Tradições populares

 

   

 

A religiosidade popular explica muitas das tradições preservadas ao longo dos séculos e ainda hoje mantidas nalguns locais do concelho. De entre as inúmeras manifestações, são particularmente interessantes as da Quaresma e Páscoa.

ENCOMENDAÇÂO DAS ALMAS
Trata-se de um rito da cultura popular muito antigo, cuja origem se presume remontar ao século X. Na raiz mistura ritos cristãos e pagãos, sendo conservado ao longo dos séculos pela piedade popular. Associada ao culto dos mortos, esta celebração é feita no período da Quaresma, tradicionalmente a altas horas da noite e em pontos altos das aldeias. É suposto os cânticos tristes serem ouvidos sem que quem canta seja visto.
O objetivo é contribuir, pelo meio de preces, para aliviar as penas às almas que estão no Purgatório (“Pregatório” ou “Purcatório”, ouve-se nas nossas aldeias), conseguindo que alcancem o descanso. A utilização de roupa negra significava o luto pelos mortos e o “preceito” do tempo quaresmal. Nalguns locais em vez de Encomendação usa-se a designação de Excelências.
Na maioria das povoações do concelho este costume perdeu-se há muitas décadas, mas há cinco aldeias em que se mantém. O grupo que se conserva constante há mais tempo é o das Corgas, que nunca falha a tradição, ano após ano. O de Atalaias foi recuperado há poucos anos, por iniciativa de um grupo de jovens que quis aprender com as mulheres mais velhas, e desde então reúne-se todas as semanas na Quaresma. Mais intermitentes, dependentes da ajuda de pessoas que vivem fora e vêm aos fins-de-semana, são os das aldeias de Galisteu e Cunqueiros. A partir de 2010 também voltaram a cantar-se as Excelências no Chão do Galego.
MADEIRO DE NATAL
As enormes fogueiras acesas no centro das aldeias ou no adro das igrejas continuam a ser ponto de convívio das populações na noite de Natal, à volta das quais se comem petiscos e se bebe um bom vinho. A recolha dos madeiros era tradicionalmente feita pelos rapazes solteiros, que no início de dezembro começavam a escolher os cepos que ficavam debaixo de olho.
Há 40 ou 50 anos o transporte era feito com recurso a carros puxados por animais, juntas de bois ou mulas e a tradição não ficava completa se não se levassem “emprestados” os carros mais adequados para a transferência dos cobiçados madeiros. Na vila de Proença, o local mais procurado era o “Barracão da Chica”, localizado na Rua das Pereiras. Na calada da noite era retirado o carro e levado para o local escolhido, atravessando caminhos florestais que não tinham as condições dos de hoje, o que dificultava a tarefa.
O resultado, com a algazarra e a admiração causada pelos maiores cepos, compensava o esforço. A qualidade da fogueira era atestada pelo número de dias que se mantivesse a arder. No Sobrainho dos Gaios, o madeiro ardia desde o Natal aos Reis – não ininterruptamente, claro. Depois do Natal apagava-se e tornava a acender-se na véspera de Ano Novo, voltando a repetir-se este ritual na noite dos Reis.
JANEIRAS
Enquanto no passado eram oferecidos cereais e carne da matança feita habitualmente em Dezembro, hoje os janeireiros recebem sobretudo ofertas em dinheiro. Mudam-se hábitos e ofertas, mas a tradição de cantar as janeiras mantém-se em muitas localidades, promovida por associações ou por comissões paroquiais.
Se nalguns casos foram sendo adaptados cânticos utilizados indistintamente noutros pontos do país, noutros mantiveram-se melodias e letras tradicionais. Uma das mais características, recolhidas na primeira edição do concurso de contos e poemas Natalinovas, é a entoada no Pergulho. Além da letra que se presume ser muito antiga, outra das particularidades desta aldeia está no facto de apenas os homens cantarem as janeiras e os reis, organizados em dois grupos que cantam como que ao desafio.