-se o cantar dos Reis, tendo em conta a letra da música secular entoada apenas por vozes de homens. Começam nas aldeias vizinhas de Bairrada, Vale da Carreira e até Mesão Frio, no concelho de Mação. Entram depois no Caniçal Fundeiro e por fim no Cimeiro. Há algumas décadas, o grupo deslocava-se também ao Freixoeiro, Arganil e Moita Recome (Mação).

As vozes fortes dos cantadores rasgam a noite, organizados em dois grupos chamados de “pernas”. A perna 1 inicia com um verso que se repete e a perna 2 responde, em verso simples, completando o sentido do primeiro.

Partiram os três reis magos (bis)

p´las partes do oriente

P´ra ver Deus omnipotente (bis)

por uma estrela guiados

Guiados a Jerusalém (bis)

onde Herodes estava

Herodes por ser malvado (bis)

por ser malvado malino

Mandou ensinar os reis (bis)

às avessas o caminho

Seguem os reis a estrela (bis)

vão seguindo o seu caminho

Afastados de Belém (bis)

viram estar o deus-menino

Estava a Virgem sagrada (bis)

com pena e grande dor

Vendo que numas palhinhas (bis)

nasceu nosso redentor

 

E os reis com grande alegria (bis)

ao verem prenda tão bela

Anjos cantem aleluia (bis)

alegrem-se os céus e a terra

Outras festas como estas (bis)

cantam os reis aos fidalgos

Mande-nos cantar, senhora (bis)

Deus nos dê reis melhorados

Melhorados nas virtudes (bis)

recortados nos pecados

(A)levante-se, ó senhora (bis)

do seu leito de pau-preto

Venha-nos dar a esmola (bis)

em louvor do nascimento

Os moradores destas casas (bis)

mais as suas moradoras

Todos sejam visitados (bis)

p´la virgem nossa Senhora

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Enquanto cantam, há alguns homens que vão percorrendo as casas dos moradores, recolhendo as suas ofertas. “Esmolas para as almas se quiser e puder”, é a saudação dada ao baterem às portas. Recebidas as dádivas, a tradição dita igualmente o agradecimento e a resposta dos ofertantes:

- As alminhas agradecem as vossas esmolas.

- E a vocês as vossas passadas.

Quando a agricultura era a atividade mais forte e todas as pessoas faziam a matança do porco, enchidos, cereais e batatas eram os géneros mais oferecidos. Hoje, muitas pessoas optam por doar dinheiro, embora ainda se faça o leilão de oferendas no adro da igreja. Entre os cantadores há jovens na casa dos 20 anos, que asseguram a vontade de dar continuidade à tradição mais enraizada da aldeia.

Além da oferta da esmola, muitas casas põem a mesa e abrem-se para receber os cantadores. Oportunidades de convívio entre todos, à volta de bons enchidos, filhós e outros sabores tradicionais, naturalmente regados pelo vinho produzido no outono anterior.

 CARREGAIS

Nas vésperas de Natal, paviolas improvisadas com troncos ajudavam a transportar os maiores cepos das redondezas para o largo da Eira, nos Carregais. Às vezes era preciso o esforço de uma noite quase inteira, tamanhos eram os pedaços escolhidos a dedo entre os muitos sobreiros que abundavam na zona. Na noite de Natal, as chamas subiam pela noite fria e iluminavam o convívio à volta de carne ou sardinhas assadas, regadas por um copo de vinho.

A população da aldeia era tanta que durante muitos anos chegaram a realizar-se dois madeiros, um na Eira e outro na Cruz. Quando a eletrificação da aldeia tornou a enorme fogueira perigosa, manteve-se apenas o da Cruz. Os Carregais foram-se esvaziando de gente, mas a tradição perdura e todos os anos volta a reunir novos e velhos à volta do fogo.

Tanto a Eira como a Cruz partilham a característica de terem perdido no tempo a razão de ser dos nomes. Nem mesmo os mais antigos habitantes se lembram de alguma vez se malharem cereais no largo chamado Eira, da mesma maneira que ninguém conheceu nenhuma cruz no largo com esse nome – até que recentemente lá foi colocada uma em granito. Na Eira havia, em contrapartida, um grande mastro com uma bandeira giratória que, qual catavento, rodava à mercê do vento.

Na aldeia hoje envelhecida ouve-se de todas as bocas o mesmo lamento: “O que havia de mais rico nos Carregais? Gente. Hoje só há casas vazias”. Gente e, rezam as memórias de quem foi ficando, bailaricos que nunca acabavam. Todos os domingos “um tocador da freguesia do Peral” dava música ao som da qual se fazia o baile. “Se houvesse dias santos, chegava a vir duas vezes por semana”, recorda Maria Lopes, de 88 anos.

Como era a maior de quatro povoações quase contínuas, Carregais atraía os jovens do Carregal, Casal da Ribeira e Casalinho. Em nenhuma destas aldeias havia capela e a população juntava-se para ir à missa nos Montes da Senhora – ou, mais tarde, na Catraia. E até no caminho se faziam bailes, “para lá do Chão do Galego”.

Festas à parte, a dureza da vida do campo era o pão nosso de cada dia. Ricas em cereja e citrinos, as quatro aldeias tinham também abundância de cereais, moídos em azenhas na ribeira do Alvito. Os pinhais que enchiam a Serra das Talhadas eram outra fonte de riqueza e até o mato, usado para cobrir ruas e currais, era procurado como se de algo valioso se tratasse. “Nessa altura havia falta de mato e íamos ao cimo da serra buscar. Tanto molhinho que fui buscar tão longe!”, recorda Maria Lopes.

O lagar e os moinhos da ribeira estão caídos e ao abandono e os principais desafios da aldeia passam por evitar o isolamento da população. A Fundação Joaquim Lourenço, fundada em 1986, é o atual coração dos Carregais, com um centro de dia frequentado por quase duas dezenas de utentes, a que se junta a valência de apoio domiciliário. Além da centralidade social e até económica – na medida em que emprega cinco pessoas –, a fundação dinamiza atividades culturais e inclui um pequeno museu.

 CASA NOVA

Posto da Polícia, Nova Empresa, Noites e Noites ou Alegria. Sugestivos e quase todos com uma explicação que os desvenda, os nomes não referem estabelecimentos, instituições ou empresas. Marcam uma das curiosidades da Casa Nova, junto a Sobreira Formosa: todas as adegas da aldeia foram batizadas, em noites certamente bem vividas, com denominações que entretanto vão passando de geração em geração. A adega Mais Arriba, como o nome indica, fica no ponto mais alto da encosta. Assolheira e Desabeso resultam da linguagem popular. Há ainda a Alegria, a Vale do Rio e a Cova Funda. Pergunte-se à população a origem dos nomes e a resposta é dada com simplicidade: “Vem dos antigos”. E é das poucas heranças que o despovoamento e as mudanças dos tempos não alteraram na Casa Nova.

A pequena dimensão foi sempre característica da povoação, que tinha em 1911 um conjunto de 12 fogos e apenas mais 2 em 1930. A proximidade em relação à sede de freguesia nunca justificou a construção de capela ou organização de festividades e são poucos os traços distintivos da Casa Nova, que só recentemente começou a organizar uma sardinhada para convívio da população, em agosto.

Embora perdida há décadas, a memória da tradição das fogueiras com pinhas, na noite de quinta-feira santa, continua a ser lembrada com saudade pelos moradores. Nos dias anteriores, os pinhais eram percorridos na busca por centenas de pinhas para formar, no topo da encosta, as palavras Casa Nova. Primeiro marcavam-se as letras – de grande formato – com pequenas pedras, junto às quais eram depois colocadas as pinhas.

Quando a procissão realizada pelas ruas de Sobreira Formosa entrava nos pontos mais altos, sobretudo junto à capela de Santo António, as palavras Casa Nova formadas pelas chamas liam-se com clareza. E nem os invernos mais chuvosos impediam a tradição, porque se preciso fosse acendia-se o forno para que as pinhas molhadas abrissem e pudessem arder facilmente à hora marcada.

Hoje parcialmente escondida pelas ervas, a fonte de mergulho era um dos equipamentos comuns mais usados. De asado à cabeça, era ali que as mulheres iam buscar a água para consumo doméstico. A fonte e os fornos a lenha eram pontos de encontro e convívio da população. Um convívio de que hoje a população envelhecida sente falta. “Antigamente fazia-se um baile com uma simples harmónica. Hoje a malta nova já não sabe bailar.”

As alminhas na encruzilhada de dois caminhos são outro elemento característico da aldeia. Construído em homenagem a um habitante morto num acidente, o pequeno altar tornou-se espaço de oração da comunidade, que deixa na caixa de esmolas oferendas para a paróquia. Sinal dos tempos, recentemente a caixa foi vandalizada e assaltada. O anjo da guarda do painel de azulejos não guarda dos assaltantes. Mas a população confia que continue a guardar a aldeia.

 CASAIS

Em outubro de 1953, um rancho dos Casais integrou o cortejo de grupos folclóricos que pelas ruas de Proença-a-Nova e no pátio do teatro assinalaram a inauguração do antigo hospital. A participação de várias aldeias na festa era mais que justificada: foi graças ao contributo da população, com a oferta de bens como resina para angariação de verbas, que o hospital ganhou forma e foi financiado. Vencedor nesse encontro de ranchos, o grupo dos Casais entoou uma música que ficou para a história, usada como dito popular: “Cá nos Casais toda a gente vai na marcha. Ou isto vai, ou isto racha”.

Adormecido durante décadas, o rancho foi reativado em 2008, com o mesmo princípio de participação e espírito comunitário: juntar três aldeias que o tempo e o crescimento demográfico foram tornando uma só – Casais, Vale Porco e Montinho. A proximidade não foi de sempre. Os moradores apontam a rua mais antiga dos Casais, meia dúzia de casas de pedra parcialmente em ruína, para recordar o tempo em que todos viviam mais fechados sobre si mesmos. Um forno particular numa das esquinas era o ponto de encontro da população. Adelino Bairrada, de 79 anos, lembra-se de ouvir o pai, que todos os dias lia o jornal, contar as notícias aos vizinhos. “Era com um clube, onde quem chegava parava para falar das novidades.”

A escola, em Proença-a-Nova, era a maior janela para o mundo, ainda assim aberta com dificuldade: muitas crianças faziam a viagem de cerca de dois quilómetros a pé, levando para almoço refeições como “uma fatia de broa e uma sardinha enrolada numa folha de couve”. A chegada da primeira telefonia à aldeia despertou curiosidade geral. Mas a verdadeira revolução foi a eletricidade e a entrada da televisão na generalidade das casas.

A construção da capela, inaugurada a 21 de setembro de 1969, foi o ponto de partida para uma maior ligação entre os três povos. Na eucaristia inaugural participaram dois padres que a população elege como figuras da terra: Joaquim Farinha, que integrou a junta responsável pela construção do seminário do Preciosíssimo Sangue, e Manuel Fernandes, do seminário de Cucujães e um dos impulsionadores da capela. A ata que descreve esse dia indica que após a missa “seguiu-se a procissão em volta da capela, a que se seguiu a venda das fogaças e abertura do arraial”.

A constituição da Associação Cultural Recreativa e Desportiva de Casais, Vale Porco e Montinho, a 26 de abril de 1989, formalizou essa proximidade e traduziu-a em iniciativas comuns. A associação atravessou, contudo, um período de quase 20 anos de inatividade, tendo sido reativada em 2008. Só nessa altura, a par da recuperação do rancho, voltou a celebrar-se a festa das aldeias, em honra de São Lourenço.

A antiga fonte de mergulho e os tanques associados mantêm-se como um dos elementos patrimoniais mais ricos dos Casais. A mina foi feita no século XIX, inicialmente com duas fontes de mergulho – uma das quais ainda existe. Dessas fontes saía uma canalização que conduzia a água para o bebedouro dos animais, no qual alguns moradores ainda se recordam de ver a inscrição de “1800 e qualquer coisa”. Havia ainda uma ligação para um tanque grande, onde as mulheres lavavam a roupa.

Durante o mandato de Manuel Rodrigues Paisana na Câmara Municipal (1958-70), a fonte foi intervencionada e em vez do tanque de grandes dimensões ergueram-se quatro mais pequenos, para facilitar a lavagem da roupa. Recentemente voltou a ser renovado o largo e o acesso ao conjunto, que inclui a mina, o fontanário, bebedouro para animais e os quatro tanques – em dois dos quais a terra ganhou espaço à água.

 CASAL D'ORDEM

A simplicidade do casario e da dezena e meia de habitantes do Casal d’Ordem esconde uma história com séculos de existência. A povoação foi fundada pela Ordem de Malta e ganhou, ao longo do tempo, importância na exploração agrícola. Ainda em meados do século passado era comum os moradores do Casal d’Ordem empregarem vizinhos das Moitas (localidade com maior dimensão) em atividades como a apanha de azeitona, vindima ou colheita do milho.

A sede da Ordem de Malta fixou-se no Crato, depois de algumas transferências, em 1439, vulgarizando-se a designação de Priorado do Crato. Proença-a-Nova integrava a área geográfica em que Ordem possuía terrenos e na monografia do concelho o Pe. Manuel Catarino confirma que lhe pertenciam as atuais localidades do Casal d’Ordem, Chão d’Ordem, Lameira d’Ordem e Vale da Carreira – vínculo que a toponímia regista.

Reza a história do Casal d’Ordem que o núcleo inicial, constituído por meia dúzia de casas coladas e com saídas internas, permitia a fuga dos jovens que eram forçados a ir para a tropa. Para assegurar a sobrevivência da propriedade, estava escriturado o princípio da indivisibilidade do Casal. Era o filho varão que herdava os terrenos em que hoje está implantada a aldeia, ficando obrigado a garantir a continuidade e o apoio aos pais e avós. Só durante a I República foi extinta esta cláusula.

A figura mais importante da aldeia foi um capitão, de apelido Oliveira, que comandou a fuzilaria na Batalha do Buçaco e foi afastado durante as lutas liberais. Fixou-se então no Casal d’Ordem, onde fez a maior casa agrícola da região.

Os primeiros registos demográficos existentes, de 1758, dão conta de 7 fogos e 20 moradores, enquanto em 1911, apesar de se manter o número de fogos, estavam já registados 49 moradores. Nos anos 50 do século passado, a população decidiu construir um fontanário para substituir a antiga fonte de mergulho e procedeu a uma relação de habitantes, tendo sido identificados cerca de 60. A fonte em pedra continua a ser um dos escassos equipamentos comuns da aldeia, no passado servida por uma azenha que está ao abandono. Há meia dúzia de anos foi construído um nicho com uma imagem de Nossa Senhora, colocado à entrada da população.

Apesar de a rede elétrica só ter chegado ao Casal d’Ordem nos anos 80, antes disso a aldeia foi servida por um motor comunitário, dotado de um despertador que o desligava à meia-noite. Alguns moradores ainda se lembram da frustração de verem interrompidos filmes que estavam a ser emitidos, como o clássico “Há lodo no cais”. Hoje as infraestruturas permitem outro conforto e o empedrado substituiu os matos que noutros tempos cobriam as ruas, mas a procura por melhores condições de vida levou muitos moradores para núcleos urbanos e para o estrangeiro. Restam, no verão, os dias de reencontro entre quem ficou e quem nunca se esquece de voltar a casa.

 CASALINHO

As histórias dos meses em que o fantasma de soldados franceses rondou a aldeia perduraram no tempo. Ainda hoje no Casalinho se fala das invasões e de um grupo de homens que terá desertado da coluna liderada pelo general Junot. De acordo com a versão transmitida através de gerações, abrigaram-se numa casa de pedra, na encosta da serra que protege as costas da aldeia. Por duas vezes os moradores se aperceberam dos seus movimentos, entre o mato alto que cobria toda a zona. Cerca de um mês depois de se terem instalado no local, varreram o pequeno aglomerado de casas à procura de comida. E o que não comeram estragaram, tendo tombado bilhas de azeite e outras reservas da população.

Os censos existentes confirmam que, embora pequena, a aldeia do Casalinho já se acomodava junto ao ribeiro do Colmeeiro muito antes das invasões francesas. Em 1758 os registos populacionais indicam que teria 6 casas e apenas 15 moradores e em 1911, apesar de o número de famílias se ter reduzido para 4, eram 32 os moradores contabilizados. Em meados do século a população era bastante mais expressiva, mas aos poucos a saída de jovens e a forte emigração para o Brasil, nos anos 60 e 70, esvaziaram o Casalinho, que chegou a ter apenas três residentes.

Há quase uma década iniciou-se um lento renascimento e as obras de recuperação de imóveis ao abandono alteraram por completo o núcleo original da aldeia. O alcatrão tornou as povoações vizinhas, Amoreira e Vale d’ Urso, mais próximas e alguns metros a montante da antiga ponte de pedra avista-se a nova travessia, que apaga as memórias do tempo em que no Casalinho se sentiam as marcas do isolamento.

Em linha reta a pé, como era comum circular há algumas décadas, Amoreira e Vale d’Urso ficavam a cerca de um quilómetro de distância. Mas era para a segunda daquelas aldeias que o Casalinho estava mais virado, tendo contribuído para a construção da capela. A festa religiosa era celebrada em conjunto: as ofertas eram levadas em andores, para serem leiloadas no Vale d’Urso.

Na altura dos Santos, existiu durante muito tempo uma irmandade que juntava, além de Casalinho e Vale d’Urso, a aldeia do Foz do Pereiro. Em cada ano, de forma rotativa, uma casa oferecia sardinhas e um pão a cada membro da irmandade, num almoço em que rezavam pelos irmãos já falecidos. Com o despovoamento da aldeia, o Casalinho deixou de participar na tradição.

A água marca o enquadramento da povoação e os moinhos foram no passado um dos aproveitamentos da força do ribeiro. Hoje estão ao abandono e as mós do moinho situado junto às casas foram recentemente roubadas. Os tempos mudam e deixou de haver espaço para searas e agricultura intensiva. Mas há, para o Casalinho, um novo ciclo, feito de regressos.

 CASTANHEIRA e COR DOS TOJOS

Há cerca de meio século, a Castanheira orgulhava-se de ser a aldeia da freguesia de Sobreira Formosa que mais quantidade de milho produzia. A pequena ribeira com o mesmo nome era aproveitada para alimentar os quatro moinhos que moíam os cereais, dos quais apenas um se mantém em funcionamento. A par do milho, a resina destacava-se igualmente entre os produtos mais explorados. As encostas repletas de pinhais, na serra das Corgas, proporcionavam uma fonte de rendimento que ocupava boa parte dos moradores, habituados à dureza do trabalho de carregar os bidões de resina sob o sol ardente do verão.

O nome da povoação reflete a presença abundante de castanheiros que, devido às doenças do cancro e da tinta e aos incêndios, foram sendo dizimados, tornando-se reduzida a presença desta espécie, com pouca expressão no concelho. Apesar da construção da estrada nacional 351, que aproximou a Castanheira de Proença-a-Nova e da Sobreira Formosa, o isolamento e o êxodo rural contribuíram para a diminuição da população nas últimas décadas. Com quase uma centena de moradores registados no Censo de 1911, a aldeia conta agora com apenas duas dezenas de pessoas, repartidas com a povoação quase contígua de Cor dos Tojos.

Construída há cerca de 30 anos, a capela em honra de São José e de Nossa Senhora de Fátima resultou da iniciativa da população. Erguida no ponto mais alto da aldeia, a pequena ermida é mercada pela simplicidade, com um revestimento de azulejos e as imagens dos dois padroeiros a ladear a cruz central, atrás do altar.

A verba inicial para compra do terreno e lançamento das obras resultou de um peditório à população, seguindo-se a organização de festas para angariar receitas. Inicialmente a festa começou por realizar-se no domingo de Páscoa, sendo posteriormente transferida para o primeiro fim de semana de julho. O despovoamento da aldeia e a falta de braços para a iniciativa ditaram o fim da festa. Resta a memória do tempo em que se juntavam centenas de visitantes, vindos nomeadamente do Pedintal e da Isna, povoações do concelho vizinho de Oleiros com que a Castanheira mantinha forte proximidade.

O lagar está inativo há vários anos, assim como alguns moinhos entretanto abandonados, ao longo da ribeira. A linha de água marca presença forte na aldeia, com as levadas bem conservadas e a antiga mina que abastecia a população. Ao longo dos anos a fonte teve diversas localizações e foi entretanto colocada à beira da estrada, praticamente apenas para fins decorativos.

 CATRAIA CIMEIRA

Em outubro de 1762, a invasão franco-espanhola tentava entrar no concelho, atravessando a Serra das Talhadas na única passagem que a muralha rochosa oferece, na ribeira do Alvito. No Vale das Talhadas, Catraia Cimeira, dá-se o confronto violento com as forças que defendiam a Beira Baixa, cujo relato perdurou ao longo dos anos. Diz-se que o sangue escorria de tal forma que chegava aos machinhos dos cavalos.

Em 1807, o percurso voltava a ser cruzado pela primeira invasão francesa. No Forte das Batarias, situado no alto do monte, a defesa controlava facilmente o avanço das tropas, com uma visão de vários quilómetros a partir da ribeira do Alvito, e só por razões políticas os soldados enfraquecidos e castigados pelo inverno não foram travados naquele local.

Dois séculos depois, o forte mantém-se destacado na paisagem e testemunha os principais episódios históricos da Catraia. Recentes escavações revelaram balas, moedas e outros objetos que confirmam a ocupação do espaço desde as guerras peninsulares, no século XVIII. A chamada linha defensiva das serras das Talhadas e Muradal era formada por um conjunto de fortes e baterias que tem vindo a ser estudado e recuperado, em colaboração entre o Município de Proença-a-Nova e a Associação de Estudos do Alto Tejo.

A memória popular é também marcada pela existência de uma antiga estalagem na Catraia Fundeira, pequeno aglomerado de cinco habitações abandonado há algumas décadas. A sua história perde-se no tempo e presume-se que já existiria na altura das invasões, sendo ponto de paragem das carruagens que faziam a ligação entre o concelho e Castelo Branco. Havia uma área destinada à alimentação e acolhimento do gado, a par das instalações para estadia dos clientes.

De acordo com os censos de 1911, as Catraias tinham nesse ano 95 habitantes. O número não varia muito um século depois: 101 habitantes em 2011, apenas na Catraia Cimeira. Da antiga estalagem só sobram paredes quase cobertas pelas silvas, mas a poucos quilómetros prepara-se a abertura de uma nova unidade, propriedade da família de José Rodrigues, empresário com destacada atividade agrícola.

À beira da estrada, as Alminhas existentes há cerca de um século testemunham a devoção popular, também manifestada com a construção da capela, dedicada a Santa Luzia. A festa em honra da padroeira é comemorada no primeiro fim de semana de setembro.

Tradições como o Vit’ó Maio, em que as crianças iam de porta em porta enfeitadas de flores, caíram em desuso e equipamentos comunitários, como o forno a lenha, mantêm-se apenas como recordação de outros tempos. Tempos em que se formavam filas para cozer o pão, sendo necessário um sistema de marcações com ramos de pinho e pedras.

 CEREJEIRA e PONTE DO ALVITO

São João eras bom santo

Se não foras tão velhaco

Foste c’as moças à fonte

Foram três vieram quatro

 

Quadras dedicadas ao São João abundam na memória dos moradores da Cerejeira. A noite era uma das mais alegres do ano, com um misto de religiosidade e brincadeira – por vezes malandra – expressa em exemplos como o que acima se apresenta. Mandava a tradição que as raparigas solteiras se juntassem para dormir numa única casa, aguardando a chegada da meia-noite. Nessa altura dirigiam-se para a ribeira do Alvito, para o banho de São João. Antes da hora não valia a pena entrar na água, porque só depois da meia-noite se acreditava que a água era benta.

Antes disso, ao cair da noite, saltava-se a fogueira de São João. Na encosta, era escolhido e limpo um pinheiro, em torno do qual se empilhavam ramos e paus que assegurassem um grande fogo. O chamado “pinheiro de São João” via-se à distância, enquanto no largo da aldeia se faziam as fogueiras mais pequenas para saltar, com coroas de capelas à cabeça. Nessa noite até as mantas eram postas à varanda, para apanhar o orvalho da noite e assim se purificar a casa.

Depois de um serão de música, petiscos e às vezes uns copos a mais, não faltavam brincadeiras que ainda hoje são recordadas. Como uma noite em que um dos homens da aldeia se infiltrou no banho das raparigas, na ribeira. Só muito depois de entrar nas brincadeiras uma delas se apercebeu que havia um intruso.

Entre as partidas de São João contava-se o hábito de levar os vasos de flores para a fonte, um pouco afastada da maioria das casas. Quando acordavam, os moradores viam-se obrigados a recuperar os seus vasos. Recentemente arranjada e limpa, a fonte resiste às ervas mas já só de tempos a tempos recebe visitas. O vale em que se situa a fonte é conhecido como Barroca da Alegria, nome que se deve ao facto de ali terem existido muitas adegas. Hoje apenas sobrevivem duas.

Como na maioria das aldeias do concelho, os equipamentos comunitários tendem a ficar parados. Dois moinhos ainda moem, mas já só ocasionalmente. O lagar está parado e também o forno, apesar de recuperado, serve apenas para preservar memórias de tempos em que era muito utilizado. O núcleo antigo da Cerejeira começou por erguer-se à volta do forno e ainda se mantém de pé uma casa datada de 1893.

Nas proximidades situa-se a eira, largo onde antigamente eram moídos os cereais. Era ali que se realizavam as festas da aldeia, antes de existir a sede da associação local, que entre os projetos mais destacados dinamizou a praia fluvial da Couca. No verão a aldeia renasce e enche-se de pessoas em férias, com a zona de lazer a fazer parte do roteiro de moradores e visitantes.

Ao contrário do que o nome indicia, na Cerejeira não abundam cerejas. “As cerejeiras não se dão por cá. Não sabemos de onde veio o nome”, explicam os moradores. Situada numa extremidade do concelho, a aldeia localiza-se a dois quilómetros da Ponte do Alvito.

 CHÃO DO GALEGO

Diz a lenda que há muitos anos uma moura viveu sozinha numa gruta, na encosta da Serra das Talhadas. Uma senhora que um dia passou junto dela viu-a pentear-se e elogiou-lhe os longos cabelos. A moura, satisfeita com o elogio, deu-lhe alguns pedaços de carvão. Intrigada com a estranha oferta, a mulher seguiu caminho, mas quando voltou a abrir a mão o carvão tinha-se transformado em ouro. A lenda que domina o imaginário da aldeia de Chão do Galego vai tendo diferentes versões consoante quem a conta e uma delas arrasa o final feliz: a moura teria dito à mulher para não ver o que levava na mão, mas a curiosidade foi mais forte e ao espreitar fez com que o ouro voltasse a transformar-se em carvão.

Olhando a encosta rochosa, a Buraca da Moura avista-se a partir da aldeia, mas nem todos os moradores conhecem outro pormenor: a alguns metros existe uma reentrância na rocha chamada “forno da moura”. Os espaços marcados pelas histórias criadas em torno da ocupação mourisca incluem ainda o Escorregadouro da Moura e a crença de que existiria uma galeria a ligar a gruta ao rio Ocreza, onde a moura iria tomar banho.

Lendas à parte, a serra das Talhadas é uma presença forte que parece proteger a aldeia e em 1944 foi inaugurado o cruzeiro que ainda hoje se destaca no miradouro, com uma paisagem a 360 graus capaz de cortar a respiração. Feito por iniciativa da população, o cruzeiro foi obra do pedreiro João Salgueiro e levado em ombros para o topo da serra, tendo sido inaugurado com uma missa campal.

A serra abriga a nascente de água que há quase um século alimenta os campos agrícolas da povoação. A escritura de exploração da mina, datada de outubro de 1915, dá conta dos proprietários e indica que se algum poço em volta secasse devido à sua construção, o proprietário seria indemnizado em 4$50. A mina mantém-se em funcionamento 24 horas por dia, havendo 12 números atribuídos a cada utilizador, através dos quais são regulados os horários a que cada um tem direito.

O comunitarismo e a entreajuda eram palavra de ordem em tarefas como a malha dos cereais e a desfolhada, no final das quais se partilhavam melancias, figos e uns copos de aguardente. Também o forno era comunitário e quem queria cozer marcava a vez colocando um molhe de lenha no local. Quem ficava marcado em primeiro lugar usava a expressão de que “levava a ponta”. A pouca distância do forno encontra-se A Quelha das Bruxas, onde terá nascido a aldeia.

Já reparado com arames e fita adesiva, sinal do uso que ao longo do tempo o degradou, um grande búzio é guardado como símbolo da vida comunitária. Quando não havia meios de comunicação nem sequer um sino para juntar a população, era o som do búzio que convocava os moradores – quer fosse porque algum perigo, como o fogo, ameaçava a aldeia, ou para cumprir tarefas em que todos fossem envolvidos.

Foi o caso da construção da primeira escola do Chão do Galego, concluída em 1955. Ao meio-dia tocava o búzio e todos, novos e velhos, se juntavam para ir à serra buscar pedras para o edifício. A obra fez-se em apenas um mês e a escola foi inaugurada a meio do ano letivo. A utilização dada ao edifício viria a manter-se por apenas quatro anos, já que entretanto o Estado construiu a nova escola no âmbito do Plano dos Centenários. A escola foi então convertida em capela, dedicada a Nossa Senhora das Graças.

Entre as tradições religiosas ativas, uma das mais fortes é o cantar das Excelências, no período da Quaresma. Os mais jovens têm aprendido e mantido vivo este cântico cujo objetivo é contribuir, pelo meio de preces, para aliviar as penas às almas que estão no Purgatório.

 CHÃO REDONDO

Se as pedras das fontes de mergulho das aldeias de Chão Redondo e Venda falassem, teriam seguramente muitas histórias para contar. Em ambas as localidades, foram durante a segunda metade do século XX pontos de encontro da população, palco de namoricos, cenário de prolongadas conversas e pausas aos domingos. Hoje já não abastecem a população de água, mas mantêm-se como património que testemunha vivências e hábitos do passado.

Os moradores organizam uma escala para assegurar a limpeza das fontes, que escapam ao cenário de abandono e invasão pela vegetação característico de outras povoações. Enquanto no Chão Redondo existe apenas a fonte e vestígios do bebedouro destinado aos animais, na Venda um tanque de grande dimensão recorda os tempos em que as mulheres se juntavam a lavar a roupa.

Separadas por escassos 700 metros, as duas localidades pertencem a freguesias diferentes, numa estranha curva geográfica que a população diz ter sido determinada pela disputa de eleitores. Quando foi constituída a freguesia de Montes da Senhora, em 1921, reza a história transmitida entre gerações que na Sobreira Formosa não abdicaram de manter a Venda, que nessa altura tinha cerca de uma centena de moradores.

O peso da localidade fazia sentir-se em festas como a do Sagrado Coração de Jesus, em que se fazia “um grande andor”, transportado a pé pela população. Festa rija havia igualmente no primeiro fim de semana após a Páscoa. Faziam-se fornadas de bolos fintos e deslocava-se à Venda “um tocador” que ficava os dois dias a animar a “rica festa que então se fazia”. Cada vez mais esvaziada de gente, a aldeia foi perdendo força e a festa é atualmente conjunta com Catraia Cimeira e Chão Redondo. Da centena de habitantes existente há um século, restam hoje apenas seis em permanência – quatro mulheres e dois homens.

A perda populacional é um lamento comum à generalidade do mundo rural e também no Chão Redondo uma visita guiada pela aldeia dá conta das inúmeras casas desmoronadas e portas que têm vindo a fechar-se. Os censos de 2011 registam 31 habitantes, mas apesar de tudo a recuperação de habitações é evidente e mantém-se uma forte ocupação sazonal.

O núcleo primitivo da aldeia – cujo nome advém da forma arredondada da planta antiga – conserva-se e a população recorda que no passado as estreitas quelhas eram fechadas nas extremidades durante a noite, para impedir a entrada de lobos e ladrões. Havia apenas uma entrada principal e outra secundária, bem como uma saída secreta, para situações de emergência, que dava para a lateral do forno de pão.

Os fornos comunitários das duas aldeias eram outro equipamento importante e exigiam-se sistemas de marcação que asseguravam o acesso a todas as mulheres. Hoje são poucos os interessados em cozer no forno a lenha e não faltam horas vagas para o usar. Apesar dos efeitos da desertificação, o Chão Redondo tem beneficiado de apoios como o da família Rodrigues, que recentemente construiu o nicho de Nossa Senhora de Fátima.

A população da aldeia aumentou após o 25 de abril, fruto do regresso dos retornados, particularmente de Angola. Das famílias tradicionais constavam verdadeiras alcunhas e histórias particulares engraçadas, como os Soldados, os Cardeiras, a Guerra, os Rei e a Rainha, os Jangalhas, os Salsas e os Garralhés.

 CIMADAS CIMEIRAS e FUNDEIRAS, e MONTINHO DAS CIMADAS

Conhecido por “Pedra das Letras”, um painel de xisto de cerca de dois metros de largura, com gravações lineares, é um dos vestígios arqueológicos que comprovam a antiguidade da ocupação humana na zona das Cimadas. Antas identificadas pelo Igespar, um pequeno machado de pedra e fragmentos de cerâmica, todos eles já analisados por arqueólogos e encontrados no vale onde se situa a pedra das Letras, confirmam que o território era habitado na Idade do Bronze e na do Ferro.

Já no Promptuário das Terras de Portugal, de 1689, as Cimadas surgem na enumeração de lugares pertencentes ao termo de Cardigos, nessa altura concelho. Ao longo dos anos registaram-se sucessivas mudanças administrativas do conjunto formado pelas três povoações – Cimadas Cimeiras, Cimadas Fundeiras e Montinho das Cimadas. Em 1938 passaram para o concelho de Vila de Rei, mas o Pe. Manuel Catharino, na monografia de Proença-a-Nova, dá conta das reclamações da população, “não só pela distância a que está Vila de Rei mas também pelas ribeiras que tinham de atravessar”. O pedido de integração em Proença-a-Nova foi então atendido.

Situadas no limite com o concelho de Mação, com o Cabeço de Santo António e o Cabeço da Porca a protegê-las do vento, as aldeias viveram sempre em conjunto, já que as escolas e a igreja eram comuns. No último censo totalizavam cerca de 150 habitantes. Houve mais três lugares de pequena dimensão que também estiveram ligados às Cimadas – Corcovas, Vale da Carreira e Zoina.

A primeira escola das Cimadas, hoje propriedade da Capelania, entrou em funcionamento em 1911 e foi construída por iniciativa de um padre da Corujeira, com a colaboração da população que terá cedido o terreno e ajudado nas obras. Em 1927 entrou em funcionamento uma nova escola construída pelo estado e que era inicialmente apenas masculina, continuando a velha a receber as raparigas. As duas escolas mantiveram-se em funcionamento até à década de 50, tendo nessa altura encerrado as instalações mais antigas, que ainda voltaram a ser reutilizadas em 1977, durante as obras na Escola Nova. Até hoje propriedade do Estado, este último edifício serve de secção de voto enquanto a primeira escola funciona como local de encontro da população, albergando uma exposição de cartazes das festas desde 1952.

À semelhança de outras localidades do concelho, nas Cimadas mantém-se ativa a irmandade “A Boída”, que anualmente se encontra no dia de Todos os Santos, para um almoço e convívio em que não faltam as tradicionais sardinhas. A tradição remonta pelo menos a 1923 – altura em que se iniciou o registo dos nomes dos membros da irmandade – e nasceu com o espírito de solidariedade no apoio à realização de funerais, num tempo em que só a família não tinha, muitas vezes, posses para pagar o caixão.

Todos os anos era nomeado um “juiz”, a quem competia, em caso de morte de um dos irmãos, fazer a coleta do dinheiro do caixão, avisar da hora do funeral e nomear os homens para levar o carro com o defunto até ao cemitério. Esta necessidade deixou de se sentir e o almoço foi melhorado com novos petiscos, mas o encontro da população repete-se, sendo iniciado com a reza do terço.

A Fonte Meeiro, fonte de mergulho em que outrora os habitantes se abasteciam de água, mantém-se como guardadora de mil segredos e encontros de namorados. Na ribeira do Bostelim existia um lavadouro comunitário, uma dezena de moinhos e uma ponte em xisto. Foram terras onde o linho teve lugar de destaque, sendo relatado no livro “Gentes da Beira Baixa”, de Maria Assunção Vilhena, que chegaram a existir 13 teares.

Há também tulhas espalhadas pela povoação que recordam uma tradição hoje desconhecida. Quando a castanha era a base da alimentação, os ouriços eram guardados em tulhas (construções em pedra) junto aso castanheiros. Num dia combinado, os rapazes juntavam-se e à socapa faziam ronda pelas tulhas, tirando alguns ouriços que depois se destinavam a fazer um magusto.

 COR DA CABRA e COR CANIÇO

Longe vão os tempos em que os risos das crianças enchiam o vale de vida e de esperança. Entre a Póvoa e a Atalaia, os campos eram cuidados por famílias que unidas partilhavam as tarefas esforçadas da agricultura. Mas mesmo nos tempos de maior dinamismo demográfico nas zonas rurais do concelho, Cor da Cabra e Cor Caniço foram sempre pequenos povoados com escassos conjuntos de habitações.

Em 1911 Cor da Cabra tinha “3 fogos e 13 almas”, como documenta o pe. Manuel Catharino na monografia do concelho, aumentando para 5 fogos em 1930. Fernanda Gonçalves dá conta de que em 1980 ainda ali moravam pelo menos 20 pessoas, que viviam não só da própria terra como de alguns ofícios entretanto abandonados - na Cor da Cabra havia um ferreiro e duas tecedeiras.

O sentido comunitário era vivenciado nas desfolhadas, um dos momentos altos de convívio ao longo do ano, em que “cada casa tinha seu lajeado” mas todos ajudavam, e no forno para cozer o pão, hoje degradado e cercado de silvas. Tempos difíceis em que se ia a pé para a escola, na Atalaia. Em que não havia luz e a água era tirada de um poço lateral à ribeira, que nem fonte chegava a ser. A condizer com a sua dimensão, o povoado tinha escassos equipamentos ou espaços de uso comum.

Muito perto de Cor da Cabra encontra-se Cor Caniço, um outro lugar no mesmo vale, com idênticas memórias e alguma nostalgia dos tempos de maior dinamismo. Caniço, explica o casal Abílio e Rosário, porque ali se secavam as castanhas, “apanhadas dos muitos castanheiros que povoavam os campos, sobre um armado de caniços”. Restam as alusões à produção que deu nome à aldeia, mas nem os últimos habitantes assistiram já a essa secagem das castanhas. Viveram em Cor Caniço até há cerca de 30 anos, tendo sidos os últimos resistentes a abandonar o local.

Meia dúzia de casas e pouco maior número de pessoas ali ia passar a temporada estival para trabalhar os campos – “fazendas”, como são designados os terrenos, muitos deles batizados com o termo Cor: Cor Giesta, Cor Tojos, Cor Esqueiro, Cor da Cega, Cor do Pão, Cor Casada, Cor Losa, Cor da Meada, por exemplo.

A orografia do terreno poderá explicar este denominador comum. Toda a área está situada num vale, em terrenos férteis valorizados na agricultura, e os nomes das povoações ou fazendas poderão ter resultado da abreviatura do termo “corga”. Sinónimo de “córrego”, corga designa uma “terra grossa e baixa no sopé das encostas” ou “sulco aberto por águas correntes”.

Em 2003 o grande incêndio que afetou o concelho devastou toda a área em que as localidades estão inseridas, mas a vontade e o apego à terra falou mais alto e muitas construções foram recuperadas. Ainda hoje se encontra uma ou outra casa habitada e as terras vão sendo “amanhadas” com a paciência e carinho dos mais velhos que ali se deslocam. Apanham azeitona, cortam matos para os animais, olham as casas com nostalgia e esperam que um dia os filhos as valorizem.

 CORGAS

A noroeste do concelho de Proença-a-Nova, a aldeia de Corgas distribui-se pela encosta do vale da ribeira com o mesmo nome, aproveitando a beleza cénica que a região lhe proporciona. O nome de Corgas parece originário de córrego que significa ‘rego por onde corre a água’ ou ‘sulco aberto por águas correntes’ ou ainda ‘terra grossa e baixa no sopé das encostas’. Qualquer um parece adequar-se perfeitamente a esta aldeia que tinha nos vales o sustento alimentar e na serra o ganha pão das gentes laboriosas dedicadas aos soutos e, mais tarde, à resinagem e à exploração florestal. Destas ficaram as memórias e o registo etnográfico divulgado pelo grupo folclórico “Os Resineiros,” em atividade regular desde 1999 (até então o grupo juntava-se para os ensaios um mês antes das festas anuais para se apresentar naquelas, ou em ocasiões especiais como a da inauguração do Hospital ou a da ‘chegada da luz elétrica’, na vila de Proença). Ao pisarmos as calçadas das ruelas estreitas desta aldeia alcandorada já não encontramos o movimento de outrora. Sentados no largo do Cortinhel, o sr Alfredo e a D. Eugénia contam-nos, entre sorrisos tímidos rasgados de nostalgia,  os ritmos e azáfamas que a encheram de vida. “Éramos muitas famílias. Trabalhávamos e divertíamo-nos em conjunto.  Tínhamos milho, que moíamos no moinho lá de baixo, que ainda funciona, azeite e castanha, que íamos a Proença trocar por arroz, açúcar e outros bens que não tivéssemos.” “Os Castanheiros foram muito importantes na nossa alimentação, mas depois veio o pinhal, que dava mais rendimento, e toda a gente ia para a resina. Homens e mulheres.” “Mas também tínhamos a horta que amanhávamos com a junta de bois, porque quase todos tínhamos uma, que também acartava o mato para os animais.” “Agora já só cá há um macho.” No entusiasmo atropelam-se as palavras, que com a chegada da Celeste e da Gracinda, já todos as soltam com prazer. “E todos os dias se cozia pão nos muitos fornos que por cá havia. De milho. E mais tarde de centeio.” “Também partilhávamos o ‘crescente’ com os vizinhos.” “O trigo, esse já é mais recente.” Gente de grande devoção, tem na Nª Srª do Carmo a sua padroeira que, dizem, protegeu o povo aquando das Invasões Francesas, e nos ‘bentinhos’, dois pedaços de tecido decorado, unidos por um fio, que pendem das mãos da Nª Srª e do Menino como sinal da proteção divina. Da antiga capela já não há ruínas e no seu lugar construiu-se a Casa do Povo. A nova capela foi erguida na segunda metade do século passado e desde então os sinos entoam a Avé Maria até à hora de descanso. Entre as várias manifestações de culto realizadas ao longo do ano, a Encomendação das Almas e as Endoenças, que se realizavam durante a Quaresma, eram das mais importantes para a aldeia. Se a primeira ainda se pratica graças à persistência do grupo que tem vindo a cumprir a tradição de as entoar todos os anos (desde a 4ªfeira de cinzas até à sexta-feira Santa) já a segunda acabou por ficar esquecida no tempo, em que as muitas crianças se distribuíam pela estrada fora (na sexta–feira Santa) à espera que os adultos chegassem das cerimónias, em Proença, e lhes trouxessem amêndoas e confetes. Não havia criança que não tivesse o seu quinhão dentro da bolsinha de pano cru, costurada carinhosamente pelas mães. Hoje, os sons da aldeia misturam-se entre os da água que corre apressada no seu leito de escorrência e o zumbido dos aerogeradores que, na crista da serra, rodam ávidos de vento, num movimento cadenciado transformando-o em energia capaz de suprir as necessidades do concelho. No vale, entre a ribeira das Corgas e a da Isna está a albufeira da Barragem das Corgas, que também distribui outro bem essencial ao concelho – a água ao domicílio.

 CORUJEIRA

Corujeira, ou 'Crugeira' como nos dá conta, na sua monografia, o padre Manuel Alves Catarino, é uma aldeia muito antiga, que já em 1758 possuía '12 fogos' habitados por '47 almas'. Das antigas habitações pouco mais restam que duas ou três. As outras foram demolidas dando lugar a novas construções com melhores condições de habitabilidade.

Erguida a Noroeste da vila de Proença-a-Nova, tem com esta uma relação de proximidade tal que, não fossem as placas toponímicas, poderia ser considerada mais uma zona de bairro da vila. A origem do topónimo Corujeira, ou Crugeira, embora possa ser atribuída à presença de corujas, certo é que o encontramos em muitos outros locais do país, e da Galiza. Segundo o site 'Toponímia Galego-Portuguesa e Brasileira' o autor refere, como sinónimo provável, os termos Cruze/Cruzamento, o que aqui até se ajusta com alguma coerência

Terra de mulheres bonitas, sempre atraiu rapazes de outras localidades. Quem o diz é o Luís Tomé que aqui veio casar com Mª de Fátima. Contam que nessa altura não passavam carros nas quelhas da povoação e que, apesar do apego à aldeia, só quando foi inaugurada a luz, em 1981, é que construíram a casa onde habitam. Também Irene, num sorriso doce semelhante ao da sua irmã, refere que, embora durante algum tempo ausente devido à profissão de professora primária, acabou por regressar definitivamente, em 1986, não só para estar perto da mãe como também pela ligação à aldeia que a viu nascer. Continuando o desfiar de recordações de tempos passados, referem ainda que a apanha da azeitona era um dos momentos altos do ano. Embora a dureza dos trabalhos do campo não seja a melhor das recordações, já a azáfama em torno da atividade, a reunião das famílias, os cantares ao desafio entre elas e os bailaricos no final da campanha, deixam-lhes alguma nostalgia na voz.

No largo principal ergue-se uma singela capela e, ao lado, a fonte comunitária onde outrora se reuniam as moças para lavar a roupa ou levar a água para o consumo doméstico. Neste mesmo largo, na sua plataforma uniforme e ampla, malhava-se o trigo e o centeio, como se de uma grande eira se tratasse, e, atrás da mesma ficavam as “casinhas do milho” construídas em pedra da região, todas elas com uma pequena eira à frente. Cada família tinha a sua e era aqui guardavam, desfolhavam e malhavam o milho. Hoje, apenas se encontram algumas ruínas que denunciam os trabalhos de então.

O serviço religioso, só esporadicamente era realizado (embora durante um curto período de tempo, pela presença de um padre da localidade, tivesse sido rezada missa com regularidade). Ainda hoje só de vez em quando é que é celebrada missa nesta capela inaugurada em 1883 e cujo orago é dedicado a Nª Srª de Lourdes. Para assistir às celebrações litúrgicas, bem como para ir aos mercados e feiras, a comunidade deslocava-se à vila a pé, com sapatos velhos que eram trocados à entrada da vila pelos novos e mais limpos. Durante anos padroeira das festividades locais, Nª Srª de Lourdes partilha ainda a capela com S. Simão e S. Bento. A S. Bento, Santo monástico italiano do séc. VI, fundador da Ordem Beneditina e declarado Padroeiro da Europa pelo Papa Paulo VI, é-lhe dado o epíteto de “advogado das coisas ruins e dos males desconhecidos”, tornando-o, a par com Nª Srª de Lourdes, num santo milagreiro, autor de curas espantosas, principalmente nas doenças de pele ou males ruins: curar verrugas, cravos, antrazes, excrescências carnudas e outros. Há mais de 40 anos que a festa religiosa não se realiza, mas a comunidade junta-se de vez em quando para socializar e comemorar efemérides, ou dias especiais, como o do magusto de novembro de 2014.

 CUNQUEIROS e VALE SALGUEIRO

A que pode chegar a força de um povo”.

 

O Memorial dos 25 anos da Associação Recreativa e Cultural de Cunqueiros, editado no ano 2000, da autoria de Luís Farinha Sequeira Rosa, dá-nos conta que na génese daquela associação fundada em 1975, esteve um grupo de jovens empreendedores e conhecedores da realidade local, das suas necessidades e da importância que o movimento associativo podia ter para conseguir os seus objetivos. Era também vontade da associação, e da população, logo desde o início, que no mesmo edifício (antiga escola primária) pudesse ser prestada a assistência médica, o que se conseguiu concretizar após um processo difícil e audacioso.

Nas palavras de Luís F. Rosa, seu presidente de então, a associação demonstrava “ser um polo aglutinador, de união e inclusive no regresso às origens de muitos Cunqueirenses que mais não seja a pretexto da realização e participação nas atividades coletivas que, por sua vez, possibilitam novos caminhos e novas esperanças”. Ainda hoje a Associação mantém viva esta chama da união entre habitantes e conterrâneos, através dos convívios anuais, da Festa da Nª Srª da Lapa (orago da Aldeia) e na DanceParty, uma referência nos festivais musicais a nível regional.

Diz-nos Leonel Lopes que por ali ‘era tudo póvoas’ (ou fazendas) pertencentes na sua maioria a proprietários da Sobreira que lá tinham Castanheiros, vinhas e outras plantações. Na altura das colheitas ou amanhos da terra, para aqui vinham e ficavam dias seguidos, até que começaram a construir, primeiro as adegas (uma delas data de 1784) e depois as habitações. Sem data certa que marque a sua fundação (embora haja uma pedra da Capela primitiva com duas datas – uma de 1771 e outra de 1834), Cunqueiros destaca-se na paisagem como uma aldeia presépio.

Alcandorada na encosta de um vale cuja ribeira corre durante todo o ano, a vida desta que foi uma das povoações mais desenvolvidas da freguesia de Sobreira Formosa, desenrola-se entre os campos (numa agricultura de subsistência) e os encontros da comunidade. Daqui avista-se o Vale Salgueiro, um pequeno lugar iniciado por um casal que ali se radicou na segunda metade do séc. XIX, e acabou por pertencer quase todo à mesma família que por lá trabalhava os campos e se deslocava aos Cunqueiros para os serviços religiosos ou a ida à escola.

Rondando as 333 almas em 1911, volvidos mais de 100 anos a população de Cunqueiros resume-se hoje a menos de uma centena de habitantes. Antigamente muitas eram as crianças que brincavam nas ruas e quelhas da aldeia, pois havia casas de 10 e 11 filhos, segundo descrevem a D. Júlia Cardoso (nos seus risonhos 84 anos) e a divertida D. Irene Ribeiro Bento, de 78 anos.

Em 1918 tinha uma escola particular, nos anos 40 já tinha um posto escolar e nos anos 70 chegou a ter três lugares de escola oficiais, para onde também vinham estudar meninos e meninas do Travesso e das Pedras Brancas. Hoje, uma das salas está destinada à ginástica sénior e a outra a casa mortuária. Continuando à conversa, mostram-nos o ‘lajeado’, ou Eira, onde no inverno, ao ritmo das canções pela bela voz da Júlia, faziam os bailaricos que recordam com saudade. A casa-escola de costura foi também um marco importante para a aldeia, pois aqui andaram muitas moças a aprender a costurar e a bordar. Irene foi uma delas, que aprendeu com a mestre Júlia o tanto que hoje sabe.

Pela singularidade do topónimo ‘cunqueiros’ ou ‘conqueiros’, toda a informação pesquisada remete para ‘alguém que fazia tigelas de madeira – cuncas/concas - para guardar alimentos. Fica a incógnita se efetivamente, em tempos que já lá vão, os homens da aldeia se dedicavam à sua elaboração… e se aquelas poderiam ter servido de recipiente para o vinho produzido nas muitas adegas que por ali proliferavam e que hoje já pouco rivalizam…

Continuamos a visita pelo núcleo de xisto e fomos ao encontro dessas adegas que, fosse pela decoração ou pela produção vinícola, eram o maior orgulho dos seus proprietários. E muitas eram as ‘romarias’ em dias que nem precisavam ser de festa.

É também neste casco antigo que se encontra, ainda que em ruinas, aquela que, dizem, foi a primeira casa a ser erguida. Constatamos uma preocupação cada vez maior na recuperação destes imóveis, mas muitos há ainda a necessitar de uma intervenção urgente para preservação da identidade do local.

Com uma beleza natural e grande potencial turístico, Cunqueiros poderá ter, com a recuperação das suas casas, uma mais-valia na revitalização da aldeia - uma preocupação do município que procurou garantir a sua qualidade regulamentando as recuperações e edificações (Regulamento n.º 59/2015 - Diário da República n.º 27/2015, Série II de 2015-02).

 DÁSPERA

Conta a lenda que existia na povoação uma pereira muito grande mas que, ano após ano, não dava fruto algum. Insatisfeito com a situação, o proprietário fez um ultimato à árvore, garantindo-lhe que caso não frutificasse a cortava. No ano seguinte a pereira deu apenas uma pera, batizando a aldeia de Dáspera. Fátima Santos, que partilhou esta história, não sabe dizer se a pereira foi poupada ou não! Nascida e criada naquela que é uma das aldeias localizadas mais a Norte do concelho, na extrema com os municípios de Oleiros e Castelo Branco, recorda outra história que ouvia dos seus pais: “quando eles eram pastores já ouviam dizer que, numa propriedade chamada Cabeço da Mó, havia uma talha com ouro que os mouros tinham lá deixado”. Uns senhores de Leiria, conhecendo a lenda, terão encontrado a talha e levado o ouro. “Diziam que ela já tinha a tampa rota das cabras tanto lhe passarem por cima. E depois ficou a marca da talha na terra. Esses mesmos senhores diziam que ainda existia mais ouro nessa mesma terra”.

Hoje em dia já não há vestígios da talha nem ninguém encontrou ouro nos campos que rodeiam a aldeia, aninhada em várias encostas de um vale soalheiro. No fundo, corre a ribeira, alimentada por uma nascente que antes dava de beber a toda a população. Quem visita a Dáspera apercebe-se logo da existência de um núcleo primitivo de casas de xisto, atravessado por ruelas muito estreitas. Hoje, todas as casas estão desabitadas e aguardam um futuro mais risonho que não passe pelo lento abandono a que estão votadas. Junto à ribeira, localizam-se a Rua das Adegas, assim chamada pela existência de vários edifícios com essa função. Junto à água, as condições para a conservação do vinho são mais favoráveis.

Amândio Pereira mora há 35 anos na Dáspera e recorda-se, quando aqui chegou, de ainda haver moradores nessas casas de xisto – no total, a aldeia tinha mais de 60 nessa altura. Aos poucos, foram sendo construídas habitações nos arrabaldes, com mais espaço e com melhores acessos – antes inexistentes. António Alves Lopes, com 84 anos, é o habitante mais velho da aldeia, e recorda-se do tempo em que homens com enxadões abriam a estrada até à Mó, acompanhando o sinuoso traçado da ribeira. Deolinda Lopes conta que quando entrou em trabalho de parto da filha mais velha teve de ir a pé até à aldeia vizinha para aí apanhar um táxi que a levou para o hospital de Castelo Branco, já que os carros não conseguiam passar até à Dáspera. Agora que os acessos são bons, lamenta-se que sejam poucas as pessoas a optar por morar na aldeia.

Fátima Campos recorda-se dos tempos sem esses acessos, em que ela e os da sua idade, que frequentavam a escola da Herdade, tinham de fazer o percurso a pé. Apesar dos tempos muito difíceis, é com um sorriso no rosto que recorda os momentos de alegre convívio, como na época da São João em que cobriam um pinheiro de capelas e colocavam na ponta uma boneca – construída por eles – com uma grande saia feita de papel às cores. Quando se deitava o fogo ao pinheiro, a saia ondulava, criando um efeito visual único. Atualmente são poucas as tradições que perduram e a Associação dos Amigos da Dáspera promove o tradicional encontro por altura da Páscoa. A instituição funciona agora na antiga escola primária, fechada por falta de alunos.

Em comum, todas as pessoas que deram o seu testemunho mostram-se muito felizes por morar na Dáspera, terra fértil em que toda a semente lançada à terra germina, com excelente exposição solar e um património construído que merece ser recuperado e ter uma segunda vida.

 EIRAS

As origens da aldeia de Eiras são anteriores a 1758, havendo já nessa altura 45 almas e 12 fogos registados, que habitavam o pequeno povoado de casas de xisto, encavalitadas umas nas outras numa das encostas da serra. Diziam os antigos que para proteger a população da presença de lobos, a aldeia tinha várias entradas que eram fechadas à noite, mantendo o núcleo habitacional a salvo. Atualmente ainda são visíveis vestígios desse aglomerado primitivo e de uma das entradas da povoação, ligada a um passadiço que atravessava o rés de chão de uma casa e dava acesso ao interior da aldeia.

O aumento do número de habitantes, que o Padre Manuel Alves Catharino afirma ser de 109 almas em 1910, obrigou à expansão da aldeia, dando origem a zonas como o Terreiro, o Outro Lado, o Barroco ou ainda o Fundo do Povo. Era no ponto mais alto da aldeia nessa época que os rapazes solteiros mantinham cuidado o mastro do catavento: um pinheiro alto era cortado, descascado e posto de pé, sendo colocado no topo um galo que indicava a direção do vento. Adelino Serafim recorda-se de cuidar do mastro antes de ir para a tropa: quando este apodrecia era cortado e o destino era a fogueira de Natal.

Nos primórdios das Eiras, o Bispo da Folga – uma das aldeias vizinhas – mandou edificar uma pequena capelinha, feita de laje, em honra de São Miguel. Pelo avançado estado de degradação do edifício, os vizinhos das Eiras decidiram construir eles mesmos uma Igreja, maior e com uma fundação mais sólida, no mesmo local. No interior, existem ainda imagens de São Rafael, São Gabriel e de Nossa Senhora de Fátima. Luísa Martins, nascida nas Eiras, e Maria Rosa Lourenço, que aqui casou há mais de 55 anos, recordam-se da Festa das Florinhas: todos os dias do mês de maio se rezava o terço à noite, momento em que três meninas percorriam o corredor central da igreja em três tempos, cantando uma música a Nossa Senhora. Terminavam oferecendo flores: “Na hora da nossa morte / vinde-nos oh Mãe valer / Lembrai então estas florinhas / Que hoje aqui viemos trazer”.

A Encomendação das Almas era outro dos rituais mantidos na aldeia, mas apenas no tempo da Quaresma. Os ditos proferidos na ocasião já se perderam no tempo, ficando apenas a ideia geral de que se rezava pelas almas perdidas, pelos aflitos, pelas almas do purgatório. Rosa Lourenço ainda hoje repete um dos versos que trazia do seu tempo de infância nas Corgas: “o meu pai dizia sempre um Pai-nosso pelas alminhas que andam sobre as águas do mar, que Nosso Senhor os traga a porto de salvamento”.

A redução do número de habitantes, que hoje não ultrapassa as 30 almas, explica em parte o desaparecimento destas tradições. Adelino Serafim afirma que no seu tempo existiam mais miúdos a estudar na escola do que hoje há moradores na aldeia. De tal forma que também o povo decidiu construir por sua iniciativa a escola da aldeia, depois de um pedido especial feito ao Ministro com a tutela da pasta pelo seu motorista, que casara nas Eiras. Autorização dada e escola construída, veio uma professora ensinar as crianças das Eiras, evitando que estas fizessem a viagem até à sede do concelho.

Muitas outras mudanças aconteceram na aldeia nas últimas décadas, uma das quais relacionada com o seu entorno: antigamente, ao redor da povoação só se viam campos de cereais que, pela exposição solar dos terrenos, existiam em abundância. “As pessoas tinham que semear os cereais pois era a base de sustento das famílias, e precisavam ter pão o ano inteiro”, adianta Luísa Martins. A existência de muitas eiras na aldeia, onde se malhava o trigo, o centeio e o milho, poderá estar na origem do seu nome. Hoje em dia, são os pinheiros que dominam a paisagem. No ponto mais elevado da aldeia ainda há vestígios de uma dessas eiras, mesmo ao lado do lavadouro comunitário, construído nos anos 50 e recentemente restaurado.

A aldeia de Ribeiro de Eiras dista poucos quilómetros das Eiras, de onde também herdou o nome. Atualmente, a aldeia encontra-se desabitada, mas os censos de 1911 indicam aí haver 3 fogos e 13 moradores.

 ESFREGA

Foi uma aparatosa queda numa das quelhas da povoação que mudou o nome da aldeia: os atuais moradores recordam-se de ouvir contar os antigos que tempos houve em se chamava Cerejeirinha ou Ribeira do Cerejal ou Vale de Cerejeira. Em comum a alusão às cerejas que ainda existem nesta localidade e que nesta altura do ano se tingem de pequenos e saborosos pontos vermelhos. Depois do infortúnio do visitante, que aparentemente tinha algum poder, foi proferida a sentença: a partir de hoje chama-se Esfrega! Ou talvez Esfrégão, aldeia que o Padre Manuel Alves Catharino identifica na sua monografia como tendo 22 fogos em 1911 e um total de 88 habitantes. Certo é que a grafia que prevaleceu é Esfrega.

Atualmente, a aldeia – localizada a norte do concelho de Proença-a-Nova e pertencente à União de Freguesias de Sobreira Formosa e Alvito da Beira – tem pouco menos de um terço do número de habitantes de há um século. Mas as casas aumentaram consideravelmente: o núcleo original da povoação, em que predominam as casas de xisto, foi sendo ampliado com a construção de novas habitações na encosta da serra, numa zona muito soalheira e protegida, com água em abundância. Ao fim de semana e nas férias grandes, o número de habitantes aumenta consideravelmente.

No vale da povoação, para além da ribeira que nasce nas Fórneas e corre até ao Alvito da Beira, ficam as terras de cultivo e as oliveiras que produzem uma das riquezas desta zona: o azeite. Manuel Ribeiro Cardoso, que aqui nasceu em 1946, revela que a outra grande fonte de rendimento era a resina, hoje inexistente. E é fácil perceber o porquê da importância desta atividade: ao redor do Esfrega, nos montes que evolvem a aldeia, protegendo-a, só se veem pinheiros. Ao mesmo tempo que possibilitaram rendimentos, foram também a causa de uma das piores experiências por que estes habitantes passaram: nos incêndios que assolaram a região em 2003, a aldeia de Esfrega foi totalmente rodeada por chamas, numa visão dantesca que se manteve durante muito tempo, com o mar verde a ser substituído por um manto cinza escuro. Felizmente, só houve danos materiais a lamentar, tendo ardido uma casa.

Hoje o verde volta a dominar esta paisagem que convida à contemplação. No ponto mais alto da aldeia fica a capela, em honra de Nossa Senhora de Fátima, mas cujo edifício, até há duas décadas, acolhia a escola primária e os muitos alunos que aqui aprendiam a ler e escrever. Deixando de haver ensino primário na aldeia, já que as crianças foram sendo encaminhadas para escolas das povoações vizinhas com mais alunos, a população decidiu reconverter o uso do edifício, adaptando-o a capela.

Até há poucos anos o Esfrega assinalava a sua festa anual no Domingo de Páscoa, juntando família e amigos em saudável convívio. São também recordadas outras tradições e festas que deixaram de ser celebradas, como o Carnaval que era vivido por todos com muito entusiasmo, ou a Encomendação das Almas, que se fazia na varanda de uma das casas da aldeia pelas mulheres na altura da Quaresma. Maria do Céu, outra moradora do Esfrega, lembra-se ainda das fogueiras de São João, comemoradas no terreiro com o mesmo nome. São estas as únicas fogueiras que os habitantes querem ver novamente por esta zona, sinal da recuperação de tradições de outros tempos, havendo quem as queira saltar.

 ESPINHO GRANDE e ESPINHO PEQUENO

A história conta que o Espinho Pequeno é filho do Espinho Grande, sendo que a maioria dos moradores das duas aldeias, separadas uma da outra alguns quilómetros, tinham e ainda têm laços de parentesco. As casas de xisto do Espinho Grande, núcleo original da povoação, foram construídas encavalitadas umas nas outras, com cancelas a proteger tantos os habitantes como os animais domésticos de possíveis ameaças externas, dentro do espírito de entreajuda comunitária.

Como a maioria dos moradores possuía terras de cultivo afastadas do núcleo habitacional, decidiram construir casas mais próximas do local de onde retiravam os alimentos: e assim nasce o Espinho Pequeno. Segundo a monografia do padre Manuel Alves Catharino, em 1911 o Espinho Grande possuía 22 fogos e 141 almas e o Pequeno 7 fogos e 33 habitantes. Hoje em dia, o Espinho Pequeno é apenas de nome porque tem mais habitantes do que o Grande.

Armando Tavares, um dos moradores de Espinho Pequeno com raízes em Espinho Grande, considera que os acessos viários entretanto construídos acabaram por favorecer esta povoação, ficando “mais fácil de servir” com o IC8 e a EN241 mesmo à porta, tornando-o de certa forma mais atrativo. E recorda tradições antigas que mostram a união dos dois Espinhos, nomeadamente aquela que lidava com a morte: quando morria alguém do Espinho Grande, eram a Irmandade do Espinho Pequeno que retirava o defunto de sua casa para o esquife, que era então transportado à força de braços para o cemitério de Proença-a-Nova. E o inverso também sucedia. À saída do Espinho Grande ainda está a cruz que assinalava a primeira paragem do cortejo fúnebre, para o defunto se despedir da aldeia.

Rivalidade entre os Espinhos só nas fogueiras de São João. Armando Tavares conta que era tradição queimar um grande pinheiro em cada aldeia e que ganhava quem mantinha a fogueira acesa mais tempo. Num desses festejos, o Espinho Grande acendeu a sua fogueira e o Pequeno seguiu o exemplo, sem saber que do outro lado ardia uma fogueira menor. A artimanha foi descoberta quando atearam o pinheiro grande, que ardeu pela noite dentro. Atualmente, esta tradição morreu, até pelo risco de incêndio. Mantém-se a memória das capelas de S. João, que eram aventadas para cima dos telhados, por causa das trovoadas, ou orvalhadas para protegerem das pragas, as que atacavam os campos de cultivo e também as pessoas. Diz a sabedoria popular que, em anos secos, as capelas florescem antes do S. João.

Das histórias que permanecem na memória dos habitantes dos Espinhos, está a que deu nome a uma das terras ao redor de Espinho Grande: Fonte Santa. Foi num 12 de Fevereiro, de ano desconhecido, que uma menina, chamada Marta, tomava conta do gado nessa zona da serra quando foi atacada por um homem. As versões dividem-se neste ponto e não se sabe se foi ela quem se atirou para um poço para não ser abusada ou se o atacante a matou, deitando o corpo para dentro de água. A verdade é que a menina ficou a ser conhecida como a Santa do Espinho, tendo sido rezadas missas em sua memória até há relativamente pouco tempo.

Mais sorte teve um soldado francês que se perdeu do pelotão durante as invasões francesas que passaram pelo concelho de Proença-a-Nova e, em particular, pelos Espinhos. Cientes da presença próxima do exército invasor, que pilhava tudo por onde passava, os habitantes do Espinho Grande levaram toda a comida que tinham e animais vivos para uma zona de difícil acesso, perto da ribeira da Sarzedinha, na fronteira com Sobreira Formosa, a que chamavam Vale das Azinheiras. O tal soldado perdido acabou por encontrar o esconderijo mas estando na mão dos invadidos pediu clemência pela vida. Os moradores do Espinho decidiram então tapar-lhe os olhos e levá-lo de volta para junto do pelotão. Aos companheiros dizia que viu muita comida mas não sabia como chegar até lá.

Muitas outras histórias podiam ser contadas, a maior parte delas perdidas para sempre. Resta tentar reunir os vestígios que permanecem, como no caso das três antas situadas no Espinho Pequeno, para reconstruir a ocupação do território e quem sabe explicar porque é que esta zona se chama de Espinho.

 ESTEVÊS

Adeus casal do Estevês

No meio tens um girassol                  

Há lá rapazes bonitos

E raparigas como o sol   

Adeus casal do Estevês

Lá ao cimo, ao fundo não

Onde eu tenho os meus amores

Ninguém me diga que não

“Naquele tempo eram saias e mais saias”: é desta forma que João Sequeira, 84 anos, nascido e criado no Estevês, chama às cantigas que Deolinda Cardoso, também de 84 anos, recuperou do baú da memória para a Agenda Cultural. São apenas alguns exemplos das muitas que conhecia, aprendidas junto dos mais velhos ou inventadas nos momentos em que se cantava ao desafio: «são saias amor são saias | são saias que andam na moda | acautela-te amor não caias | nas saias de pouca roda». É com um sorriso no rosto que recorda os bailes feitos a seguir à desfolhada do milho, numa época em que a eira era um ponto central da vivência da aldeia, havendo mesmo quem dormisse nas medas de palha. A população do Estevês dedicava-se essencialmente à agricultura e pastorícia, com os campos cultivados a rodearem a aldeia, havendo igualmente muitas estevas e poucos pinheiros. É essa abundância de estevas que os mais antigos supõem estar na origem do nome Estevês.

O Padre Manuel Alves Catharino, uma referência no que ao concelho de Proença-a-Nova diz respeito, adianta que já em 1758 havia 12 fogos em Estevês, número que subiu para os 20 nos censos de 1911, tendo mais de uma centena de habitantes (106). Nascidos na década de 30 do século passado, os nossos entrevistados recordam-se da “enfiadura” de carroças na rua principal, um mar de gente que há muito já não se vê no Estevês, agora reduzido a pouco mais de três dezenas de moradores. Nessa época, a aldeia era muito diferente e enumeram as diferenças mais visíveis: as casas em pedra formavam um pequeno amontado no cimo do Estevês e nas pequenas ruas que separavam as habitações não passava uma carroça sequer. Mais tarde, fruto do aumento da população, começaram não só a surgir moradias fora do núcleo original como também do outro lado da ribeira, obrigando a uma nova reorganização espacial, com a construção de uma ponte e de um caminho mais largo feito à custa da demolição de algumas casas.

As Maias são a principal festa da aldeia, numa celebração que se realizava no primeiro dia do mês de maio (atualmente no dia 2) e se estendia às povoações vizinhas de Vale do Clérigo, Pedra do Altar, Vale Videiros, Peral, Vale da Mua e Junceira. A festividade é também dedicada a S. Tiago Menor que foi orago da freguesia do Peral, em tempos idos conhecida precisamente como freguesia de S. Tiago. A animação era igualmente obrigatória por altura do S. João quando se acendiam as fogueiras – no plural porque a juventude do Estevês chegou a alimentar três fogueiras numa rivalidade com os vizinhos da Pedra do Altar – e a boa disposição prolongava-se pela noite dentro com o bailarico e cantoria.

 FERRARIA e LAMEIRA

É na encosta da Serra das Talhadas que está virada para o concelho e para a cidade de Castelo Branco que se localizam as aldeias de Ferraria e Lameira, separadas uma da outra por poucos quilómetros. Rodeadas de um lado pela presença protetora da serra, do outro o olhar perde-se num miradouro natural, chegando-se a ver a Serra da Estrela, o Castelo do Marvão e Espanha em dias de céu limpo. De costas voltadas para o restante concelho, poder-se-ia pensar que os seus habitantes teriam pouca afinidade com os vizinhos do outro lado da serra mas nada mais longe da verdade: Eduardo Ribeiro, nascido e criado na Ferraria, fala das ligações com os Montes da Senhora, a cuja freguesia pertencem, mas principalmente à Catraia, onde ele e os seus vizinhos frequentaram a Escola Primária, ou a Proença-a-Nova, onde se continuavam os estudos no Colégio Diocesano.

Para aprender as primeiras letras, recorda-se de fazer a pé o caminho que separava as duas aldeias, mas no caso dos alunos da Ferraria e Lameira o percurso até à Catraia Cimeira era relativamente pequeno quando comparado com o feito pelos colegas de Casal da Ribeira que andavam mais de cinco quilómetros, muitos deles descalços por não haver dinheiro para comprar sapatos. A maioria da população trabalhava na agricultura, conquistando terreno fértil à serra para aí ter oliveiras, cerejeiras, limoeiros, vinhas e campos de cultivo. A falta de uma fonte de água permanente fez com que a população da Ferraria também tivesse as suas hortas na Lameira que, como o próprio nome indica, tinha água em abundância. Talvez por esse motivo, alguns habitantes da Ferraria aí tivessem iniciado um núcleo habitacional, até pelos laços familiares existentes entre todos. Também era aí que se localizava a fonte onde toda a Ferraria se abastecia de água potável: este era um dos motivos que fomentava o saudável convívio entre todos no percurso até à fonte e no regresso à aldeia.

Entre os anos 1911 e 1930, a Ferraria quase que duplicou o número de fogos, como atestam os números divulgados pelo padre Manuel Alves Catharino na sua monografia: de 18 passou a 38 fogos no espaço de 19 anos, tendo o número de habitantes ultrapassado a centena. Já na Lameira só existem dados relativos a 1930, apontando para dois fogos. Atualmente, a Ferraria tem cerca de duas dezenas de habitantes enquanto que a vizinha Lameira está em risco de ficar sem os seus últimos habitantes. Eduardo Ribeiro aponta para a ironia da vida: chegou a viver numa Ferraria que não tinha luz elétrica, água canalizada ou estradas em condições. E agora que existem todas estas “regalias”, já não há tanta gente como noutras alturas para usufruir delas. Na Ferraria de hoje já moram pessoas que não têm laços familiares com a aldeia, caso de um casal de ingleses que comprou uma habitação e onde passa férias.

Faltando uma população jovem, em risco estão as tradições de outro tempo que já se deixaram de fazer, como o madeiro de Natal, que era colocado no largo do núcleo de xisto da Ferraria, os festejos do São João, em que as fogueiras se acendiam na encosta da serra, sem haver qualquer risco de incêndio, ou ainda as desensamarras, quando todos se juntavam para desfolhar o milho. Histórias de lobisomens e de bruxas circulavam da boca dos mais velhos para os ouvidos dos mais novos, povoando os sonhos dos mais assustadiços. Não era o caso de Eduardo Ribeiro que se recorda de ir levar a ceia ao seu pai quando este fazia noitadas a trabalhar e tinha de percorrer um caminho na serra à noite, sozinho e sem medo de encontrar uma destas figuras, para espanto do progenitor. Com ou sem bruxas e lobisomens, a Ferraria e a Lameira de hoje vão continuar aninhadas na encosta da Serra das Talhadas, esperando por novos povoadores que se apaixonem pelas vistas desafogadas e pela simpatia das suas gentes.

 FIGUEIRA

Um passeio por entre as casas de xisto do núcleo principal da aldeia de Figueira rapidamente transporta o visitante para uma outra época: aquela em que todas as casas – intercaladas com os currais dos animais – estavam habitadas e ao longo das ruas estreitas facilmente se tropeçava em animais domésticos. O forno comunitário era o coração da aldeia, com as histórias a serem contadas pela noite dentro enquanto o forno cozia o pão. A essa hora já as cancelas protegiam a aldeia e os seus habitantes de possíveis ataques de lobos que vigiavam ao longe, esperando por uma oportunidade de caçar o jantar.

Durante o dia, a população ocupava-se essencialmente dos férteis campos agrícolas ao redor da povoação, com destaque para os olivais, as vinhas, os cereais que garantiam o pão para todo o ano, a resina e a agricultura de subsistência. Os moinhos e os lagares existentes ao longo da ribeira da Figueira atestam a importância destas atividades, sendo necessário sortear a ordem pelo que os interessados utilizavam estes equipamentos, incluindo a eira na altura das malhas. Para reunir o povo, fazia-se soar o búzio que suprimia a ausência de um sino: o ponto de encontro era debaixo de uma figueira – uma das muitas que abundam na povoação e que pode explicar a origem do seu nome.

Hoje em dia ainda há vários búzios na aldeia, mas já não tocam com o objetivo de reunir o povo até porque se nos censos de 1911 aí residiam 190 pessoas, atualmente são pouco mais de duas dezenas as que fazem da Figueira a sua morada permanente. E entre eles há quem se recorde desse som característico. Maria da Ascensão Vaz conta que na altura da apanha da azeitona vinham ranchos de pessoas de fora da aldeia para trabalhar nessa atividade. E às seis da manhã soava o búzio para dar sinal do início do dia de trabalho, com o grupo a fazer a viagem a pé até à vizinha aldeia dos Maxiais onde se localizam os olivais. No regresso, era o rancho que tocava o búzio, sinal de que estavam próximos e de que o jantar podia começar a ser servido. Justina Dias Louro recorda-se que se aproveitava até a azeitona que caía ao chão: a chamada azeitona da caroça, a primeira a ser moída. Das tradições antigas, destaca o Carnaval, as fogueiras de Natal e de São João, que juntavam a população em animados convívios e bailaricos. Lúcia Farinha recorda-se de neste mês de novembro se assinalar o mês das almas e de se rezar diariamente o terço na capela privada que existia - e ainda existe - numa das residências da aldeia. O mesmo ritual repetia-se em maio, no mês de Maria. Já na altura da Quaresma a tradição ditava que se encomendassem as almas, aqui um ritual realizado por homens.

É em busca deste sentir antigo e destas histórias que milhares de turistas têm visitado a Figueira, a única localidade do concelho que faz parte da Rota das Aldeias de Xisto, composta atualmente por 27 aldeias da região centro. Já não encontram a azáfama de outros tempos, apenas a sua memória que permanece inscrita nas pedras de xisto e na tradição oral dos anciãos. Para além do núcleo de xisto, está à disposição de quem goste de andar um percurso pedestre marcado com 6,3 quilómetros, que passa pelo lagar - com as velhas tulhas e a levada que fazia girar a mó, pela ponte e pela ribeira com margens estruturadas por largos muros de pedra de xisto. À entrada da Figueira há, desde 2014, um mural que retrata alguns dos elementos típicos da aldeia, realizado no âmbito de uma residência artística de alunos da Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa: apenas mais um elemento de atração da Figueira a provar que as pedras podem servir de inspiração a quem se quiser deixar cativar.

 FÓRNEAS

Percorrer o caminho entre a Estrada Nacional 351 e a localidade de Fórneas é ter acesso privilegiado a um miradouro natural que mostra lá longe a cidade de Castelo Branco e, mais para sul, as diversas cadeias montanhosas que aplanarão até à superfície do Alto Alentejo. É por este serpenteado no meio de um mar verde que se chega às Fórneas, uma aldeia que se apresenta soalheira numa das encostas da serra. A igreja, erigida em louvor do Coração Imaculada de Maria, destaca-se da paisagem em que predominam as antigas e típicas casas de xisto e as mais recentes, construídas em alvenaria branca.

As memórias recolhidas apontam para a ausência de vias de comunicação há algumas décadas, sendo o isolamento uma das características que mais moldou a população, pelas dificuldades acrescidas que representava uma ida aos aglomerados populacionais mais próximos onde estavam disponíveis os serviços e o comércio, caso da Sobreira Formosa – sede da Freguesia, e de Proença-a-Nova – sede de concelho. Joaquina Ribeiro, de 84 anos, recorda as viagens a pé até à Sobreira Formosa, feitas durante a noite com uma candeia de azeite a alumiar o caminho. Os únicos carros que circulavam eram os puxados por bois, em caminhos de terra que, quando chovia, se enlameavam e onde se colocava mato para permitir a circulação.

Nesses tempos, a localidade fervilhava de gente. Na sua monografia, o padre Manuel Alves Catharino apontava a existência de 52 fogos e 216 almas em 1911 e, em 1930, o número de fogos mantém-se, não sendo discriminado o número de habitantes. Tanto Joaquina Ribeiro como João Ribeiro Louro, de 73 anos, referem a existência de duas escolas na sua infância: uma onde estudavam as quatro classes, com turnos da parte da manhã e da parte da tarde - e outra onde funcionava a Telescola, sinal da existência de muita juventude. “A maior parte das famílias tinham sete e oito filhos e nós chegámos a ser nove”, adianta Joaquina Ribeiro, facto que explica o número de habitantes. Todos tinham, desde muito cedo, de ajudar nos trabalhos domésticos, mas também havia tempo para os bailaricos.

Na memória ficaram as fogueiras de São João e as de natal, feitas ambas na ponte sobre a Ribeira das Fórneas – que nasce nas Fórneas Cimeiras. As de São João eram replicadas pela vereda acima e a de natal mantinha-se acesa até aos Reis, numa celebração contínua. Em casa, era à lareira e na véspera de natal que se faziam as filhós e no dia seguinte se comia o bacalhau com as couves ou uma galinha. “Era o que havia”, sintetiza Maria do Rosário Louro que, na ausência de uma igreja nas Fórneas na sua infância, ia à missa de natal na vizinha Isna de Oleiros, sendo a viagem de ida e volta feita a pé. Não havia presentes para ninguém: “não havia dinheiro”, justifica Joaquina Ribeiro.

A encomendação das almas e as Endoenças eram também tradições recorrentes no povoado, feitas a partir de uma janela, mas já não há memória do seu conteúdo. Da mesma forma, a origem do nome da localidade não é conhecida, mas M. Assunção Vilhena, na sua obra "Sobreira Formosa - Passado e Presente”, aponta uma possibilidade: “Como é uma povoação construída numa escarpa rochosa e íngreme, poderá o seu topónimo estar relacionado com fornos naturais onde, em tempos remotos, se cozeria o pão, se coraria o linho, se preparariam outros alimentos. Também aqui temos de ficar pelas hipóteses”. Indo ao dicionário, a palavra fornear está relacionada com a atividade realizada pelo forneiro – aquele que é dono ou encarregado de um forno, pelo que é uma possibilidade forte.

Apesar da sua envolvente ser montanhosa, a população soube tirar partido do terreno, construindo socalcos para plantar oliveiras e aproveitando os terrenos férteis no leito da ribeira das Fórneas e do Altinho para as hortas. João Ribeiro Louro, que há 60 anos mora em Lisboa, vem à aldeia das suas raízes para apanhar a azeitona e as uvas, no fundo para colher o que a terra ainda dá. Recorda-se da existência, noutros tempos, de muitos castanheiros que acabaram por morrer. Hoje o que predomina na paisagem são os pinheiros, ainda jovens, depois do incêndio que devastou esta zona do concelho há mais de uma década. Mais recentemente foi a força da água a causar prejuízos mas, tal como noutras épocas, a força dos seus habitantes é o que mantém viva as Fórneas.

 FOZ DO PEREIRO

O aglomerado de casas que compõem a Foz do Pereiro nasceu numa pequena elevação ao redor da qual correm o ribeiro do Pereiro e a ribeira da Sarzedinha, sendo que o primeiro desagua na segunda, batizando a aldeia. No vale, os campos férteis atraíram os primeiros habitantes, oriundos da vila de Proença-a-Nova mas também de outras localidades vizinhas. Em 1758, eram três as famílias – num total de 16 habitantes – que tinham na Foz do Pereiro a sua habitação permanente, número que aumentou para os cinco fogos e 31 almas em 1911, de acordo com os números divulgados pelo Padre Manuel Alves Catharino na sua monografia sobre o concelho de Proença-a-Nova. Oliveiras, vinhas, milho e pinheiros abundavam, dando origem a produtos tradicionais de grande valor e sempre presentes na mesa dos habitantes, como o azeite, o vinho e a broa, enquanto que o rendimento possibilitado pela extração da resina permitia comprar os restantes produtos.

Para além da abundância de água possibilitada pelos dois ribeiros, havia ainda um regadio tradicional com a água a ser trazida do Vale D’Urso para regar os terrenos nas duas margens da ribeira. Paulo Marques, um dos atuais moradores da Foz do Pereiro, destaca o cultivo do milho que exigia muita atenção das pessoas durante o verão e início do outono, quando era apanhado, desencamisado e transformado em farinha para a confeção da típica broa de milho no forno comunitário, hoje em dia em avançado estado de degradação.

Os moinhos eram peças fundamentais neste processo, existindo vários ao longo da ribeira, propriedade de habitantes das Moitas, Vale das Balsas ou Casais. “Traziam o milho e o trigo nos burros e ficavam no moinho noites e dias inteiras, aguardando que moessem os cereais. Faziam fogueira e brasas dentro do moinho e aí comiam e dormiam”, explica Paulo Marques. Atualmente, a maioria desses moinhos está em ruínas, tendo sido recuperado um recentemente – o da Várzea Redonda - e só não trabalha mais pela ausência de cereal para moer. Maria dos Anjos Folga, de 79 anos, é uma das resistentes que ainda semeia o milho, dando a garantia de que enquanto puder vai continuar a cultivar o milho rei e a moê-lo. “Os habitantes da Foz do Pereiro eram conhecidos como quebra cangas (canga era apetrecho usado para atrelar animais à carroça), que significa que passavam o tempo a trabalhar, noite e dia, a cultivar milho e outros cereais como trigo e centeio. Havia uma lengalenga que visava todas as povoações ao longo da ribeira: pedintes na Sarzedinha, centeeiros no Braçal, fossa furdas na Amoreira, arrogantes no Vale D’Urso, quebra cangas na Foz do Pereiro e mesas altas - pouco pão no Casal de Ordem”, recorda Paulo Marques, ilustrando a capacidade de trabalho dos moradores.

Maria das Neves, de 93 anos, casou na Foz do Pereiro, onde chegou em 1951 vinda dos Casais: desse tempo recorda precisamente a grande azáfama no campo e a muita riqueza extraída da terra, que alimentava um grande número de habitantes, a par da inexistência de caminhos de carros. Foram os moradores que tomaram a si a responsabilidade de construir a mina de água, no exterior da aldeia, tendo a Câmara feito o encanamento até à fonte existente numa das ruas da aldeia e que era bastante procurada pela fama que tinha. Desde que a qualidade deixou de ser controlada deixou de ser procurada. Os incêndios que passaram pela região contribuíram para um certo declínio da aldeia, com a saída de muitos moradores, e da sua próspera economia. Hoje em dia os habitantes são apenas 14, com o sinal positivo do nascimento recente de um bebé, o que não acontecia há 32 anos.

A falta de população tem contribuído para o fim de algumas tradições, como o madeiro de natal ou o pinheiro de São João. Maria das Neves recorda-se ainda de um outro costume: a fogueira de Santo António que reunia as mulheres e crianças na eira da aldeia onde se fazia e saltava uma fogueira de rosmaninhos. Já os homens ainda hoje mantêm a tradição que engloba as aldeias de Vale de Urso, Casalinho e Foz do Pereiro e que consiste em comer sardinhas no Dia de Santos, sendo que quem fornece o repasto vai rodando de ano para ano. A iniciativa tem as suas raízes nos encontros que os mais antigos realizavam para se discutir que obras públicas se poderiam desenvolver sem recorrer ao poder local.

 FRÓIA

Com nascente no Alto da Froia e foz no Rio Ocreza em Sobral Fernando, a Ribeira da Fróia cruza várias povoações na sua travessia no concelho de Proença-a-Nova mas apenas uma delas ficou com o mesmo nome da ribeira: localizada a pouco mais de dois quilómetros de Sobreira Formosa, a aldeia de Fróia apresenta-se como um corredor de casas que ladeia a atual EN 233, antiga Estrada Real que foi mandada construir no reinado de D. Maria I e que ligava Castelo Branco a Proença-a-Nova. Em meados do século XIX, para permitir o avanço da Estrada Real, são construídas diversas pontes com uma estrutura similar: a do Alvito, Fróia, Pucariço, Vale D’Urso, Vale Sarrão e Mesão Frio. O Padre Manuel Alves Catharino, na sua listagem de povoações pertencentes à freguesia de Sobreira Formosa, apresenta a aldeia de Ponte da Fróia que, nos censos de 1911, tinha cinco fogos e 27 almas. O número de fogos aumentou para os sete em 1930, mas não se indicam quantas pessoas aí habitavam.

Do cimo da ponte, e olhando para nascente, são bem visíveis as ruínas do núcleo original da povoação de Fróia que, nesse local concreto, se chamava de Moinho provavelmente devido à existência de uma infraestrutura destas no leito da ribeira. É também provável que a construção da ponte, que se aponta para a segunda metade do século XIX, tenha contribuído para a decisão dos habitantes do Moinho de edificarem novas casas próximo da ponte de três arcos circulares. Essa povoação original seguia o exemplo de tantas outras, com casas construídas em xisto e encavalitadas para maior proteção dos seus moradores.

Das histórias antigas que perduram na memória de alguns habitantes, hoje meia dúzia, recuperou-se a do soldado que, durante as invasões francesas e na travessia do concelho, se terá perdido do exército e escondido numa das casas de pedra do Moinho. Com o cair da noite, tendo-se silenciado a aldeia, o soldado decide que está na hora de fugir do seu esconderijo mas, como estava muito escuro, acabou por bater com a cabeça numa trave ou parede, acabando por falecer. António Louro não sabe até que ponto será verdade o conto, mas recorda-se de o ouvir na sua infância passada na Fróia. Os pais, residentes em Pedras Brancas, decidiram mudar-se para esta aldeia quando ele tinha dois anos pois aí instalaram a oficina de onde saíam carroças para todo o concelho e além. Manuel Ribeiro Louro, hoje com 88 anos, justifica a mudança com a maior visibilidade que a sua forja tinha, mesmo ao lado da Estrada Nacional.

Das tradições que veio encontrar na Fróia recorda-se da fogueira de Natal e das capelas de São João. A dedicação à oficina e à agricultura era muita e não deixava espaço para muitas conversas. Maria do Carmo, de 67 anos, recorda-se por sua vez das romarias que os moradores das localidades vizinhas faziam até à Fróia para lavar roupa, havendo dias em que ao redor da aldeia só se via roupa na cascalheira a secar ou a corar ao sol. As crianças acompanhavam os adultos e, muito antes da existência da Praia Fluvial da Fróia, deliciavam-se nas águas cristalinas da ribeira. Apenas nos anos 80 do século passado é que foi construído o paredão na ribeira, resultando na criação de uma das mais conhecidas praias fluviais da região, galardoada com o selo Qualidade de Ouro pela Quercus. Maria do Carmo tem as suas raízes numa pequena povoação que se vê da Ponte da Fróia: o Sabugueiro que não vem sequer listada pelo Padre Manuel Alves Catharino na sua monografia sobre o concelho de Proença-a-Nova. No tempo do Moinho, existia aí uma casa e foram os descendentes dessa família que ampliaram a povoação, construindo outras habitações. No seu caso, fez a escola primária nos Montes da Senhora, junto com outros jovens da aldeia, nessa altura em muito maior número, mas pelo simples facto de todos terem aí ligações familiares. E faziam o caminho a pé, pelo meio dos pinhais. Nos restantes casos, as crianças deslocavam-se à Sobreira Formosa.

Atualmente, a Fróia debate-se com os mesmos problemas de outras localidades: a inexistência de crianças e jovens que deem continuidade à aldeia. Fica a garantia de que o seu nome será sempre associado à ribeira que, neste inverno, corre abundante desde o Alto da Fróia até ao Rio Ocreza.

 GALISTEU CIMEIRO e FUNDEIRO

Em algumas noites da Quaresma, as mulheres dos Galisteus juntam-se numa das ruas da aldeia e rezam pelas benditas almas que estão em agonia, pelas que estão em pecado mortal e por aquelas que não têm quem lhes faça bem, para que Deus não as leve sem ser em graça ou para que Deus lhes dê uma hora de arrependimento. Esta é uma das localidades do concelho em que o ritual da Encomendação das Almas ainda se mantém, apesar das diferenças para a prática de antigamente: antes as almas eram encomendadas durante toda a Quaresma a partir de um ponto alto de cada um dos Galisteus e as mulheres de um dos lados da ribeira respondiam às outras, alternando os cânticos.

Esta forma de comunicar repetia-se em outras ocasiões. Izélia Cardoso, de 87 anos, recorda-se de na sua juventude ouvir os jovens de ambos os lados cantar uma quadra provocatória, que era adaptada consoante quem começava: «Ó malta do Galisteu Cimeiro | Venham cá para o Fundeiro | Que os do Fundeiro já cá estão | Para vos dar um bofetão». Não era uma questão de rivalidade, que nunca existiu, antes a prova da boa disposição entre os dois Galisteus que ainda hoje se mantém. A divisão entre o Cimeiro e o Fundeiro apenas se deu devido à geografia, com a ribeira da Freixada a separar as habitações dos Galisteus.

Ao longo do curso de água, que nasce na Corujeira e desagua na ribeira da Pracana na zona de São Pedro do Esteval, foram construídos diversos moinhos de água, utilizados intensamente na moagem dos cereais. Carlos Alves, com quase 86 anos, explica que há algumas décadas, nas paisagens em redor da localidade predominavam os campos com cereais que, depois de ceifados e levados para a eira (que ainda existe com as suas lajes de xisto) eram malhados e só depois moídos. O tempo de utilização do moinho era separado em quinhões (sendo que um quinhão correspondia a um dia e uma noite), que eram passados em herança aos descendentes. Hoje, a maior parte destas infraestruturas está em declínio e a União de Freguesias de Proença-a-Nova e Peral prepara-se para recuperar um dos moinhos da ribeira, localizado muito perto de um local com maior profundidade, onde Carlos Alves e os miúdos da sua idade iam nadar.

A existência de muitas crianças é destacada tanto por Izélia Cardoso como por Carlos Alves. E se hoje os habitantes dos dois Galisteus não chegam às duas dúzias, em 1758 havia por aqui um total de 17 fogos e 78 almas, números que subiram para os 30 fogos e 208 habitantes em 1911, segundo o Padre Manuel Alves Catharino. As crianças dos Galisteus frequentavam a escola primária na sede do concelho e tinham de fazer a pé os oito quilómetros da viagem (ida e volta) até Proença-a-Nova, fizesse frio ou calor. Memórias há de miúdos mais pobres que nem sapatos tinham para calçar. Tempos difíceis que eram minimizados pelos momentos de encontro e reunião entre todos.

Carlos Alves conta que no caminho de regresso da escola, ele e os amigos iam trazendo toda a lenha que encontravam – não tão abundante como nos dias de hoje – e a levavam para um ponto alto da aldeia para no dia de São João acender uma grande fogueira. Numa destas festas, encontraram um balão de São João que tinha sido arrastado pelo vento até ao Galisteu, de proveniência incerta. Remendaram-no e lançaram-no novamente aceso, para encanto de todos. “Ficámos ali até o deixarmos de ver” recorda Carlos Alves. Ainda no São João, o pai de Carlos Alves contava que era tradição ir à fonte encher o regador e molhar os animais domésticos pois dizia-se que a água estava benta. Já no Santo António, o costume era fazer pequenas fogueiras de capelas à porta de cada casa. Fernanda Saramago ainda se recorda destas fogueiras, mas da sua infância destaca os momentos passados a rasgar sarafolhos de milho – os mais macios – para colocar como enchimento de almofadas e colchão das moças casadoiras. Em troca, recebiam um refresco feito com limão, açúcar e um pouco de vinho.

“Faz saudade esse tempo, eram todos mais alegres do que agora apesar da pobreza”, sintetiza Izélia Cardoso. As cantorias eram frequentes quando se faziam os trabalhos no campo. E na altura da ceifa, a maior parte dos homens rumava ao sul para participar nas ceifas nas planícies alentejanas, ficando as mulheres com a responsabilidade de cuidar da casa, das hortas e dos filhos. “Ó minha mãe quem me dera, Ó meu pai quem me daria, um lugarinho no céu, junto à Virgem Maria”.

A Associação local promove o encontro para toda a população no último fim de semana de julho, um momento de convívio para fortalecer laços, recordar histórias de outros tempos e manter viva a memória das duas aldeias.

 GIESTEIRAS CIMEIRAS e FUNDEIRAS

Na terça-feira a seguir à Páscoa, era prática corrente as casas das aldeias das Giesteiras – Cimeiras e Fundeiras – receberem a visita de um sacerdote transportando a Cruz que era dada a beijar. Era um dia de festa, em que todos engalanavam as entradas das suas casas e se juntavam, mais tarde, num baile para celebrar a ocasião e o fim dos rigores da Quaresma. A tradição terminou há já algumas décadas e a festa das duas aldeias foi mudada para o mês de junho. Atualmente é a Associação Cultural e Recreativa dos Amigos das Giesteiras a responsável por juntar os habitantes mas também as pessoas com ligação familiar, ou afetiva, num almoço convívio anual que se prolonga pelo restante dia. A Casa Social, situada em frente ao edifício da antiga Escola Primária, é um dos principais pontos de encontro das aldeias, estando aberta todos os dias.

Do aglomerado de xisto que esteve na génese das Giesteiras Cimeiras, hoje prevalecem apenas casas abandonadas e ruínas que deixam antever aquilo que foi a praça central, onde os habitantes se juntavam nos tempos livres para um dedo de conversa ou onde as crianças brincavam. As estatísticas de 1911 indicam que moravam nesta localidade 50 famílias e 216 habitantes: é fácil perceber que o núcleo da aldeia era insuficiente para as acolher a todas, obrigando à construção de novas habitações dispersas pelo planalto, privilegiando os terrenos agrícolas. Hoje, quem passa na estrada que liga a Sobreira Formosa ao Sobral Fernando e passa pelas Giesteiras Cimeiras dificilmente se apercebe da verdadeira dimensão da aldeia, onde vivem, de forma permanente, cerca de 70 pessoas. Maria do Carmo Esteves, de 65 anos, salienta o facto de terem muitos habitantes jovens. Também nas Giesteiras Fundeiras se vê ainda o núcleo de xisto original, onde moravam, em 1911, 18 famílias, num total de 89 almas. A localização privilegiada da aldeia presenteia os seus moradores com uma vista soberba pelo território, com uma mancha verde a perder de vista.

Maria do Carmo Esteves relembra que antigamente as famílias das Giesteiras Fundeiras tinham maior poder económico e davam emprego às Giesteiras Cimeiras – principalmente nas atividades agrícolas, com destaque para a resina e para o olival. Os terrenos férteis foram ainda chamariz para que muitos investidores de outras freguesias, nomeadamente da Ribeira da Isna, concelho de Oleiros, aqui comprassem propriedades: “Na Isna o clima é bastante mais frio e aqui era mais propício para as atividades agrícolas”, esclarece Maria do Carmo, que também tem as suas origens no concelho vizinho.

Na altura de moer a azeitona, os habitantes das Giesteiras deslocavam-se ao lagar na Ribeira da Figueira, que partilhavam com os habitantes desta Aldeia do Xisto. Moinhos também os havia, e muitos, quer ao longo desse curso de água, quer nas ribeiras da Fróia e do Espinho. António José, de 48 anos, ainda se recorda de, em miúdo, ir até ao moinho para moer o grão e trazer a farinha, no dorso de um burro ou macho. Do tempo de infância recorda os jogos de futebol com uma bola de farrapos e dos festejos de São João em que o povo, nos domingos que antecediam a festa, ia buscar pinheiros (altos) que depois ateavam numa enorme fogueira à volta da qual, e com capelas na cabeça, desenvolviam brincadeiras. No Natal, a tradição mandava que se roubassem, momentaneamente, as carroças dos moradores para transportaram os cepos de lenha que queimavam junto às alminhas porque não existe capela nas Giesteiras. O Carnaval era a época alta da folia e os mais novos juntavam-se para as caqueiradas que consistiam em bater às portas das casas e, quando as abriam, atiravam-se cacos velhos para o seu interior. Havia quem não gostasse da brincadeira e, por isso, eram esses os principais alvos.

A maior parte destas tradições já não se realizam atualmente, mas a Associação continua a promover o magusto por altura dos santos, a festa em junho e o convívio dos Manéis, promovido por um Manuel com raízes nas Giesteiras (mas que já ultrapassou largamente os limites da freguesia de Sobreira Formosa). Quem visitar a aldeia já não verá o predomínio das giestas, que poderão estar na origem do seu nome, mas beneficiará de uma paisagem singular. Para visitar, destacamos o forno comunitário (nas Giesteiras Fundeiras) e as fontes de mergulho (nas Giesteiras Cimeiras) onde antes se abasteciam todos os moradores.

 HERDADE

Nesta altura do ano, os campos em redor da aldeia de Herdade estão floridos e os sinais da primavera estão presentes na abundante natureza que a rodeia. A ribeira, com nascente perto do aglomerado de casas, corre cheia, fruto das chuvas intensas dos últimos meses. Há uns anos, as flores do campo eram apanhadas para enfeitar a imagem de Nossa Senhora, colocada em destaque no edifício da Escola Primária durante o mês de maio. Os habitantes juntavam-se todos os dias para rezar o terço e também para cantar as «florinhas», um ritual em que algumas crianças ofertavam flores em louvor da Mãe de Jesus.

Esta era apenas uma das festas desta povoação que só nos anos mais recentes viu ser construída a igreja tendo como orago S. João. Antes, quem queria ir assistir à celebração da Missa ia a pé até ao Alvito da Beira. A ocasião era aproveitada para participar nos bailaricos que aí juntava muita gente. José Alves Ribeiro, a dois meses de completar 83 anos, recorda as idas a outras aldeias vizinhas, sempre a pé, com a mesma finalidade. Também na Herdade se faziam bailes ao som do realejo ou então no domingo gordo: no carnaval era costume os vizinhos visitarem as casas uns dos outros, partilhando o que havia. Este era o último momento de festa antes dos tempos mais rigorosos da Quaresma. José Alves Ribeiro recorda que a carne da matança do porco que não era comida até essa altura ia para a salgadeira para ser consumida só após a Páscoa.

Maria dos Anjos Cardoso conta, a propósito da Páscoa, o costume muito enraizado na aldeia que impedia que se fizesse qualquer tarefa nas 24 horas a seguir ao meio dia de quinta-feira Santa. Por esse motivo, tudo tinha de ser tratado com antecedência: a roupa apanhada do estendal, a lenha levada para casa para alimentar a fogueira até ao dia seguinte ou a comida para os animais e para as pessoas já preparada com antecedência. Isto porque há memórias de histórias em que alguém apanhou roupa que corava ao sol depois do meio-dia e ela ficou manchada com sangue. No dia de Páscoa, a Herdade recebia a visita do sacerdote que vinha desejar as boas festas – costume que entretanto também se perdeu.

A aldeia nasceu numa das encostas da serra, casas de xisto encavalitadas umas nas outras. Algumas das habitações, atualmente em ruínas, têm datas inscritas nas portas que remetem para o século XIX, sendo a mais antiga de 1869. As estatísticas disponibilizadas pelo Padre Manuel Alves Catharino na sua monografia são de 1911, quando existiam na povoação 8 fogos e 42 almas. As famílias numerosas e a necessidade de mais espaço estão na origem da expansão da aldeia para o outro lado da ribeira. Em 1943, quando tinha dez anos, José Alves Ribeiro frequentava a escola numa dessas casas de xisto: eram 32 alunos. Por ser necessária novamente para a sua função original de habitação, o povo decidiu construir por sua conta uma Escola Primária que hoje serve de sede para a associação local por já não haver crianças na aldeia. Os alunos da geração de José tiveram melhor sorte do que os mais velhos. O seu irmão teve de percorrer, durante os três anos de escolaridade obrigatória, o caminho entre Herdade e Sobrainho dos Gaios para poder aprender a ler e a escrever. No Alvito da Beira a escola estava já lotada e só foi aceite no Sobrainho por o pai ter assumido a construção da carteira já que não havia mobiliário para todos.

À semelhança dos seus vizinhos, também José Alves Ribeiro começou a ajudar em casa desde tenra idade, a guardar o gado, a apanhar azeitona ou a ceifar os cereais que depois seriam malhados na eira e moídas no moinho construído muito perto das habitações, aproveitando a água da ribeira. Mais tarde dedicou-se à resina, uma atividade que garantiu muito rendimento às famílias da Herdade. Manuel Henriques apelida mesmo este produto como o ouro negro da zona do pinhal, já que muitas famílias dependiam do rendimento obtido na extração da resina para, por exemplo, mandar estudar os filhos. Os incêndios do início do século XX dizimaram esta fonte de riqueza.

Nesta visita à Herdade fica por descobrir a origem do seu nome. Uma hipótese é apontada: a existência de muitas póvoas que atraíam pessoas de outras zonas do concelho e de concelhos vizinhos que aqui plantavam e colhiam o que precisavam, com destaque para a olivicultura. Na altura da apanha da azeitona, soava um búzio para juntar o rancho que estava encarregue deste trabalho. As póvoas continuam a existir ao longo da ribeira e nas encostas das serras, mas agora repletas de flores do campo e só aqui e ali cultivadas por falta de quem o faça.

 JUNCEIRA

No dia 1 de maio, os habitantes da Junceira faziam a sua procissão anual em homenagem ao padroeiro da freguesia, S. Tiago Menor, deslocando-se à vizinha localidade do Peral para assistir à Celebração Eucarística. Regressavam depois à Junceira para o almoço festivo das Maias que era preparado com a devida antecedência, quando se matavam as cabras para depois se cozinharem os pratos típicos que levavam essa carne. O destaque ia, no entanto, para a tigelada, feita em forno de lenha nos caçoulos de barro como manda a tradição. Maria Prazeres Ribeiro não precisava de receita para fazer uma das sobremesas mais típicas da região, juntando os diversos ingredientes – incluindo abóbora – a olho. “Eu tinha uns tios no Sobrainho dos Gaios que vinham aqui a pé só por causa da tigelada, a fama que tinha. Era a festa da tigelada”, afirma. Hoje em dia, as Maias continuam a ser comemoradas em maio, no primeiro fim de semana do mês – quer coincida ou não com o primeiro dia do mês.

Nos tempos idos, as crianças da Junceira deslocavam-se a pé para a escola do Peral, onde aprendiam a ler e a escrever. Maria Prazeres teve sorte pois, apesar de a sua mãe achar que “as mulheres não tinham preciso”, o seu pai entendia a importância da educação e permitiu que ela aprendesse as letras. Mais tarde, já adulta, ajudava muitas das suas vizinhas que não tinham tido a mesma sorte a escrever cartas para os familiares e também os aerogramas que se enviavam para o Ultramar. Da sua infância destaca as famílias numerosas e os muitos parceiros para as brincadeiras, intercaladas com os trabalhos no campo que todos começavam a executar desde tenra idade. As pinhas serviam de bolas e com os restos dos trapos faziam-se bonecas para brincar que outros brinquedos não havia. Já mais crescidos, o interesse passou a centrar-se nos muitos bailes organizados tanto na Junceira como nas povoações vizinhas. “Aqui havia dançarinos que era o fim do mundo”, comenta.

Desse tempo recorda algumas músicas, como a Rosinha dos Limões ou uma outra que contava a história de um amor não correspondido: “Se não me queres | Se eu te aborreço | Se preferes outra mulher | Se eu mesma não te pareço; Na verdade | Isto é assim | Fala-me com sinceridade | Não tenhas pena de mim; Se não me queres | Se estás preso por alguém | Ou se preferes | O meu desprezo; Vê lá bem não tenhas dó | Não tenhas piedade| porque eu não fico só | Fica comigo a saudade”. No livro de Assunção Vilhena (Gentes da Beira Baixa), no capítulo Danças e Cantares, Filomena Cardoso, da Junceira, partilhava na altura outros versos mais animados que também terão feito parte de alguns desses bailes: “Todos me mandam cantar | Mas ninguém me dá dinheiro | Julgam que a minha garganta | É o fole de algum ferreiro | Ai terrum-terrum-tum-tum | Ai terrum-terrum-tum-tum | Camélias brancas são rosas | Mimosas são do Japão | Quem me dera ser camélia | Colhida por tua mão | Ai terrum-terrum-tum-tum | Ai terrum-terrum-tum-tum”.

Com os seus quase 83 anos, Maria Prazeres contempla a paisagem que vê a partir da sua casa e aponta diferenças: antes quase não havia lenha mas ainda assim faziam uma grande fogueira para comemorar o São João. Hoje em dia, os pinheiros tapam as casas do cimo da aldeia e da localidade vizinha do Peral e não se pode fazer uma fogueirinha pelo risco de incêndios. Antes, só ela e a sua vizinha tinham as duas 14 filhos, quase metade dos atuais moradores da aldeia. No lagar da Junceira – agora pertença de particulares - já não se mói azeitona e os muitos moinhos existentes nas ribeiras da freguesia estão parados e ao abandono por falta de quem semeie os campos e moa os cereais. Ficam as histórias desses tempos, de quem trabalhava do nascer ao por do sol mas que ainda assim sempre tinha vontade para um pezinho de dança.

 LABRUNHAL CIMEIRO e FUNDEIRO, e CASAL VELHO

Os vestígios de cinza no chão ainda são visíveis à porta da casa de Maria Cardoso Lopes: relembrando práticas antigas que ainda não caíram em desuso, fez a fogueira de São João utilizando apenas capelas e rosmaninho, plantas que abundam nos campos em redor de Casal Velho, a aldeia que a viu nascer há quase 83 anos. Noutros tempos, o São João também era festejado com uma fogueira grande, para a qual contribuíam todas as pessoas da aldeia, havendo depois o bailarico. Também era tradição entrançar a capela de São João na véspera, sendo colocada num telhado para ser benzida durante a noite pelo orvalho. Na manhã de 24 de junho, era recolhida antes do nascer do sol, altura em que se molhavam todos os animais com água para que fossem abençoados. Com um jardim viçoso à porta de casa, Maria Cardoso Lopes recorda ainda a tradição das maias, quando se enfeitavam as portas com as plantas do campo. “Aquele que se levantava primeiro ia a correr atrás dos outros – cada um fugia para seu lado – e dizia: «ajoelha, ajoelha, ajoelha» e brincávamos às escondidas, era uma festa”.

Casal Velho localiza-se nas proximidades de Labrunhal Cimeiro e Labrunhal Fundeiro, havendo entre as três aldeias fortes laços familiares. Destacavam-se as famílias Bernardo do Labrunhal Fundeiro, os Martins do Cimeiro e os Lopes do Casal Velho. Dos três povoados, o Labrunhal Fundeiro foi aquele que sempre teve um maior número de habitantes, de acordo com a monografia do Padre Manuel Alves Catharino: em 1758, os dois Labrunhais registavam 11 fogos e 44 almas e, em 1911, as três povoações tinham 17 fogos e 130 habitantes. À semelhança do restante concelho, também aqui a maioria das pessoas dedicava-se a uma agricultura de subsistência, até pelas boas condições do terreno, destacando-se o olival e o cultivo de cereais.

Daniel Fernandes realça o espírito comunitário, principalmente do Labrunhal Fundeiro de onde é natural, que se via, por exemplo, na existência de um rebanho comunitário, em que chegaram a construir uma casa para o pastor, ou das juntas de bois também partilhadas por todos. “Na altura das malhas, as pessoas ajudavam-se umas às outras”, relembra, sendo esta uma ocasião de festa. A eira e o moinho eram igualmente de utilização comunitária. Não havia lagar nestes três povos, pelo que a azeitona era moída no vizinho Galisteu. Na recolha etnográfica realizada por M. Assunção Vilhena no concelho, Maria das Neves Fernandes recitou uma cantiga sobre esta atividade: “Na apanha da azeitona | Viva o nosso patrão de hoje | Raminho de bem-querer | Tem vinho na sua adega | Para nos vir dar de beber”.

Apesar do envolvimento rural, várias famílias tiveram a preocupação de mandar alguns dos seus descendentes estudar. Daniel Fernandes, professor aposentado da Escola Pedro da Fonseca, destaca ainda o facto de haver uma forte tradição religiosa em qualquer uma das aldeias. Na sua monografia, o Padre Manuel Alves Catharino, na lista de “pessoas mais cotadas de Proença-a-Nova pelos serviços que prestaram ou pelos lugares que ocuparam ou ocupam”, destaca os seguintes homens: “Padre Francisco Dias Bernardo (tio) que foi prior de Sernache de Bomjardim, Padre F. Dias Bernardo (sobrinho), uma inteligência robustíssima que a doença inutilizou e a morte roubou, Padre Manuel Martins da Silva, da S. J., colaborador da Brotéria (coleópteros e assuntos agrícolas), Padre José António Pequito, da S.J., que é professor, pároco e pregador de mérito no Brasil”. A estes juntou ainda “Dr. Carlos Martins que é um distinto advogado em Sertã, Dr. Francisco Dias Bernardo, oficial da Administração Militar e advogado e Dr. Alfredo António Pequito, advogado, hábil professor de liceu e incansável trabalhador”. Todos eles têm em comum a origem nestas localidades.

Daniel Fernandes fala ainda de Joaquim Dias Bernardo, oficial que esteve em Lourenço Marques, e que foi responsável pelo facto dos Labrunhais terem sido das primeiras localidades do concelho a ter abastecimento de água público, através de uma ligação à mina do Vale das Ferrarias, na proximidade de Proença-a-Nova. Por outro lado, essa proximidade à vila fez com que nunca fosse construída Igreja ou Escola Primária, deslocando-se a população sempre que necessário. Maria Cardoso Lopes não teve a sorte de ser mandada para a escola, apesar de ter trabalhado numa a maior parte da sua vida.

“Este mundo é uma vinha | Cada cepa é um cristão | Vem a morte e faz vindima | Não procura a geração. | Um campo com tanta vinha | Só um Deus é que a domina | Só um Deus é que a declina [?] | Por o seu divino poder ser tanto | Se não fora o Divino Espírito Santo | Nada o Mundo disso vira. | - Ó Virgem que és a rainha | De todas as santas! | Nós é que somos as plantas que Deus cá tem”: recitado por Idalina Martins Catarino, do Labrunhal Fundeiro, em Gentes da Beira Baixa, de M. Assunção Vilhena.

 

 LAMEIRA D’ORDEM e LAMEIRA MARTINS

Nossa senhora da Ajuda 

Que está na Lameira D’Ordem           

Mal empregada Senhora 

Estar numa terra tão pobre 

 

Nossa senhora da Ajuda 

Que está lá no cabecinho 

Antes que faça calor 

Sempre lá corre um arzinho

Nossa Senhora da Ajuda 

Está virada para o Norte, 

Para livrar os rapazes 

Quando vão tirar a sorte 

 

Nossa Senhora da Ajuda 

Ao pé tinha uma azinheira 

Para livrar os rapazes 

Quando iam jurar bandeira

Nossa Senhora da Ajuda é a padroeira da Lameira D’Ordem e Lameira Martins e por causa dela centenas de peregrinos visitam anualmente a capela onde se encontra a imagem de pedra quase “da entrada do mundo” de tão antiga que é. Conta-se que a imagem de Nossa Senhora da Ajuda se encontrava na única casa de Viampada, local vizinho das Lameiras; os moradores, que teriam algum dinheiro, compraram-na para a colocar no oratório da habitação. Quando morreram, tanto os antigos da Palhota como da Lameira D’Ordem queriam ficar com a Nossa Senhora da Ajuda. Os da Palhota, levando-a para o local onde pretendiam edificar a capela, tiveram menos sorte pois Nossa Senhora não ficava lá por mais vezes que a tentassem levar. E ficou em Lameira D’Ordem, na capela construída com lajes e um oratório pequeno, à medida da imagem. 

De acordo com Idalina Branco, que recordou a história como a ouviu contar, a capela da Lameira D’Ordem foi posteriormente reconstruída com novos acrescentos, obra para a qual contribuíram muitos anónimos com os seus donativos. “Tenho 84 anos e desde que me lembro já havia romaria à Nossa Senhora da Ajuda”, afirma Joaquim Farinha que apresenta o outro nome por que é conhecida: Senhora dos exames. Muitos pais prometiam uma visita à Lameira D’Ordem se os filhos passassem de ano. O povo das Lameiras presta homenagem à sua padroeira no fim de semana da Páscoa, como é da tradição, e a devoção contraria o ditado popular de que os santos da casa não fazem milagres já que a fé dos locais é imensa. 

Lameira D’Ordem e Lameira Martins, separadas por pouco mais de um quilómetro que é quase como se fossem uma única povoação, pertencem à freguesia de São Pedro do Esteval, apresentada pelo Padre Manuel Alves Catharino como tendo terreno pobre e árido, “sendo talvez devido a isso que o seu azeite é de primeira qualidade” (Monografia do Concelho de Proença-a-Nova). As povoações nasceram ao redor de lameiras, onde a água seria mais abundante, e os habitantes atuais não sabem qual das duas é mais antiga. Na obra citada, o Padre Catharino apresenta os números dos censos de 1759 e, nesse ano, havia quase o mesmo número de famílias em ambas as povoações: seis na Lameira D’Ordem e cinco em Lameira Martins. Em 1911, a diferença entre as duas aldeias é mais significativa: 18 fogos e 74 moradores na Lameira D’Ordem e 8 fogos e 37 moradores na Lameira Martins, números não muito distantes dos registados em 2016 no conjunto das duas localidades. Por esclarecer fica também a toponímia de Lameira Martins, apresentada na monografia como Mem Martins e conhecida pelos seus habitantes como Meia Martins. 

Joaquim Farinha revela que uma das mudanças da Lameira D’Ordem da sua infância para a da sua velhice tem a ver com o aumento do número de casas na povoação, que antes se concentrava numa área muito mais reduzida (com cada família a ter muitos filhos), com a vantagem de atualmente haver água canalizada e luz elétrica. Este é um ponto importante pois na memória de vários habitantes estão as horas passadas na fonte comunitária para buscar um pouco de água e quando esta acabava ia-se de poço em poço para encontrar o que dar de beber aos vivos, como recorda Celeste Farinha. Nem mesmo os verões muito quentes na zona mais sul do concelho davam descanso e a azáfama era muita com os terrenos cheios de searas de milho, trigo e centeio a perder de vista, que depois tinham de ser ceifadas e malhadas, para preparar os meses mais frios que se aproximavam. Também as oliveiras eram uma importante fonte de rendimento.

Uma das festividades mais recordadas era o São João, apesar de a freguesia celebrar o São Pedro. Na noite de 23 de julho, ateavam o monte de lenha que preparavam com semanas de antecedência, já que na altura não havia o excesso de matéria combustível de hoje em dia. Quando iam guardar os rebanhos, os miúdos traziam a lenha que encontravam e iam depositando ao redor de um pau direito que era colocado ao centro. A fogueira ardia no cabeço de São João e o povo ficava na aldeia a admirar a sua e todas as fogueiras que se viam pela serra fora.

 MALHADAL, CABRIEIRA, FATELO e FOLGA

Na encosta oeste da Serra das Corgas, mais perto do cume do que do sopé da serra, numa zona bastante soalheira e rodeada de pinhais, os antigos encontraram as condições ideais para construir as suas casas de xisto que, em 1758, eram 19 e davam guarida a 65 almas. As inclinações naturais do terreno foram sendo suavizadas pela construção de socalcos para fazer hortas e olivais mas, tendo em conta o terreno rochoso, nem sempre esta era uma tarefa fácil. Por esse motivo, os moradores do Malhadal desceram a serra até ao sopé, por onde ainda corre copiosa a Ribeira da Isna, e fizeram as suas hortas nas margens do curso de água, com terrenos mais férteis. Ramiro Alves, nascido e criado no Malhadal, é da opinião que os antigos deveriam ter construído a aldeia mais perto da ribeira, como haviam feito os vizinhos da Cabrieira e da Folga, com habitações paredes meias com a água. Se assim tivesse sido, tinham-lhe poupado muitas viagens serra acima serra abaixo carregado com o que fosse preciso levar para as hortas e das hortas para casa. Também os diversos moinhos existentes e o lagar (que ainda trabalha hoje em dia), movidos a água, funcionavam junto à levada da ribeira, o que implicava carregar a azeitona para o lagar e o azeite para a aldeia, os cereais para os moinhos e a farinha para as casas, por um caminho que só há algumas décadas foi preparado para a circulação de automóveis.

A barragem do Malhadal, construída na época em que o Padre Sousa era presidente da Câmara Municipal, foi projetada para solucionar os problemas de abastecimento de água do Malhadal e das povoações vizinhas, incluindo do concelho da Sertã, quer para consumo humano quer para regadio. Ramiro Alves refere a existência de um chafariz que chegava “à tangente” para suprir as necessidades da aldeia, apesar da existência de muita água na serra, com a nascente de uma mina que corria todo o ano não muito longe do povoado. Com a construção da represa, criou-se um espelho de água com condições turísticas ímpares: hoje em dia, a praia fluvial do Malhadal é passagem obrigatória para quem visita a região, tendo sido paulatinamente dotada de infraestruturas que a tornam muito apetecida. O trilho de praia, com 1,9 quilómetros, leva os caminheiros pela Ribeira da Isna até à Cabrieira ou à ponte Filipina, que se supõe ter sido construída ao longo dos séculos XVI ou XVII.

O Padre Manuel Alves Catharino refere, na sua monografia dedicada ao concelho de Proença-a-Nova, que em 1911 a Cabrieira tinha 5 habitações e 20 habitantes, reduzidos hoje em dia a 3 moradores. Para a aldeia de Folga só há registos dos Censos de 1758 que identificavam dois fogos e 3 moradores. A realidade hoje em dia é diferente, havendo mais casas mas menos moradores; mantém-se a paisagem deslumbrante perto da ribeira. No caso do Fatelo, localizado na estrada que liga o Malhadal às Corgas, não há registos desta povoação que hoje tem apenas uma família. Já o Malhadal era uma das maiores aldeias da Freguesia de Proença-a-Nova em número de habitantes, registando-se em 1911 quase duas centenas de moradores. As difíceis condições de vida levaram muitos a optar pela emigração no decorrer do século XX, reduzindo substancialmente o número de habitantes. Hoje são cerca de 40 os que ainda residem no Malhadal, número que é largamente ultrapassado nos meses de maior calor também devido ao regresso dos emigrantes.

A proximidade da praia fluvial, que curiosamente não se vê a partir da aldeia devido à mancha de pinhal, é motivo de atração. De acordo com Ramiro Alves, existem mesmo casos de pessoas sem raízes na aldeia que estão a adquirir habitações no núcleo antigo com o objetivo de as recuperar para casas de férias. Também muitos jovens decidiram construir casa na terra das suas origens até porque, como curiosidade, nos casamentos realizados nas últimas décadas os noivos eram, com uma ou outra exceção, ambos do Malhadal. Hoje em dia, são muitas as crianças que dão vida à aldeia. “Quando esteve cá a imagem da Nossa Senhora de Fátima Peregrina foram as crianças que fizeram a festa, elas é que cantaram. Foi muito bonito”, recorda Ramiro Alves, dentro do espírito do que era a tradição das florinhas que se realizava antigamente na aldeia.

A capela, dedicada à Rainha Santa Isabel, foi construída em 1954 sendo a sua edificação justificada pela devoção do povo. Na década de 80, o templo foi requalificado no seu interior e foi construída a torre do relógio que é bem visível ao longe. Nessa altura, foi feito um peditório junto de todos os emigrantes e dos locais e, mesmo com as dificuldades de um povo trabalhador e com o dinheiro contado, arranjou-se a verba necessária para as obras. O mesmo aconteceu com a construção do centro cultural do Malhadal que encima a aldeia e ao lado da qual está um cruzeiro: uma obra do povo e para o povo. É aqui que todos os anos, na altura do Natal, se acende o madeiro. Outras tradições foram sendo adaptadas às atuais circunstâncias, caso da fogueira de São João que de um pinheiro transformou-se em pequenas fogueiras de capelas e rosmaninho a arder à porta de casa.

O rico património imaterial do Malhadal ficou imortalizado nas recolhas etnográficas efetuadas por Maria Assunção Vilhena, natural de Santiago do Cacém e que casou no Malhadal, tanto na aldeia como em todo o concelho, que esteviram na base do romance “A Flor do Feto Real”, com personagens fictícias mas inspirado nas histórias ouvidas aos serões, e ainda do livro “Gentes da Beira Baixa – Aspetos Etnográficos do Concelho de Proença-a-Nova”.

 MALJOGA

No caminho em direção à aldeia da Maljoga são ainda visíveis alguns castanheiros na paisagem dominada por pinheiros e eucaliptos, carregados de ouriços que deverão providenciar castanhas por altura do S. Martinho. No início do século XX, eram muitos os castanheiros existentes nas encostas soalheiras da zona oeste do concelho de Proença-a-Nova, mas paulatinamente foram desaparecendo dando lugar a outras espécies. António Farinha Lopes, que nasceu na Maljoga há 80 anos, recorda-se de uma paisagem totalmente diferente, com a presença de searas até onde a vista alcançava, oliveiras centenárias que pegavam de estaca e uma variedade de árvores de fruto que eram estrumadas pelas muitas cabeças de gado que se alimentavam na serra. “Na aldeia chegou a haver dois pastores. Já no meu tempo éramos nós, os gaiatos, que tiravam as cabras”, adianta. Os poucos pinheiros existentes nessa altura, quando comparado com os pinhais de hoje, eram todos resinados.

Localizada numa encosta sobranceira à Ribeira da Isna, a Maljoga de Proença-a-Nova dista apenas alguns quilómetros da Maljoga da Sertã, do Moinho Branco e da Isna de São Carlos, todas localidades do vizinho concelho da Sertã, e da Aldeia Ruiva, já na margem de Proença-a-Nova. António Farinha Lopes refere que o nome das maljogas, segundo diziam os antigos, surgiu durante um jogo de cartas em que um dos companheiros terá dito ao outro: “eh pá, que tão mal jogas!”. Apesar da proximidade com a Maljoga da Sertã, era para as Cimadas ou Vergão que os alunos se deslocavam para ir à escola, tendo de fazer a pé os cerca de oito quilómetros que separam as aldeias. Nos anos 40, foi então adaptada uma habitação para as funções de escola no centro da Maljoga, sendo mais tarde construído um edifício de raiz à entrada da povoação, hoje sede da Associação Cultural. Foi também no cimo da aldeia que o povo decidiu construir, no início dos anos 80, a igreja em louvor de Cristo Rei.

Percorrendo a rua principal da Maljoga encontram-se as casas de xisto que terão feito parte do núcleo primitivo da povoação. O crescimento do número de habitantes terá estado na origem da construção de casas noutros pontos da encosta. As estatísticas dos censos suportam esta teoria: em 1758, existiam na Maljoga 13 fogos e 30 habitantes que aumentaram para os 24 fogos e 110 habitantes em 1911, de acordo com o Padre Manuel Alves Catharino na sua monografia sobre o concelho de Proença-a-Nova. O São João era uma das festividades mais populares, com as raparigas da aldeia a enfeitarem um grande arco que depois era erguido na zona do fontanário do meio por vários homens, tal era a sua dimensão. Acendia-se a fogueira, bailava-se e cantava-se: Eu hei-de ir ao São João | E lá tenho prometido | Um safaitinho de rosas | E alqueire e meio de trigo; Ó São João, São João | Ó São João Pequenino | Hás-de ser o meu compadre | Do meu primeiro menino.

Dos versos recordou-se Idalina Lopes que enquanto adolescente chegou a participar na encomendação das almas que se fazia todos os dias da Quaresma. “Juntávamo-nos três, quatro raparigas numas escadas no meio da povoação e dizíamos: ‘rezemos mais um padre-nosso pelas benditas almas do purgatório’. E as pessoas que estavam em casa ouviam-nos”, relembra. À aldeia chegavam também as vozes das raparigas que cumpriam o ritual nas aldeias mais próximas. Mesmo sem capela naquela altura, as meninas da Maljoga também ofertavam as florinhas no mês de maio, o mês de Maria, cantadas na casa onde se encontrava a Sagrada Família (que ainda hoje percorre todas as habitações). Já as Janeiras eram cantadas exclusivamente por homens, tradição que ainda hoje se mantém.

Com três fontanários, a água sempre existiu em abundância na aldeia mas era na Ribeira da Isna que as mulheres lavavam a roupa. Também a água da ribeira movimentava o lagar de azeite e os vários moinhos existentes nesta zona e era fundamental no processo de cultivo do linho que depois era utilizado para fazer roupa mas também panos e sacos. Foi também a produção de linho que deu origem ao fabrico de cordas, responsabilidade de um senhor invisual que entrançava os fios sentado numa cadeira, a que chamavam de burra, que se ia movendo à força de manivela. O espírito empreendedor ainda hoje se vê na Maljoga, com duas empresas na lista dos produtores da marca Proença-a-Nova Origem, que se dedicam à produção de mel, com colmeias nesta zona do concelho.

Em 2017, a Associação da Maljoga cumpriu o seu 20º aniversário, nestas duas décadas, tem promovido diversas iniciativas, entre as quais os Encontros de Outono, as Janeiras, a comemoração do Dia da Mulher e a Festa de Verão que se assinala em agosto. 

 MAXIAIS

Ó Senhora da Saúde,

O vosso altar tem fitas

A Senhora do Rosário

Mandou-vos muitas visitas               

Oliveiras, oliveiras

Agora são olivais

Vou a chegar

Ao povo dos Maxiais

Esta era a letra que os inúmeros ranchos de trabalhadores oriundos de Sobreira Formosa cantavam quando chegavam ao alto dos Maxiais e avistavam a aldeia que iria ser a sua casa nas próximas semanas, enquanto durasse a campanha da azeitona, sendo que a Senhora da Saúde acolhia os visitantes e a Senhora do Rosário era a padroeira de Sobreira Formosa. A partir de novembro, começando nos dias 2, 8 ou 20, chegavam à aldeia dezenas de homens e mulheres para a apanha da azeitona e aqui ficavam até 20 de janeiro, data da Feira de Janeiro e um marco que ditava o fim deste trabalho. Maria do Carmo Farinha, 74 anos, lembra-se do frenesim que tomava conta dos Maxiais nesses meses frios, em que no fim do dia de trabalho ainda havia energia para cantar ao desafio e dançar. “Era alegre, alegre, alegre”, enfatiza. “Nem sei onde é que dormia tanta gente!”. Nessa a época, as férteis póvoas em redor da aldeia pertenciam a pessoas de Sobreira Formosa, Isna de Oleiros ou Estreito que aqui encontravam as condições ideais para a produção de azeite. E todos tinham uma pequena casa de xisto de apoio à atividade agrícola.

Na aldeia ainda existem muitas habitações em xisto que constituem o núcleo original da povoação que depois foi crescendo consoante as necessidades. Em 1911, moravam no então Machiais, de acordo com o padre Manuel Alves Catharino, 211 pessoas, distribuídas por 31 residências. No entanto, segundo Maria do Carmo Farinha, a origem da povoação encontra-se a dois quilómetros das casas, junto à Ribeira da Fróia, no lugar conhecido como Silha Velha, uma zona onde abundam as conheiras e onde ainda se encontram vestígios de ruínas de casas de xisto. A tradição oral também refere este local como sendo a origem da vizinha povoação do Sobral Fernando. No caso dos Maxiais, a história aponta para uma praga de formigas como o motivo que obrigou à mudança dos residentes para uma nova localização.

Os laços também existem com os vizinhos das Giesteiras, com quem partilhavam uma capela em louvor de S. Pedro, construída num local entre as duas povoações que ainda mantém a toponímia de Cabeço de São Pedro. Tendo a capela ruido, o povo dos Maxiais foi buscar a imagem e construiu uma capela em xisto na povoação. Há algumas décadas, também esse edifício atingiu um estado de degradação que tornou impossível qualquer restauro, pelo que foi decidido construir de raiz a atual capela. José António Farinha participou nessa construção que alberga atualmente as imagens de São Pedro, de São Francisco, da Senhora das Dores e a da Senhora da Saúde, sem dúvida a que reúne a maior devoção do povo, afirma. Todas as segundas-feiras de Páscoa realiza-se a Romaria à Senhora da Saúde, com procissão seguida de missa, havendo igualmente peregrinos que se deslocam aos Maxiais noutras épocas do ano. No quadro que Carlos Farinha, filho da terra, pintou sobre o concelho de Proença-a-Nova – em exposição no átrio dos Paços do Concelho, colocou a capela e a Romaria à Senhora da Saúde como representativos dos Maxiais.

Segundo a história que ouviu contar ao seu avô, que a tinha ouvido por sua vez da boca do seu avô, a origem da devoção à Senhora da Saúde encontra-se numa história de fé: “havia um senhor da Sobreira, de sobrenome Laia, que tinha póvoas nos Maxiais e deslocava-se de burro mas, porque estava doente das pernas, não era capaz nem de subir nem descer do burro e tinha de ser sempre ajudado. Num dia em que tinha alguns homens dos Maxiais a cavar um dos seus olivais, no fim do almoço, estando lá ainda as mulheres e os gaiatos, disse-lhes: «ó cachopos, peçam agora todos a Deus por mim que se eu ficar sarado compro uma Senhora da Saúde para a vossa capela». Todos os que lá estavam ajoelharam-se e rezaram para ele ficar bom. Nesse dia já o homem se pôs sozinho a cavalo do burro, já não foi preciso mais ninguém para o ajudar”, conta Maria do Carmo Farinha. E cumpriu a promessa, iniciando uma das romarias de maior significado do concelho.

Apesar de terem como orago São Pedro, o santo mais festejado era o São João, com o povo a queimar um pinheiro num dos pontos altos da povoação. Há algumas décadas, os pinheiros não abundavam nesta região e onde não estavam plantadas oliveiras semeava-se centeio (nos cabeços mais altos) ou trigo (nas zonas mais baixas). A produção do linho também ocupava todas as famílias. Maria do Carmo Farinha vem de uma família de tecedeiras e também ela faz ainda muitos trabalhos no seu tear. Quando adolescente, acompanhava a avó ao Perdigão ou ao Fratel, a pé, onde ia vender as teias de linho, as teias de estopa ou ainda as mantas já feitas. Desses tempos, recorda-se do trabalho que sempre havia para fazer nos campos, que mantinha todos ocupados durante todo o ano, e dos bailes em que se cantava e dançava com muita alegria. Nos Maxiais chegou a haver Grupo Coral e Rancho. Júlia Rosa, com 83 anos, conta que participou no cortejo organizado no final dos anos 40 em Proença-a-Nova com a finalidade de arranjar donativos para a construção do Hospital. Dos Maxiais saiu uma carroça carregada de oferendas e um grupo de mulheres trajadas a rigor, de saia preta, blusa cor-de-rosa em crepe e uma faixa preta. Cantaram e encantaram.

Xaile e lenço é um traje de mulher pobre

Deixa-o ser, não te importes com o que eu penso

Que a mulher do xaile e lenço também sabe ser mulher      

Cachopas modestas de lenço na testa

De xaile traçado vão todas modestas

Vão todas modestas para o lindo baile

Ai Maxiais terra modesta

Cantemos todos para alegrar nossa festa

Para alegrar a romaria

Cantemos todos com muita alegria

A alegria dos meus olhos

Eu não sei quem ma tirou

Tão alegre como eu era

E agora tão triste sou

Ai Maxiais terra modesta

Cantemos todos para animar nossa festa

 MÓ

À semelhança de outras aldeias da Freguesia de Alvito da Beira, também a aldeia de Mó tem as suas habitações encavalitadas numa encosta da serra soalheira, algumas das casas sem acessos por estrada tão próximas estão umas das outras. No vale dessas serras corre copioso o Ribeiro da Mó, que nasce como Ribeiro da Dáspera e desagua na Ribeira do Alvito. A aldeia fica a pouco mais de três quilómetros da sede da Freguesia, sendo o acesso feito uma estrada que serpenteia o relevo montanhoso desta região. Em anos que já passaram, moraram na Mó mais de 80 pessoas, obrigando à ampliação da aldeia para a encosta vizinha chamada de Corralão, com o ribeiro a separar as duas áreas povoadas. Os pinheiros e as oliveiras são as árvores que mais se destacam na paisagem, deixando antever duas das atividades económicas que ocuparam os seus habitantes: a resinagem e o azeite. Um olhar mais atento permite ver outras espécies que também tiveram o seu impacto: as laranjeiras e os limoeiros, os medronheiros e as vinhas.

No edificado da aldeia existem duas fontes públicas e um forno comunitário. A algumas centenas de metros da povoação, bem perto do ribeiro, localiza-se o lagar, entretanto desativado, que funcionava com a força da água. Tempos houve, recordam os que ainda residem na aldeia, que a apanha da azeitona demorava vários meses, estando hoje condenada a apodrecer na árvore por falta de quem a apanhe. O que chama a atenção no caminho que leva ao lagar é a existência de um grande número de casas de xisto que tinham todas a função de adega, a maior parte das quais já se encontram abandonadas ou em ruínas. Imaginam-se, noutros tempos, romarias frequentes a esta pequena rua, em que de um lado se vêm as adegas enfileiradas e do outro um precipício de poucos metros até ao leito do rio, não tendo sido reportado nenhum acidente resultante de convívios mais regados.

Curiosamente, não foi nem à resina, nem ao azeite, nem ao vinho que a Mó foi buscar o seu nome. Conta-se que um casal se terá instalado nesta zona trazendo consigo uma mó, movida à força de braços, para moer farinha. E depressa os habitantes das aldeias vizinhas se deslocavam à mó para moer os seus cereais, ficando assim batizada a aldeia que começou a ser habitada por mais pessoas que construíram pequenas casas de xisto na encosta da serra: muitas ainda existentes mas em ruínas, entre outras que estão a ser recuperadas. No livro sobre os aspetos etnográficos do concelho, M. Assunção Vilhena recolheu uma cantiga da descamisada, partilhada na altura por Maria Rosa Ribeiro, da Mó, mostrando também a importância desta atividade:

Oh que belo milho, milho

Oh que bela milharada;

Oh que bela vista de olhos               

Para quem vai de jornada

Aqui neste milho, milho

Aqui neste milho pampo,

Onde eu tenho meus amores

Que eu amo tanto, tanto.

Tempos houve em que as entradas da aldeia eram fechadas à noite com uma cancela, como ouviu José Maria Gonçalves contar aos mais antigos, para proteção de pessoas e de animais domésticos de possíveis ataques dos lobos. De acordo com o Padre Manuel Alves Catharino, na sua monografia do Concelho de Proença-a-Nova, a Mó era habitada em 1911 por 78 pessoas (em 18 fogos), sendo que o número de fogos aumentou para os 20 em 1930, não sendo revelado o número de moradores. Hoje os habitantes não chegam à dezena, número que aumenta aos fins de semana e altura de férias, com o regresso dos filhos da terra. Na altura de Lucília Ribeiro Pires, de 72 anos, estudava-se na Mó até à terceira classe e a quarta já tinha de ser feita em Alvito da Beira. A sala, improvisada numa casa particular, chegou a receber alunos da Dáspera, enquanto não foi construída uma escola nesta aldeia. José Maria Gonçalves, mais novo, não teve essa sorte pois já teve de fazer a escolaridade na sede de freguesia.

Na aldeia existe a Fonte dos Amores, uma fonte de mergulho protegida por um olival que era um dos locais perfeitos para se namorar, quando as moças iam à fonte com os asados – cântaros de barro de duas asas – buscar água. Raul Ribeiro Gonçalves, de 78 anos, recorda-se também dos muitos bailaricos que animavam a juventude da Mó, realizados ao lado da taberna da aldeia. Não dispondo de uma Igreja, os moradores da Mó deslocavam-se a pé até Alvito da Beira para ir à missa. Ainda assim, no mês de maio juntavam-se diariamente numa casa onde rezavam o terço em louvor de Nossa Senhora de Fátima e comemoravam efusivamente o São João, com um pinheiro bem alto a ser queimado durante a noite. Quanto à encomendação das almas vinha um grupo do Alvito cumprir a tradição; já as janeiras eram feitas pelos locais. Nas peregrinações à Senhora da Saúde no Padrão, no vizinho concelho de Castelo Branco que se avista da aldeia, muitos peregrinos passavam pela Mó, juntando-se também à procissão moradores desta aldeia na demonstração da sua fé. Hoje, de todas as tradições só se mantém a queima do madeiro de natal. 

 MOITAS

Ó minha Moita, terra de encanto

És o meu berço que eu amo tanto

Querida Moita, encantadora

És consagrada à Nossa Senhora

Como nossa terra não há outra igual            

Ela faz honras ao nosso Portugal

… haja alegria

Não queremos mais durante o dia

Queremos que brilhe a nossa terra

Que vive alegre ao pé da serra

Moita do Santo (antigamente Moita do Cabrito), Moita do Grilo, Moita Mateus Alves, Moita Pedro Domingos e Moita Pinheiro: são estes os nomes dos diferentes aglomerados populacionais a que se referem as pessoas quando genericamente falam das Moitas. Em 1911, estes diferentes núcleos eram habitados por 237 pessoas, distribuídas por 45 fogos. Mas desde há cerca de cinco mil anos que estes territórios, localizados a nove quilómetros da sede do concelho, têm sido refúgio e casa, como atestam as mais recentes escavações arqueológicas nas antas e mamoas que existem no concelho e, em particular, nas Moitas.

João Caninas, arqueólogo da Associação de Estudos do Alto Tejo, tem a convicção que a palavra Moita (ou Mouta, como se escrevia antigamente) “é equivalente ou tem a mesma origem da palavra Mota - de uso mais corrente no norte de Portugal - e desse modo não significaria tufo arbustivo, mas pequeno monte de terra artificial. De fato, há muitas sepulturas megalíticas com mamoa no norte de Portugal associadas ao topónimo ou nome Mota, que desse modo designava a mamoa. Mais a sul tenho constatado a associação da palavra Moita a mamoas dado que a forma Mota não aparece como topónimo no sul ou centro/sul”, refere João Caninas. Por enquanto, esta teoria está a aguardar “confirmação objetiva da parte dos etimologistas que contactei para o efeito”, afirma.

É junto às Moitas que se localiza, no muito adequado topónimo Cabeço da Anta, a maior anta do distrito de Castelo Branco, ainda em fase de estudos pela equipa de arqueólogos e estudantes de arqueologia que todos os verões passam algumas semanas em trabalho de campo. Já a Anta do Cão do Ribeiro encontra-se totalmente recuperada e visitável. Aliás, o percurso pedestre PR1 “A História na Paisagem”, com início e fim junto à Igreja das Moitas, leva os caminheiros pelos principais monumentos megalíticos, passando ainda no Centro Ciência Viva da Floresta, equipamento mais recente que, desde que foi inaugurado em 2007, já trouxe mais de 120 mil visitantes à localidade, e pelo Aeródromo das Moitas, onde se localiza o Centro de Paraquedismo e o Centro de Coordenação de Meios Aéreos.

Alzira Cardoso, Maria Alice Cardoso, Rosário Dias e Fátima Farinha, todas moradoras na Moita, referem notar o aumento de turistas na localidade, principalmente na época de verão. Do património existente, o destaque vai para a Capela de S. Gens. Numa época em que ainda não havia capela nas Moitas, perdendo-se nas histórias contadas a referência temporal, várias povoações queriam construir a capela em louvor de S. Gens mas o Santo sempre regressava ao campo onde corria o ribeiro com o seu nome, dando conta que “O levassem para onde a água corresse para S. Gens”. E foi assim que o Santo ficou na capela construída na Moita do Cabrito, passando a ser conhecida como Moita do Santo. Quando a capela já apresentava um avançado estado de degradação, o povo das Moitas e dos povos vizinhos de Casal D’Ordem, Espinho e Vale das Balsas decidiu construir uma nova capela, na parte mais elevada da Moita do Santo, não havendo notícia que o Santo tenha tentado fugir da nova casa, que começou a ser construída em 1965.

A 1 de maio de 1968, o jornal “Notícias da Nossa Terra” falava da devoção de um povo que arregaçou as mangas para construir a igreja, tendo todos dado serventia para que a Capela se construísse. “Quando as paredes começaram a sair dos alicerces e se vislumbrou o tamanho da obra, houve quem arreceasse. Parecia plano acima das forças do povo, apenas 150 moradores, todos eles agricultores e jornaleiros, passando os dias a cavar a terra para se poderem governar. No entanto, a fé e a união venceram a pobreza”. No domingo de pascoela de 1968, a 21 de abril, foi feita a inauguração e benzida a imagem do Coração Imaculado de Maria, mantendo-se ainda hoje a tradição de fazer a festa no fim de semana a seguir ao domingo de Páscoa. S. Gens, advogado do fastio, é o santo da devoção: no dia da Festa, peregrinos de muitas terras vizinhas vinham cumprir promessas à porta da Capela, entregando grossas fatias de pão aos mais pobres.

O espírito de sacrifício de todos quantos contribuíram para construir a Capela foi recordado recentemente, quando a Associação Desportiva, Cultural e Recreativa das Moitas chamou a si a tarefa de requalificar o Centro Social, conseguindo arranjar o investimento necessário para a intervenção. Para além de dinamizar a festa anual, a ADCR participa noutros eventos organizados pelo Município, como a Feira da Tigelada e do Mel ou a Festa do Município.

Apesar do sacrifício, as Moitas sempre celebrou com muito entusiasmo as tradicionais festas populares, como o São João – feito no Cabeço do São João, o Santo António, a Encomendação das Almas, o Sagrado Lausperene ou o madeiro de Natal. O bailarico acontecia quando todos se juntavam para desencamisar o milho e noutros momentos do calendário agrícola. No Entrudo, havia quem se mascarasse e pregavam-se partidas diversas como as caqueiradas - em que se colocavam canecos e outros objetos à porta das casas e quando os moradores saíam tropeçavam fazendo uma grande caqueirada. Também se serravam as velhas, para desgosto de quem era visado.

 MONTE FUNDEIRO, MONTE RODRIGO e BORRACHEIRA

São Pedro a capital onde se realiza tudo

Onde trajam as meninas à fama do entrudo

Vale das Mantas é airoso, situado num outeiro

Ligado com a Palhota dá vistas ao adeleiro

Lá está a Lameira D’Ordem, para dançar tem tretas

A Cardosa toca o bombo, e a Elias as castanhetas

Ao Monte Fundeiro passei, só uma vez ao serão

Ó menina traz cá a picheira que eu dou-te o meu coração  

 

Os campos a perder de vista, que neste quase início de primavera já começam a florir, eram há algumas décadas totalmente ocupados por cearas. Nesta fase do ano, os homens estariam muito ocupados a lavrar as terras, quase na íntegra destinadas à plantação de cereais face à ausência na paisagem dos pinheiros, eucaliptos e estevas que hoje predominam. Pertencentes à freguesia de São Pedro do Esteval, as aldeias vizinhas de Monte Fundeiro, Monte Rodrigo e Borracheira localizam-se na zona que ficou conhecida como o celeiro do concelho, tal a importância da produção de cereais nesta região, mais plana e mais quente do que nas restantes freguesias. E também com terrenos mais áridos. Passavam semanas e semanas na lavoura, trabalho duro feito pelos homens, enquanto as mulheres se dedicavam depois à monda do trigo (arrancar as ervas). No início do verão todos se dedicavam à ceifa e à malha do cereal. As oliveiras, a apicultura ou o linho eram outras das atividades que ocupavam as pessoas. A proximidade ao Rio Ocreza permitia a pesca e servia também para as mulheres lavarem a roupa, o que por vezes obrigava a acampar junto ao curso de água de um dia para o outro, juntando-se o trabalho ao convívio.

A monografia do concelho de Proença-a-Nova, da autoria do Padre Manuel Alves Catharino, revela que já em 1759 havia 10 fogos nestas três aldeias, sendo o Monte Rodrigo a que reunia mais habitantes. Com o passar dos anos, o cenário inverteu-se e o Monte Fundeiro passou a ser a localidade mais habitada, registando em 1911 cinco famílias e 36 habitantes. Borracheira e Monte Rodrigo tinham três fogos cada, com 15 e 13 moradores, respetivamente. Hoje o cenário é muito diferente. Júlia Cardoso Martins, José Cardoso e Olinda Cardoso Martins, todos com mais de 75 anos, referem um tempo em que existia um Posto de Ensino no Monte Fundeiro, a funcionar numa casa particular, em que se ensinava até à terceira classe. A quarta classe já tinha de ser feita na sede da freguesia. Posteriormente, os alunos passaram a frequentar a Escola Primária na vizinha Palhota.

As relações de amizade com os vizinhos estendem-se ao campo da religiosidade. Não havendo Capela nestas localidades, os seus habitantes têm o costume de ir aos domingos à Senhora da Saúde, na Lameira D’Ordem, e noutras ocasiões a São Pedro. Ainda hoje cumprem a tradição, relatada pelo Padre Manuel Alves Catharino, de todos os 22 de fevereiro irem à sede de freguesia assistir à celebração litúrgica. Na monografia lê-se que este era o “cumprimento dum voto feito pelo povo de Proença a S. Pedro por causa do flagelo dos insectos que devastaram hortas e searas e em tal quantidade que caíam nos cântaros da água que as mulheres traziam das fontes. Êste dia era considerado de guarda em Proença e ainda hoje há pessoas que, neste dia, não vão à fonte nem à horta”.

Também as Janeiras continuam a ser feitas ao nível da freguesia, com um conjunto de homens a cantar e a pedir em todas as localidades numa única noite. Antigamente, esta missão requeria esforço adicional, fazendo-se o peditório a pé - normalmente no último sábado de janeiro - e carregando às costas a generosidade do povo que ofertava o que tinha. No dia seguinte, os bens recolhidos eram então leiloados no fim da missa. No caso da encomendação das almas, a tradição era cumprida na Palhota mas a ladainha dos cantos seculares ouvia-se muito para além do ponto de origem. Para além das festas motivadas pela religião, em que se saltavam as fogueiras de São João e se acendia o madeiro de Natal, os bailaricos eram comuns na vivência do povo, até porque havia muitas mulheres nestes montes. “Os moços vinham para aqui muito”, refere João Cardoso. Na altura da Quaresma, em que não se podia dançar, faziam-se jogos, em que se destacam «os cabaços». Moças e moços separavam-se em dois grupos, e elas estabeleciam pares com os rapazes sem estes conhecerem qual o seu par. Eles chegavam-se então ao pé delas e perguntavam: “Tu queres-me?” Se o par não correspondia, elas respondiam com um assertivo “não te quero”: chamavam aquilo um cabaço! Quando o par correspondia, já ficavam mais animados.

Não é totalmente clara a origem dos nomes Monte Rodrigo e Monte Fundeiro, este último assim batizado talvez por ser a povoação do fundo, quase a paredes meias com a fronteira natural criada pelo Rio Ocreza. Quanto ao nome da Borracheira, contavam os mais antigos que poderia estar relacionada com a história de três mulheres desta zona, almocreves que transportavam azeite em couros, que eram bêbadas. Durante a Quaresma foram confessar-se ao padre que lhes conhecia a propensão para a bebida, dando-lhes uma penitência: “vocês podem-no beber, não podem é falar nele”. Foram então comer uma sopa de pão enquanto se lamentavam da sua sorte. Disse uma: “Ai dele, ai dele”. Disse outra: “Mas quem é que há-de passar sem ele?”. “Põe-se o dinheiro, puxa-se por ele e não se fala dele!”, sugeriu. Colocaram então as moedas certas no balcão e foi-lhes servido o vinho sem terem falado nele. Alguém que assistiu à cena comentou: “Ai as borracheiras que ali estão!”. Houve até um padre que se ofereceu para tirar o nome Borracheira, substituindo-o por Monte Cimeiro, em troca de um cabrito. Mas acabou por não acontecer, mantendo-se a Borracheira junto ao Monte Rodrigo e ao Monte Fundeiro.

 MONTES DA SENHORA: ALDEIA CIMEIRA, MONTE DE CIMA, MONTE DO MEIO, MONTE DE BAIXO, MONTE BARBO e MONTE TRIGO

São seis as aldeias que compõem os Montes da Senhora, todas elas localizadas muito perto umas das outras e com fortes laços de amizade, familiares e de tradição partilhada. De acordo com os censos de 1911, o Monte de Cima era o mais povoado, com 43 fogos e 188 habitantes, seguindo-se o Monte de Baixo (38 fogos e 183 moradores), a Aldeia de Cima (25 / 137), o Monte do Trigo (19 / 110 habitantes), o Monte do Meio (7 / 29) e o Monte do Barbo (11 / 23), num total de 143 fogos e 670 habitantes. Até 1921, os Montes da Senhora pertenciam à freguesia de Sobreira Formosa e, nesse ano, tornaram-se Freguesia, estatuto que ainda mantém nos dias de hoje. Chegou a ter escola para rapazes e escola para raparigas. No fim do ano oferecia-se um galo ao professor, acompanhado com a seguinte ladainha: «Este galo é ladrão | foi ao vale do Sarrão | comeu pepinos e melões | e cevada quanto a quis | nós o levamos ao juiz | carregadinho de correntes | nosso mestre come o galo | nós ficamos bem contentes | viva o galo!»

O orago dos Montes da Senhora é a Nossa Senhora do Pópulo:

Nossa Senhora do Pópulo

Bem pertinho estais da fonte      

Sempre foste e hás de ser

A padroeira dos Montes

 

Nossa Senhora do Pópulo

Duas coisas te dão graça

É o relógio na torre

E a oliveira na praça

 

Nossa Senhora do Pópulo

É mãe de quem a não tem

Eu hei-de pedir ao Senhor

que seja a minha também

Nossa Senhora do Pópulo

É muito bonitinha

Se eu me chegar a casar

Há de ser a minha madrinha

 

Nossa Senhora do Pópulo

Está virada para o sol posto

Para lembrar os rapazes

No dia 15 de agosto

 

Nos Montes da Senhora

Tenho quem me queira bem

É a Senhora do Pópulo

E é mais alguém

O culto a Nossa Senhora do Pópulo é bastante antigo, tal como a imagem que se encontra na Igreja e que, à semelhança da oliveira da praça, ninguém sabe quantos anos tem. Algumas utentes do Centro de Dia e moradoras dos Montes da Senhora contam a lenda que envolve a Nossa Senhora do Pópulo tal como a ouviram contar dos mais antigos: o povo quis construir uma igreja para a imagem num local chamado de Vale da Igreja, à saída dos Montes, mas quando a levavam para lá, esta regressava a uma azinheira da sua predileção. Esta situação repetiu-se por várias vezes, com a particularidade de um denso nevoeiro cobrir tudo no dia em que a imagem mudava de sítio. Estando desconfiados de que poderia haver alguém responsável pelo inexplicável, decidiram colocar terra no caminho entre a azinheira e o Vale da Igreja para assim descobrir os autores da brincadeira. “O nevoeiro voltou a cobriu tudo e, no dia seguinte, viram estupefactos os rastinhos da Senhora, desde a capela até ao seu lugar predileto”, refere M. Assunção Vilhena no livro “Gentes da Beira Baixa”. A imagem de Nossa Senhora do Pópulo atravessava a ribeira num local que tem a toponímia de Porto de Santa Maria. Foi então que o povo decidiu construir a igreja junto à azinheira para albergar a imagem de Nossa Senhora do Pópulo. No final dos anos 40, essa igreja seria desmanchada para dar lugar ao atual edifício, inaugurado em 13 de agosto de 1950. Durante as obras descobriram um troço de azinheira por baixo do altar mor.

A fé do povo dos Montes da Senhora vê-se também na altura da Páscoa e da Quaresma. Antigamente, quando na Sobreira Formosa se realizava, na Quinta-Feira de Endoenças, a procissão dos Passos do Senhor, o povo dos Montes ia para um ponto da aldeia com vista para a Sobreira e colocavam pinhas no cimo de paus que acendiam com o objetivo de alumiar o Senhor. Faziam também a Via Sacra e rezavam as Excelências: «Ó almas benditas que lá estais esperando pelas excelências que estamos rezando | também as ofereço ao São Joaquim, às alminhas santas que peçam por mim | também as ofereço ao meu São José e às alminhas santas que lá estão ao pé | Também as ofereço ao meu Santo António, que nos venha livrar do fogo do purgatório». Maria do Carmo, com 90 anos, adianta que a ladainha se repete 12 vezes “e ao fim é sempre ‘Ao meu bendito que lá estais esperando, as Excelências estamos rezando’”. No dia de quarta-feira de cinzas ninguém ia à fonte e na quinta-feira santa ninguém apanhava couves.

Carnaval, São João ou Natal eram outros momentos que a comunidade vivia intensamente e aos domingos realizava-se o bailarico que permitia juntar rapazes e raparigas em saudável convivência.

I

Na minha terra era assim

Nos tempos de antigamente

Trabalhávamos no campo

Cantávamos alegremente

II

Quando chegávamos à noite

Não tínhamos televisão

Para a gente se distrair

Íamos até ao serão

III

Íamos até ao serão

Não íamos para brincar

As velhas fiavam linho

As novas era a bordar

IV

Os homens que são malandros     

Não iam para trabalhar

Mas também faziam falta

Para anedotas contar

V

Homem pobre e trabalhador,

Tinha uma missão a cumprir

Deixava a mulher e os filhos,

Para o Alentejo tinha que ir

VI

Para o Alentejo tinha que ir

Naquela grande missão

Para aquelas grandes searas

Todo o dia ceifar pão

VII

A mulher ao chegar à noite,

Já cansadita do monte

Pegava no asado,

Ainda tinha que ir à fonte

VIII

As raparigas solteiras,

‘Mãe não há água no asado’

Mas às vezes era um pretexto

para vermos o namorado

IX

Se chegássemos à fonte

E enchêssemos o asado

Se tocassem as trindades

O namoro estava acabado

As quadras ditas por Maria do Carmo Mendonça retratam a vivência do povo dos Montes da Senhora noutros tempos. As cerejas, os limões, a resina e o olival sempre fizeram parte da economia da terra. Atualmente, a localidade recebe todos os anos o Festival da Cereja que inclui um encontro de ranchos, promovido pelo Grupo de Danças e Cantares de Montes da Senhora. Também a Liga dos Amigos dos Montes da Senhora dinamiza a Corrida das Cerejas e os Montes de Rock’N Roll que, na sua terceira edição, promete criar novas dinâmicas na sexta-feira santa nos Montes da Senhora.

 MURTEIRINHA

Os campos em redor da Murteirinha estão repletos de estevas em flor, com o branco a destacar-se na paisagem, avistando-se também algumas pinceladas de giestas amarelas. No primeiro dia do mês de maio, há algumas décadas, a tradição mandava que todos se levantassem antes do sol nado e que enfeitassem as portas das casas e dos currais com flores do campo e um raminho de oliveira. Também era tradição fazer um bolo “no primeiro de maio para enganar o maio, que o maio era longo”, recorda Maria Luísa, de 84 anos. A tradição já não se cumpre hoje em dia na Murteirinha, localidade pertencente à freguesia de São Pedro do Esteval mas onde, curiosamente, não existiam estevas em tempos idos, como recorda Lucinda Cardoso, de 68 anos. Não havia pinheiros nem eucaliptos, os cabeços estavam todos ocupados com cearas a perder de vista e todas as famílias semeavam centeio, trigo e aveia, e o milho nas várzeas, para ter farinha todo o ano. Também as oliveiras abundam na paisagem, sendo este um importante recurso, bem como o linho que levava muitas voltas até ser fiado.

Em 1759, havia quatro casas na Murteirinha, de acordo com os censos publicados pelo Padre Manuel Alves Catharino na monografia sobre o concelho de Proença-a-Nova. Em 1911, já se registaram 17 fogos e 74 habitantes, devendo ainda a população morar no núcleo original da aldeia, composto por casas de xisto construídas muito próximas umas das outras, provavelmente para maior proteção de pessoas e animais. Nascida na vizinha aldeia da Redonda, Maria Luísa adianta que quando chegou à Murteirinha, em 1956, a sua casa foi das primeiras a ser construída fora desse núcleo, exemplo que foi seguido por muitas outras pessoas, criando novas centralidades na aldeia. Em 1960, moravam aqui 150 pessoas e em 2011 esse número desceu para os 70 moradores. Atualmente, são 38 as casas da Murteirinha que ainda têm moradores, mas a maior parte das antigas casas de xisto deixaram de ser utilizadas; algumas foram recuperadas e outras mostram os sinais da passagem do tempo, tendo sido testemunhas de tradições que já não se fazem.

A primeira escola da Murteirinha localizava-se numa casa particular até ser construído um edifício de raiz onde funciona atualmente o Centro Cultural e Recreativo da Murteirinha. Nos primeiros tempos, só se ensinava até à terceira classe e quem queria continuar a estudar tinha de se deslocar até à vizinha Palhota, num percurso feito a pé. Foi o caso de Lucinda Cardoso que se juntava aos vizinhos da Lameira D’Ordem para não ir sozinha. Também as idas à missa eram feitas a pé, com as raparigas a fazerem juntas o caminho até São Pedro do Esteval, levando os sapatos de domingo num saco, que trocavam à chegada à igreja. O regresso era feito em conjunto com os rapazes, terminando o dia com o bailarico, exceto na Quaresma quando não era permitido dançar e cantar.

No dia de Páscoa, a população da Murteirinha enfeitava as ruas com junco para receber a visita do padre e nos dois dias seguintes fazia a festa da aldeia, com grande destaque para a terça-feira quando se fazia o baile. Posteriormente, a festa passou a ser celebrada apenas no Dia de Páscoa. A meio da Quaresma, havia o costume de serrar as velhas em que se tocavam chocalhos e batiam panelas e outros objetos ruidosos à porta das pessoas mais idosas, para desagrado de alguns dos “serrados”. O São João também não era esquecido e, no cabeço mais alto da povoação, erguia-se um pau alto ao redor do qual se juntavam paus mais pequenos e mato para queimar na noite de S. João. E do alto desse monte, viam-se as enormes fogueiras que os vizinhos também acendiam para celebrar o santo, numa altura em que não havia o perigo dos incêndios que há hoje. Ainda há quem, agora, faça a fogueira à porta de casa, queimando alecrim, amor de deus, murta e capela e fazendo as capelas de S. João. Maria Luísa refere que na Redonda faziam-se as capelas com a murta que existia abundante na Ribeira da Freixada. Mas na Murteirinha – que poderia derivar da palavra murta – não existia esta espécie botânica, pelo menos de forma muito expressiva, pelo que a origem do nome continua um mistério.

Em outro ponto da Ribeira da Freixada, mais próximo da povoação, era frequente ver as famílias da Murteirinha a lavar as roupas de cama assim que começava a fazer calor, transportadas em carroças, num dia de muito convívio entre todos. Na aldeia, a fonte ficava longe das casas e Lucinda Cardoso perdeu a conta às vezes em que desceu o carreiro para buscar água para consumo, mas lembra-se dos vários cântaros de barro – os asados – que partiu nessas viagens e dos sermões que se seguiram. Agora, com a água canalizada, o dia-a-dia tornou-se muito mais facilitada.

 OLIVEIRAS

Nos dias em que se celebram o Santo António, o São João e o São Pedro, a aldeia de Oliveiras costumava acender e saltar as tradicionais fogueiras havendo, no entanto, algumas particularidades nos dois primeiros santos: a 13 de junho, os moradores que tinham rebanho distribuíam o leite pelos habitantes que não tinham cabras, como forma de pedir proteção ao Santo António, conhecido como o advogado dos animais, para o resto do ano. Já na véspera de São João, as raparigas da aldeia levavam os vasos com as flores mais bonitas para enfeitar a fonte - sem pedir autorização aos donos - e no dia seguinte todas queriam ser a primeira a “tirar a olha da água do São João”, ou seja, ser a primeira a servir-se da água. “Nem dormíamos”, brinca Maria do Carmo Dominguez, que nasceu nas Oliveiras há 77 anos, pois eram formulados desejos, normalmente relacionados com namorados.

A fogueira de São João era a mais imponente, ardendo num dos cabeços sobranceiros à aldeia, com vistas arejadas para as localidades vizinhas. Pelo mesmo motivo, era neste local que na quinta-feira Santa se alumiava o Senhor, com alguns habitantes a acenderem pinhas de modo a formar um O – de Oliveiras – que se visse ao longe. “Nós íamos na procissão na Sobreira Formosa e víamos tudo, o O de Oliveiras, o P de Penafalcão e o CN de Casanova”, recorda. Na segunda-feira de Páscoa, a aldeia enfeitava-se para receber a visita do senhor Padre que ia dar Jesus a beijar. As ruas eram atapetadas de junco e as casas preparadas para receber ilustre visitante, a mesa posta com o melhor que a casa tinha para dar. A tradição já acabou há alguns anos, mas a devoção continua.

Não havendo igreja, as pessoas deslocam-se à Sobreira Formosa, sede da freguesia, para cumprir o preceito. Outras tradições adaptam-se aos espaços disponíveis e rezava-se o terço a Maria, durante o mês de maio, na casa de alguém, hábito que também se cumpre atualmente. Tal como a fogueira de Natal: “o meu pai gostava muito da fogueira, mas vinha sempre espreitar a casa pois a primeira filhó que se fazia era ele que a comia”, refere Maria do Carmo Dominguez. No dia 1 de maio, todas as crianças e jovens iam para o campo apanhar flores com as quais construíam cordões, coroas e pulseiras. “Nos intervalos da linha acrescentávamos botões de rosa; depois, carregávamos a criança mais novinha da aldeia com os cordões, as pulseiras e a coroa e andávamos pelas portas a pedir e cantávamos o Vitó ó Maio às cachopas”. Sendo a mais nova das Oliveiras, Maria Dulce Silva foi por dois anos a portadora das flores. Agora com 64 anos, lembra-se das idas à fonte com o cântaro à cabeça em que a expetativa de encontrar os rapazes da sua idade era muita. “Às vezes entornávamos a água só para lá ir outra vez”.

Uma das recordações mais fortes dos atuais moradores desta aldeia, prende-se com o mar de gente que morava no núcleo de xisto das Oliveiras. De acordo com os censos, em 1940 esta localidade tinha 104 moradores, o maior número registado entre 1911 e 2011. A partir de 1960, a população foi diminuindo a olhos vistos. Tal como muitas outras pessoas, Maria do Carmo Domingues e Maria Dulce Silva, irmãs, fizeram vida noutras zonas do país, acabando por regressar depois de reformadas. E é por estes regressos às origens que entre os Censos de 2001 e de 2011, a população da aldeia aumentou em quatro moradores, de 18 para 22.

Maria do Carmo Fernandes mora há 45 anos nas Oliveiras, a terra natal da sua mãe que casou no Pucariço; e ela, que nasceu no Pucariço, acabaria por casar nas Oliveiras. Recorda-se do rebuliço da aldeia que se manifestava, por exemplo, na hora de cozer o pão. Havendo apenas um forno comunitário, era necessário marcar vez, e não eram poucas as ocasiões em que se cozia pão pela noite dentro, motivo para se reunir um grupo que fazia companhia a quem trabalhava. “Era uma festa”. Hoje, ainda é possível sentir o cheiro do pão a cozer nas Oliveiras, mas com muito menos frequência do que antigamente.

A construção da barragem da Fróia, cujo ribeiro passa bem próximo da aldeia, e o consequente aproveitamento para Praia Fluvial, fez com que o número de turistas aumentasse. Face ao potencial do turismo de natureza, Custódio Tomé, com raízes na aldeia, comprou e recuperou várias casas de xisto que transformou em Alojamento Local, valorizando o património construído. Quem vê as Oliveiras ao longe, ou passa pela estrada principal em direção a um dos estacionamentos da Praia Fluvial da Fróia e ao Centro de BTT, dificilmente tem a perceção do núcleo de xisto existente, protegido por casas de construção mais recente, e do emaranhado de ruelas, onde não passam carros. As ruas arranjadas, cuidadas e floridas - onde até as couves enfeitam caminhos - convidam a um passeio mais demorado, apreciando recantos e descobrindo histórias. Tempos houve em que para uma maior proteção dos habitantes, as Oliveiras eram fechadas por duas cancelas que já não existem a não ser na toponímia da povoação, que tem a Cancela Cimeira e a Cancela Fundeira.

É nas casas de xisto que Vasco Dominguez encontra inspiração para construir as suas miniaturas que apresenta em alguns eventos organizados no Município. Não sendo das Oliveiras, casou aqui há 51 anos, numa festa que durou três dias e em que não faltou o afogado da boda e o maranho. São dos seus pratos preferidos. O mesmo não pode dizer da salada de almeirão com feijão. “Pelo que a minha mulher conta, a vida aqui era mais difícil do que na cidade”, refere. Agora que os tempos são outros, a qualidade de vida nas Oliveiras é de longe melhor do que aquela que se regista nas grandes cidades. 

 PADRÃO

Da antiga escola primária do Padrão, hoje sede da Associação Desportiva, Cultural e Recreativa desta localidade, avista-se o Rio Ocreza serpenteando por entre montes de oliveiras, de pinheiros e eucaliptos. As marcas nas margens mostram que o nível da água já desceu alguns metros neste início de verão, dando conta do ano pouco chuvoso que se tem registado até ao momento. Ainda assim, o rio só é visível agora pois entre 1947 e 1950 foi construída a barragem da Pracana na foz da ribeira com o mesmo nome, onde se junta com o Rio Ocreza. Com 60 metros de altura acima da fundação, esta barragem alterou significativamente a paisagem. Joaquim Mendes Henriques, que nasceu no Padrão há 69 anos, refere que antigamente as melhores oliveiras eram as que se encontravam nas margens do Ocreza, oliveiras centenárias de troncos grossos que produziam azeite de primeira qualidade e que deu fama a esta zona do concelho. Com a barragem, as oliveiras existentes nos dois lados das margens ficaram submersas, tendo os habitantes tido a preocupação de cortar pernadas para as plantar noutros pontos das encostas sobranceiras aos cursos de água, perpetuando a espécie. “Agora está tudo abandonado”, lamenta-se.

Até 1970, o Padrão foi a aldeia mais povoada da freguesia de São Pedro do Esteval: em 1759 tinha 42 habitações - o Padre Manuel Alves Catharino, autor da monografia sobre o concelho de Proença-a-Nova, não tem dados quanto ao número de habitantes nesse ano, mas em 1911, em 58 fogos, havia 248 pessoas. Nos censos de 1940, já eram quase 500 habitantes, número significativamente superior aos 183 da sede de freguesia. Os censos mais recentes, de 2011, dão conta de 49 moradores e este despovoamento é, em grande medida, responsável pela alteração da forma como se vive o território. Onde hoje se veem pinheiros e eucaliptos, antigamente viam-se searas e rebanhos de cabras que ajudavam a manter a pouca floresta existente limpa de matos. “Qualquer pessoa aí tinha 100 alqueires de trigo, havia cinco eiras e tínhamos um moinho nosso, na ribeira da Pracana, que a população fez e todos tinham horas para moer. Hoje está abandonado”, refere Joaquim Mendes Henriques.

A construção do moinho acabou por facilitar a vida às mulheres da aldeia. Quando ainda não havia luz elétrica, a roupa era lavada à mão, primeiro no Vale da Videira e quando aqui deixava de haver água, deslocavam-se para a ribeira da Pracana com os cestos de vime à cabeça, a única forma de chegar junto à margem. A abertura do caminho de acesso ao moinho permitiu que esse transporte passasse a ser feito em carroças. Foi no início dos anos 80, durante o mandato do Padre António Sousa na Câmara Municipal, que chegou ao Padrão a luz elétrica, a água canalizada e o calcetamento das ruas, contribuindo para um maior conforto. As obras foram realizadas com o apoio dos moradores. “Todas as covas para se colocarem os postes daqui para São Pedro foram feitas pelo povo e dentro da própria aldeia cada um é que as teve de fazer de borla”.

O rio e a ribeira continuam hoje a ser parte integrante da vivência dos habitantes do Padrão que pescam barbos, carpas e achigãs do Ocreza ou utilizam a Pracana para mergulhar assim que o tempo permite já que, por ter menos caudal e corrente, é mais segura para as brincadeiras de verão. Na sua altura, os banhos eram intercalados com a apanha de peixe debaixo das pedras. Gosto que ficou e que Joaquim Mendes Henriques repete ainda hoje: as suas sopas de peixe, feitas com o que pesca, são bastante conhecidas e apreciadas, revelando o modo de preparação: primeiro refoga-se alho, cebola e tomate e junta-se água. “O poejo não pode lá faltar”. E quando está a ferver coloca-se o peixe, de preferência barbo “que é o que dá mais qualidade à sopa”. Conhecedor do Ocreza, diz que há novas espécies predadoras que põem em risco as tradicionais e alerta: “qualquer dia não temos peixe no rio”.

Quanto às tradições do Padrão, a festa anual realizava-se na última segunda e terça feira de agosto, mas para permitir que mais pessoas participassem nos festejos alterou-se para o último fim de semana desse mês. A capela do Padrão, em honra de São João Baptista, é bastante antiga. Diz o Padre Manuel Alves Catharino que a sua criação foi pedida a 27 de maio de 1827, mas no decorrer das obras de ampliação do edifício, realizadas na década de 60, foi descoberta a data de 1812. O Padre refere ainda que foi encontrada nesta povoação, “de antiquíssima origem”, um tesouro arqueológico que inclui uma taça com caracteres iberos. As janeiras são cantadas em fevereiro mas apenas pelos locais do Padrão: na restante freguesia, um grupo de homens percorre todas as localidades. O resultado do peditório era leiloado juntando muitas pessoas de aldeias vizinhas, inclusivamente de outros concelhos, que aqui encontravam uma oportunidade para comprar azeite, mel, queijos, cereais e enchidos. Na altura do São João costumava-se cortar um pinheiro que era enterrado no chão, ao que se juntava os restos do centeio que se ceifava nos terrenos, rosmaninho, barba de velho (marcelas) e alecrim, colocando-se a arder. Faziam-se bailaricos e saltavam-se as fogueiras mais pequenas: “O pinheiro era mais alto do que esta casa e nunca havia incêndios”. Atualmente, só se mantém a tradição do madeiro de Natal.

Por saber fica a origem do nome do Padrão (contavam os antigos que havia uma aldeia junto à ribeira, chamada de Vila de Vilares, que acabou por desaparecer, não havendo registos desse antigo povoado) e a história do Conde que viveu nesta localidade.

 PALHOTA

Percorrendo a Estrada Nacional 351, em direção a sul, descobrimos as planícies que se estendem até ao Rio Ocreza e, no final de uma estrada estreita, encontramos a aldeia da Palhota, na freguesia de S. Pedro do Esteval. As marcas da paisagem deixam revelar a presença das eiras, locais onde se malhava o trigo, o centeio e o milho. Já o padre Manuel Alves Catharino, na Monografia do Concelho de Proença-a-Nova, caracteriza esta zona como uma região onde “predomina a cultura do cereal, em prados e campos coletivos, terrenos pobres e áridos, mas azeite de 1ª qualidade”, qualidade essa que ainda se mantém, garante José Tavares, o aldeão mais antigo da Palhota, e que foi lagareiro durante mais de 20 anos. O homem dos três ofícios - como se autointitula - recorda o espírito de comunhão e amizade das gentes da Palhota, quer nos dias de trabalho (na ceifa, na desfolha do milho, nas vindimas e outros trabalhos agrícolas), quer nos dias de convívio ou de tristeza.

António José Tavares ainda se lembra nos tempos de criança desta entreajuda. Nas noites quentes de setembro dormiam nas eiras para guardar os cereais, nos serões desfolhava-se o milho, contavam-se histórias e começavam as vindimas. “Andavam 10 homens a malhar o milho um dia inteiro”, acrescenta o pai de António e ambos explicam a espécie de “dança” sincronizada, mas muito dura. Era importante manter o ritmo certo porque, colocados em duas filas, frente a frente uns dos outros, não podiam falhar. Cada fila dava a pancada nos cereais à vez, num compasso certo. Lagareiro no inverno e moleiro de verão, José Tavares, hoje com 90 anos, tem ainda na memória os verões que trabalhava no moinho da aldeia vizinha de Naves. “Íamos semear até ao meio dia, a mulher ficava a lavrar com os bois e eu ia para o moinho para fazer o dia até a noite”. 

Filipe Miguel Martins, atual presidente da associação da Palhota, refere a amizade às famílias enlutadas - “as pessoas eram mais unidas do que são agora” - com o hábito por altura da Páscoa, Natal ou na matança do porco, de levar um cestinho de alimentos para confortar os vizinhos que tinham perdido os entes queridos. Outra demonstração da união da população era o “crescente”, ou seja, a massa azeda que servia de fermento e que andava de casa em casa para que todas as famílias tivessem maneira de levedar a massa do pão. Os tempos eram pobres, mas a mesa era farta, pois “toda a gente tinha dois porcos para o sustento da família e semeava-se pelos cabeços”.

De acordo com os censos de 1911, moravam 47 pessoas em 11 fogos. À Palhota ligam-se duas outras povoações: Atoleiro e Vale das Matas, tal como prega José Tavares nas muitas quadras que a memória ainda não apagou: “Vale das Matas é airoso, ligado com a Palhota, fica ao lado do Atoleiro”. Na mesma data, Vale das Matas tinha 16 fogos e 80 habitantes registados. A escola primária, que hoje está fechada, “no tempo” de António Tavares, na década de 60, tinha mais de 40 alunos, facto demonstrativo da elevada densidade populacional nesta zona tantas vezes descrita como “pobre e árida”, mas cuja população é de “ótima índole, muito honesta, laboriosa e crente” (Monografia do Concelho de Proença-a-Nova, padre Manuel Alves Catharino). Esta demografia contrasta com os atuais 30 e poucos habitantes, maioritariamente idosos, mas que ainda assim se juntam na sede da associação.

Fundada em 1970, a “Casa do Povo da Palhota” representa outra prova da ligação deste povo. José Tavares conta que foi um edifício construído integralmente pela população, onde ele também trabalhou, pois, além de ter sido lagareiro e moleiro também foi pedreiro. Com base nesses sentimentos de união se criam as coletividades para defesa e promoção dos interesses de cada povoação e para o convívio de gerações. São vários os exemplos desta confraternização na Palhota, alguns que perduram, como os convívios organizados pelos elementos da coletividade, e outros que se foram perdendo: é o caso das três equipas de futebol de cinco da aldeia. As taças e algumas fotografias nas prateleiras da associação mostram aqueles que defenderam as cores da Palhota nos campeonatos amadores disputados em São Pedro de Esteval. Com quase meio século de existência, esta associação é hoje o único café da aldeia, mas também o ponto de encontro dos que ainda lá vivem ou dos que a visitam. “Já não fazemos festa porque as pessoas são poucas, mas de vez em quando fazemos uma chanfana, uma feijoada, joga-se às cartas ao domingo à tarde, agora nos últimos dois anos também temos organizado uma garraiada. É uma forma de conviver”, conta António Tavares. Nos meses de maio e outubro, a “Casa do Povo da Palhota” também se enche para rezar o terço, cumprindo assim o primeiro objetivo desta associação: um local para estar ao serviço da comunidade.

A maioria das tradições preservadas ao longo dos tempos, e muitas ainda se mantêm hoje, estão ligadas à religiosidade popular e representa a união das gentes. A Palhota é exemplo dessa fraternidade ao longos dos tempos que, apesar do despovoamento, faz por manter o convívio entre os que ainda estão e os que aqui têm as suas raízes.

 PEDRA DO ALTAR

Seria pedra do altar | Em templo de rezar ofícios? | Ou simplesmente pra usar | Nalgum altar de sacrifícios? Hélio Proença “Um encantador apelo das raízes”

As marcas da pedra que deram o nome à aldeia Pedra do Altar ainda existem junto ao edifício que noutros tempos foi a igreja. Tal como verseja Hélio Proença, não se sabe ao certo a narrativa da “pedra da igreja”. Ao longo dos anos, esta história passa de geração em geração, mas a verdade é que já ninguém se lembra de ver a igreja naquele local. A Ti Prazeres Tavares Martins, de 80 anos, conta que a sua mãe morreu com 102 anos e nem ela se lembra de tal igreja, um facto que também demonstra a antiguidade da aldeia. Ao lado desta terá existido um cemitério, mas no local não há sinais de nenhuma das duas construções. O que se terá mantido até aos tempos atuais é a tão famosa pedra. No sítio onde todas as pessoas afirmam que terá sido essa dita igreja da Pedra do Altar existe uma casa abandonada, que já foi de habitação, mas também já foi uma taberna, como conta a D. Deolinda Catarino. No chão, mantêm-se as marcas do local de onde foi retirado o símbolo da Pedra do Altar e que está resguardado dentro da capela atual, junto à Estrada Nacional 241. A tal “pedra” trata-se de uma pia de água benta em cantaria de granito, composta por taça, de bordo simples, que nas igrejas católicas se encontrava à entrada da igreja e era usada para ungir a testa, fazendo o sinal da cruz.

Embora não seja consensual esta mudança de local, a população quer preservar a sua história e a pedra que batizou a aldeia. “A Pedra do Altar já não está no sítio onde nasceu, por isso a pedra não devia ter saído do local, pois simbolizava o centro da aldeia”, afirma Manuel Dias, um habitante da localidade. Já esteve à entrada da capela atual, mas devido às tentativas de furto decidiu-se colocá-la no interior da Capela erguida em louvor a Nossa Senhora de Fátima. Junto à igreja está o recinto das festas que se realizam anualmente no início de junho e junta os povos vizinhos de Estevês, Vale Clérigo e Vale Videiros.

Com o passar dos anos, a aldeia, que praticamente se reduzia a duas ou três ruas estreitas, foi-se alargando ao longo da Estrada Nacional 241 e hoje estende-se até às aldeias vizinhas, cuja fronteira só se distingue pelas placas de toponímia. Com cerca de 140 habitantes, a Pedra do Altar soube aproveitar bem o local de passagem principal de ligação terrestre entre quem vinha de Coimbra pelo IC8 até Proença-a-Nova e ia até à A23 pela estrada nacional, ou vice-versa. Os pequenos comércios foram surgindo e, apesar de atualmente a ligação nova do IC8 à A23 ter desviado o trânsito, estes negócios vão subsistindo ainda apesar de não terem o fulgor de outros tempos. A escola primária fechou e, entretanto, a pré-primária, de construção mais recente, também foi desativada por falta de crianças, um sinal comum a tantas outras aldeias do interior.

No entanto, a centralidade da Pedra do Altar, nomeadamente nos meses mais quentes, passou novamente a ser a antiga Escola Primária. As salas de aula onde noutros tempos se aprendeu a ler, a escrever e a contar, dão hoje lugar ao bar e aos balneários que servem de apoio à zona de lazer; e onde outrora se brincou no recreio é agora a piscina, que se tem revelado um importante núcleo agregador da população. A piscina e zona de lazer, construída em 2014 pelo Município, “traz muita gente nova”, como diz Manuel Dias de 85 anos, e representa um ponto de convívio e de recreio durante a época balnear, numa zona do concelho que não dispõe de praias fluviais. O espaço exterior foi completamente reformulado: há zonas pavimentadas, zonas verdes e uma piscina com 16 por 8 metros. Manuel Dias vê com agrado esta iniciativa e até “gostava que estivesse aberta mais tempo. Traz alegria à terra”.

Casado há 59 anos com Prazeres Tavares Martins, Manuel Dias diz que muito antes da escola primária que todos conhecem, existiu uma outra mais antiga, localizada perto da casa onde moram, hoje transformada num palheiro de feno, e onde estudou à noite para saber ler e escrever. “Durante o dia tinha de ganhar a jorna e à noite ia para a escola”, acrescenta. “Eram tempos difíceis. Se queríamos pão tínhamos de o semear, de o colher, de o moer e depois peneirar a farinha e cozer o pão”, exemplificou, não havendo oportunidade de progredir nos estudos.

No inverno coziam-se as couves, “as esferventeadas”, conta a Ti Prazeres, revelando a receita das couves e das sopas de cavalo cansado, à moda da Pedra do Altar. “A minha mãe tinha as couves a ferver numa panela de ferro ao lume e depois punha uma fatia de broa na boca da panela, estava lá um pedacinho, tirava-se para um prato, esmagava-se com um garfo e colocava-se um fio de azeite: eram assim as sopas de cavalo cansado, mas sem vinho. E se comêssemos as couves acabadas de cozer eram as chamadas esferventeadas”. Em honra às mães era cantada uma quadra, que também vem citada no livro Gentes da Beira Baixa, de Mª Assunção Vilhena: Minha mãe é minha amiga | Eu sou amiguinha dela | Minha mãe miga as couves | E eu meto-as na panela

O tempo de descanso reservava-se aos domingos, com os bailes e cantigas ao desafio, onde os rapazes solteiros namoriscavam as solteiras. Num desses bailes, a Ti Prazeres, não gostando de ser galanteada por um rapaz cantou-lhe de volta: tu és algo delicado | Como a palha do centeio | És amor de pouca dura | Não me agrada o teu paleio.

E para os casais se “encostarem” e “abraçarem” em épocas de namoros mais resguardados da vista dos pais e dos vizinhos, a Rua dos Abraços era a desculpa perfeita por ser estreita e não ser possível passar duas pessoas lado a lado, localizada junto à velha igreja, símbolo desta terra.

 PEDRAS BRANCAS

Pedras Brancas é uma das únicas aldeias que ganhou habitantes entre 2001 e 2011, contrariando a tendência demográfica de quebra de população. A localidade, pertencente à União de Freguesias de Sobreira Formosa e Alvito da Beira, registava pouco mais de 30 habitantes nos anos 50-60. Em 2001 eram apenas 25, alcançando em 2011 um total de 37 habitantes. Este acréscimo deve-se ao regresso às origens de várias famílias. Uma delas foi a família de Ana Sofia que esteve emigrada na Suíça.

Ana Sofia viveu na Suíça até ao 8ºano, altura em que os pais, Miguel e Nazaré Ventura decidiram regressar a Portugal para que as filhas estudassem no ensino português e para cuidarem dos pais já idosos.  Ana Sofia tem mais duas irmãs: Rita tem atualmente 20 e é estudante de Fisioterapia e a Eva com 9 anos, está no 4º ano de escolaridade e das três é a única residente a tempo inteiro na aldeia juntamente com os pais.

Ana Sofia viveu nas Pedras Brancas até terminar o 12ºano, depois ingressou na Escola Superior de Música de Lisboa, onde se licenciou em canto lírico, terminando recentemente uma Pós-Graduação em ópera no International Opera Academy em Ghent, na Bélgica. Hoje com 25 anos, regressa à aldeia, que apesar de não lhe dar oportunidade de ter um futuro profissional, é a terra do seu coração e “estar com a família é sem dúvida a melhor parte”. Durante o verão e o natal são as épocas do ano em que há mais gente na aldeia. “E é mesmo a época natalícia que mais adoro nas Pedras Brancas. Para além de ter a minha família reunida, a maioria das pessoas da aldeia juntam-se durante o dia 24 e 25 depois de jantar. Vamos provar o vinho de cada um e acabamos à volta da fogueira, comendo e convivendo durante toda a noite”, conta. O centro da aldeia fica junto ao chafariz, onde ainda hoje se faz o tradicional madeiro de Natal. Ilda Maria, de 68 anos, conta nos tempos da mocidade também se faziam os magustos no mesmo local. Uma outra tradição era o pinheiro de S. João, que consistia em cobrir um pinheiro de “capelas”, arbustos que florescem de forma espontânea por toda o campo por volta do mês de junho e que estão associados à fogueira da noite de S. João.

As tradições desta localidade revestem-se de um carácter pagão na sua maioria, pelo facto de não existir igreja na aldeia. Desde há 6 anos que foi construída uma pequena capela, que alberga os padroeiros Nossa Senhora do Rosário de Fátima e S. Bernardo, mandada erguer por Bernardo Cardoso, um natural emigrado no Brasil, uma demonstração da sua fé, onde apenas de realiza missa de dois em dois meses. As alminhas, localizadas na entrada da aldeia também foram doadas por um natural, Miguel Ribeiro, já lá vão 35 anos, onde antigamente era local de esmolas para a igreja.

Da ponta do terraço da casa de Albertina Marques, de 76 anos, a vista alcança o Alentejo, garante a septuagenária, apesar de a neblina que paira sobre os montes e vales muitas vezes não o deixar mostrar. Nasceu em Pedras Brancas e reside na aldeia há 40 anos desde que regressou de Moçambique onde esteve emigrada. “Casei, fui para Lisboa trabalhar e depois para Moçambique. Regressámos, eu e o meu marido, e construímos esta casita”, conta. A paisagem vista do terraço de Albertina Marques é bem diferente da vista de há 40 anos, quando “não havia luz, não havia água canalizada nem estradas”, acrescenta o marido. Hoje a vista é um lugar com casas vazias, poucas de habitação permanente e muitas de férias, que só voltam a ter vida em duas ou três épocas do ano.

Sem oportunidades de um futuro profissional, “quase todos os jovens tiveram de sair das Pedras Brancas. Sei que não posso ficar cá”, afirma Ana Sofia. “Depois de ter estado na Bélgica estes anos é muito complicado voltar para a aldeia. Todas as mudanças são muito complicadas. E infelizmente para piorar a situação não há tanta cultura como gostaria nem trabalho na minha área”.

Estudar música sempre foi um hobby para Ana Sofia, mas quando chegou ao secundário, começou a pensar mais seriamente nessa questão. “Era no palco que me sentia bem. Adorava interpretar papéis engraçados. Os professores também me incentivaram e o resto surgiu naturalmente”, descreve a cantora lírica.

A concretização do sonho de Ana Sofia foi possível graças aos pais que quando morava na aldeia a levavam três vezes por semana a Castelo Branco para poder ter as aulas no conservatório e apoiaram a sua ida para o estrangeiro para se aperfeiçoar. “Devo-lhes muito sem dúvida, mas também ao meu namorado incansável durante estes anos todos, sempre a apoiar-me. Todos eles me dão a força e a coragem que é necessária para continuar nesta área”.

Esta aldeia reza a história igual a tantas outras, um passado marcado pelo trabalho no campo, onde tudo se plantava para se comer ou vender a troco de dinheiro para poder comprar outros objetos, e um presente e futuro caracterizado pela saída dos mais jovens que partem, não por vontade própria, mas à procura de novas oportunidades.